segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

fim da campanha da alfarroba 2025

Depois de um interregno para as azeitonas, conclui hoje, 26 de novembro, a já longa campanha da alfarroba. Como sempre executei a minha tradicional dança da adiafa, famosa por estes campos do barrocal sotaventino, que, por piedade, e pudor, diga-se em abono da verdade, não vos vou deixar em testemunho. Para o ano, se a paciência e a idade mo permitirem, haverá mais. Não há fim algum. Aquilo que alguns julgam ser o derradeiro, não é senão o princípio de uma outra coisa qualquer. Haja saúde!

Cão, Calceteiro de Letras 2025

O nosso amigo Rogério Cão, um algarvio de Vila Nova de Famalicão, é o Prémio Calceteiros de Letras 2025. Este Prémio, uma espécie de óscar algarvio, foi-lhe atribuído pela sua carreira de actor, poeta, diseur, divulgador cultural e, digo eu, pela excelência enquanto ser humano, foi, e é, mais do que merecido. Viva o Rogério Cão!

três vezes Marraquexe

Fui a Marraquexe três vezes. A primeira, em 1983, à boleia e de comboio. Desci na cidade com um dos meus maiores amigos, o Pedro Arroio, que já só nos acompanha no coração, depois de uma longa e indescritível viagem desde Meknés em terceira classe com bancos de madeira. Tudo fizémos, rejeitando toda a espécie de guias dedicados, para nos perdermos na medina. E tantas vezes o conseguimos como o desconseguimos, como dizia a outra. Jovens sem preocupações com o futuro, dormíamos na açoteia de um riad desprezível, mas de biliões de estrelas. O regresso foi horrível, o Pedro adoeceu e Marraquexe ficava num outro mundo. A viagem à boleia durou semanas e a febre só baixou quando atravessámos o Guadiana de barco para a nossa margem.

A segunda, em 1985, foi de carro. Um velho Renault 4, de traseira arredondada e generosa para mochilas e dormidas de ocasião. Éramos 2 rapazes e três raparigas. Uma delas já tinha ocupado o meu coração para sempre. O outro miúdo era, e é, o meu mais antigo amigo, desde a aldeia genética até ao mundo, das outras duas meninas, que enloqueciam os autóctones, podemos dizer que eram do Norte, Gaia e Famalicão, e que uma faz anos hoje. A viagem foi, como não poderia ter deixado de ter sido, com cinco jovens e um 4L, aventurosa e mágica e, só para vos dar um cheirinho, vou-vos relatar dois momentos da nossa estadia na cidade vermelha caricatos e cómicos: quando chegámos, instalámo-nos no riad Essaouira, onde eu, já, e único, conhecedor da cidade, dormira por noites na tal açoteia estrelada, num quarto para cinco. Na primeira noite as baratas eram tantas que o chão parecia negro. As meninas aos saltos em cima dos frágeis divãs, os heróicos rapazes de jornais dobrados em riste esmagando e desbaratando, literalmente, os omnipresentes insectos. No último dia quando nos deslocámos para a generosa viatura que, acauteladamente deixáramos perto de uma esquadra de polícia, e por onde passámos uma ou duas vezes durante a semana de estadia na cidade, para ver se estava tudo bem, dirigiu-se-nos um sujeito a informar-nos que tinha estado a guardar o carro durante a sua permanência no local. Exibia, até, um crachat que, supostamente, lhe dava autoridade legal para o referido serviço prestado. Alegámos que não tínhamos requerido o serviço e, atabalhuadamente, perante os protestos veementes do guardador de automóveis e uma chusma de curiosos que se aproximava do local da discórdia, quiçá cúmplices do despeitado, metemos a tralha que trazíamos no carro e acomodámo-nos na viartura. Quando o condutor deu à chave, uma, duas, e mais umas quantas vezes, o dimarré não deu a resposta desejada. O carro não pegava! Tivémos que recorrer à mão-de-obra ali à mão, passe a redundância, para empurrar o carro e o pôr a trabalhar com sucesso, depois de bem os remunerar antecipadamente, brincas!? Deixámos a cidade, com o carro aos solavancos, saudados com aplausos, festa e apoteose. A apoteose dos espertalhões europeus, claro.

A terceira vez, na sexta-feira, cheguei a Marraquexe de avião. Um horita desde a capital do reino dos Algarves. Nada de especial para contar das viagens: uma hora para lá, uma hora para cá. De resto, tudo continua igual: viagem com amigos e uma medina caótica, exótica e fervilhante. Seguramente mais turistas e mais motas e menos burros e carroças. Mais fumo e menos bosta.

Tão rápido como ir de Tavira a Portimão.

Parabéns Henriqueta! Minha Quitinha!

Metamorfoses na baía das ilhas de púrpura


Entre ... e ... também corre um deserto de pedras.



Uma borboleta pousou numa nespereira morta.

Uma abelha morta no meio do cus-cus.

Nunca digas que os santos não mordem e que as divas em vias de extinção não atiçam fogo no coração dos galãs postiços. Pastor de criaturas sedentas numa terra sem ervas. Segue os rios secos do deserto e desafia para a caminhada as mulheres que se cobrem de raiva e medo e se acocoram nas bermas do destino. Contempla as árvores de argan e rejeita os apelos das torres altas da medina. Recolhe os excrementos das cabras que povoam as árvores, visita a cooperativa das mulheres que fabricam os unguentos e besunta o teu corpo do óleo sagrado de argan. Procura o caminho do mar. Sempre o caminho do mar, e, quando o encontrares, lava-te nele de todos os desejos insanos. Insanos e belos. E antigos como os pomares esquálidos de argan.



Quando abandonares as areias de sangue da praia de Mogador, e as ilhas de púrpura, onde colherás o molusco roxo que trouxe as barcas, serás outro. Outro mais antigo do que o que aqui restará.

eleições nO GLORIOSO

Desde que um benfiquista racista, há os em todos os clubes, e, infelizmente, por todo o lado, fundou um partido e usou o clube, sem nenhuma demarcação do presidente da altura, de seu nome Luís, que deixei de ser sócio do clube do meu coração e pelo qual sofro, e exulto, desmesuradamente, com sérios riscos para a saúde. Soube agora dos resultados das eleições de ontem e, se houvesse democracia a sério, ou seja, um homem um voto, teria ganho o candidato que apoio: Rui Costa! Espero que ganhe à segunda volta! Está mais maduro, melhor acompanhado e espero que isso ainda se vá sentir nesta época desportiva.

PS. Por acaso tenho cá em "casa" dois jovens que, sofrendo nas derrotas e endoidecendo de alegria nas vitórias, não votaram, porque votaram, como eu teria votado.😪

Escritos e Escritores - Aviz 2025

Crónica de um fim-de-semana mágico. Não foi só porque aqui dei à luz a minha mais nova criatura, e isso seria suficiente para transportar Avis na minha alma para sempre, que nestas terras do Mestre passei uns dias espantosos e enternecedores. Foi, sobretudo, a forma como fomos recebidos e acarinhados por todos os que, com coragem e determinação, e uma, há que dizê-lo, boa dose de loucura, conduzem este encontro de "Escritos e Escritores", em Avis, por mares revoltos há 14 hierofanias. E a importância que têm estas iniciativas nestes territórios deprimidos e abandonados pelos vários poderes politico-administrativos. Um encontro entre gente boa! Escritores independentes, editores apaixonados, fotógrafos e poetas das comunidades deste imenso Alentejo, leitores desconcertantes e gentes simpáticas e acolhedoras vagabundeando nestas lindas terras de águias.

Longa vida ao encontro Escritos e Escritores! Longa vida aos Amigos do Concelho de Avis!

agroliteratura

Os lagares abriram! Campanha da alfarroba, quase no fim, suspensa e há que apanhar rapidamente, dentro dos possíveis, as azeitonas. A alfarroba pode esperar nas árvores e no armazém. As azeitonas têm que ser levadas atempadamente para o lagar, senão... o azeite fica no chão do armazém. O balde pêndulo é uma invenção deste vosso influencer: balde à altura do apanhador, gancho comprido para puxar os ramos mais altos. O trabalhador opera em pé. As costas deste vosso velho, literalmente, servo agradecem. Esta semana vão ser difícil. Vêm aí muitas atividades literárias...

As tradições são para manter!

As tradições são para manter! Manhã a britar azeitonas. À tarde, bem à tarde, continua a longa campanha da alfarroba. Depois vêm as azeitonas. E ainda nem apanhei os figos, tem que ser antes da chuva, do chão para a aguardente. E ainda tenho umas telhas partidas pelos homens da fibra ótica para mudar. E anda por aí uma criatura literária a nascer... A vida no campo é de uma monotonia que até arrepia.

A viagem é uma terra estranha

Sempre me irritou que os que vinham da cidade à minha aldeia soubessem falar das suas belezas e idiossincrasias melhor que eu e do que os que nela viviam. Falavam da aldeia como eu nunca a tinha visto nem pensado. Mais tarde, quando já tinha viajado até às cidades longínquas, e voltava à terra que me tinha visto nascer, também eu via e sentia coisas que nunca tinha visto e sentido antes. O inebriante cheiro da flor de laranjeira. O silêncio denso das alfarrobeiras. O corte de cabelo dos homens. O cheiro inimitável das tabernas. Os lenços cobrindo as velhas. As camisas de franela aos quadros dos pescadores. A melancolia dos caminhos. Quando voltei a primeira vez, sentia-me um estranho na minha própria terra. Até, no meu corpo. E esta nova perspetiva ainda mais me doía do que a que sentira em criança perante a opinião dos forasteiros de antanho. Tão infeliz e triste que jurei nunca mais sair das suas fronteiras porosas. E quando a aldeia se afastou dos seus antigos moradores, tornei-me um forasteiro numa terra nova. Já não saio dela quando saio dela.

Balila para sempre

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Depois de nos ter acompanhado por essa Europa fora, ter atravessado o deserto no sul de Marrocos e corrido Portugal de lés a lés, o "Balila", o nosso primeiro carro, encaminha-se para um cemitério de automóveis. Já há muito imobilizado (não conseguimos desfazer-nos dele quando, exausto, parou para sempre), depois de ser casota de cão e de constituir uma elegante escultura que marcava a quinta, o seu estado de degradação não permitia mais a sua presença junto de nós. Mesmo assim, foi com os olhos húmidos que nos despedimos dele até sempre. Só agora, que lavro este post, me esqueci de verificar se o Aniceto Soares-Pinto Rua (reminiscências políticas de antanho), o pato de borracha pendurado no retrovisor, e já meio fundido pelo Sol, o acompanhou. Amigos para sempre...

Festival Literário de Ovar 2025

Já aquietado neste cálido Sul - retomada, o que tem que ser, tem que ser, a labuta da alfarroba - não poderia deixar de agradecer o singular e fantástico acolhimento que me (nos) reservaram, no Festival Literário de Ovar, no fim-de-semana passado, que não mais vou esquecer. Esmagado pela qualidade dos participante e dos inúmeros e diversificados eventos ao longo destes dias, nem consigo imaginar o duro, intenso e exigente trabalho que a a equipa organizadora tem de desenvolver para montar, cuidar e acompanhar tão complexo e abrangente edifício.

O FLO tem levado a cidade de Ovar pelo mundo fora. O FLO já era uma referência literária e cultural para mim e para o meu mundo. Nunca tinha imaginado, como nestes dias constatei, da sua magnificência. Da alegria e do entusiasmo dos que nele se entregam e integram, da movida que enche espaços de conferências, debates, tertúlias e performances, que animam as ruas (e o comércio) da cidade dos azulejos, com os seus risos, suas vozes e rituais que celebram a amizade e a alegria. A vida!

Foi um privilégio imenso ter-me juntado a esta festa que celebra a cultura, a arte, a amizade e o futuro. Um futuro melhor: sem gente que se julga superior a outra gente.

Somos todos a mesma gente!

Obrigado Carlos, por este espaço sem tempo que nos ajuda a levitar sobre e sob o mundo e as suas contradições e a refletir sobre como o tornar mais suportável, e a ser melhores pessoas. Obrigado à Maria José e às tuas meninas!

agropoesia

O tempo não abranda, e as estações do ano impõem o seu ritmo repetitivo, circular, inadiável. Alguém tem que o fazer, e cá ando eu a filosofar pelo pomar de sequeiro, pelas mais doces sombras das sombras: as das alfarrobeiras. Vizinhos dizem-me que nem vale a pena. Estão a 5 euros a arroba. Mas eu sou como elas, um produto do tempo que vale o que vale, quando vale.

O meu editor telefona-me e manda-me meiles. Os versos são tão compridos, como os vamos espalhar pelas folhas? Vou a casa, abro o texto e envio propostas. Aproveito e vejo o João Almeida a atrasar-se na Vuelta.

Volto. Volto sempre. Voltarei sempre.

PS - Por aqui perto está a sepultura do nosso cão Matrix, que cavei docemente. Guarda a Quinta quando se chega.

Rabo de Peixe

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Em Rabo de Peixe, tudo nos conduz ao Mar.

Os rios dos laranjais


Sou eu quem conduz os rios pelo laranjal.



As águas seguem o que a enxada rasgou

Pelos torrões de barro, até às caldeiras

Que ocupam as sombras das árvores. No meio, o mastro de uma nave de frutos luminosos clamando pelos transeuntes.

Na terra sequiosa, as raízes absorvem os nutrientes

Da água que chega, das fissuras da terra que se encharca saem insetos apressados e toupeiras entontecidas pela luz que viola os seus olhos cegos. É um banquete farto para as galinhas da vizinha

Que seguem o mergulhar das águas. Por

Pura maldade, matam as toupeiras que abandonam destroçadas na charca que se esvazia. Fecha-se uma porta e abre-se

Uma outra repetindo o ritual da função que o passado tranporta. O calor instala-se por entre as árvores resvalando do barrocal sem fim. Acendo um cigarro e espero que uma nova árvore se alimente das águas subterrâneas que a enxada lhe oferece. Os pintassilgos cantam anunciando a maturidade dos dias e a plenitude das vidas.

O tempo estaciona em frente das poupas que escavam os caminhos e dos noitibós que dormem nas folhas que forram o chão.

Vindos da casa branca de cal que se ergue do meio do pomar

De laranjeiras vêm chegando risos de crianças.

Trazem os barcos para navegar nos caudalosos rios, e aportar nas mansas e frescas lagoas, nas sombras das laranjeiras.

Perante o espanto receoso das galinhas e o transbordante amor de quem manobra a enxada.

(agora mesmo, sem rede, na Casa Inglesa, em Portimão)

De lambreta voo


Levantei-me tarde, como sói acontecer aos poetas num país de poetas, e voei de lambreta até à cidade. Ia oferecer o meu novo livro escrituras a uma amiga. Quando se chega de lambreta à cidade, nunca há problemas de estacionamento. Deixei o motociclo no passeio em frente à casa da minha amiga e toquei a campainha. Espreitou à janela do 1.º andar uma moça nova, bonita e simpática, pedi desculpa pelo engano. Premi a tecla do outro lado e ouvi um clique de porta a abrir no referido andar. Subi constrangido pelo estado em que, supostamente, iria encontrar a minha amiga: sofria de doença cancerígena grave há uns meses. Quando atingi a porta certa, esperava-me sorrindo. De barba e bigode, de pelos à volta dos olhos, sem dentes, de rosto amarelecido e de barriga proeminente. Sorria! As radiações que curam também são as mesmas que matam. A mim só me vinha à cabeça o monstro da bela e o monstro. Sorria! Sorri! Cumprimentámo-nos como sempre. Como se nada do que estivesse a acontecer estivesse a acontecer. Mentindo sem palavras, com apreço um pelo outro. Como fora em dezenas de vezes, em outras circunstâncias.



Ficou muito sensibilizada com a minha oferta. Agradeceu! Agradeci!

Descuidei-me e perguntei-lhe como estava. Que estava bem. Tinha ido ao tratamento no dia anterior. Disse-lhe que, se quisesse, não falássemos nisso.

Queres um café?

Sim, pode ser. Estou com pressa, tenho uma reunião às 4, menti-lhe. Sem saber quanto tempo ia aguentar e preparando a fuga. Levou uma eternidade a fazer o café. Talvez gozando a presença. Quem só sai quando vai ao hospital deve apreciar as visitas.

A casa dava para o rio e entretive-me a ver passar os transeuntes na borda d`água. Quase todos turistas. Como se de um filme se tratasse. Passavam para não mais voltar. As águas da maré subiam a grande velocidade. Marés vivas: Lua Nova: Lua Nova e Lua Cheia maré alta às duas e meia, dizem os antigos. Peguei nuns binóculos que estavam numa estante perto da janela e olhei as margens do rio. As esplanadas dos restaurantes, cheias àquela hora de sol radiante.

Costumo espreitar os caranguejos violino na maré vaza, com eles. Este ano acho-os mais pequenos, não sei bem porquê. Com o café nas mãos. Sorria.

É ainda primavera, no verão serão maiores, aventei, sem que percebesse, ou me interessasse saber, alguma coisa de caranguejos.

Sentámo-nos à janela a tomar o café. Estava bem quente. Como o tempo que parara.

Disse-me que quando ia ao hospital, quando saía, punha a máscara para esconder as pilosidades faciais. Toda a gente o devia fazer, acrescentava eu. Com as bactérias que se apanham por lá.

Falámos dos filhos, dos animais domésticos que tínhamos e dos que tinham partido (não dei pelo gato que sempre teve), de alguns amigos comuns. De alguns, com pinças da minha parte, que haviam falecido. Da autópsia (sempre a morte a vir à tona da mente) que ela, com a minha incompetente assistência, tinha feito a uma araucária da Quinta da Cativa, que, depois de anos de crescimento vigoroso, tinha secado (bem contornada a morte hein) de repente. Autópsia inconclusiva, como era de esperar. Disse-lhe que me ia reformar este ano e ficou contente com isso. Vi-lhe nos olhos.

Acabámos o café em silêncio.

Ainda fumas, perguntou-me enquanto acendia um cigarro de enrolar.

Não, há cinco anos que não pego num cigarro. Com remorsos do tamanho de um pedregulho incontornável.

Há muitas formas de morrer, pensei eu.

Bem minha querida, tenho que ir. A maldita reunião, menti-lhe sem remorsos evidentes.

Despedimo-nos como sempre! Talvez para sempre.

Desci as escadas com os olhos nublados da dor. Dei à chave da lambreta e cavalguei-a para longe. Tão longe que não sei aonde fui parar.



Cativa, 9.5.24

da negação de um abrigo

Quem expulsa famílias de casas humildes, feitas com as próprias mãos dos moradores, com materiais pobres e achados no lixo dos ricos, e que não tem outro telhado onde se abrigar, só pode ser cruel e mau. Uma sociedade assim mete nojo!

o pranto do crocodilo arrependido

O pranto que por aí vai com o passamento do Jornal de Letras. Meus amigues! Foi só o desligar da máquina: o ruim defunto já estava em estado comatoso há muitos lustros. Acreditem que, talvez assim, possa surgir uma criatura neófita das suas cinzas. Do caldo literário que repousa frio e quedo, neste país acomodado, vai ser difícil nascer algo. Mas acreditemos! Pior, asseguro-vos, não ficamos. E, é sempre bom recordar: é da podridão que emergem as melhores árvores. DEP.

Tecno-feudalismo

Vivemos num mundo em que os mais ricos e as maiores empresas do mundo não produzem nada! O tecno feudalismo vive da subserviência dos seus numerosos, e cada vez mais aditos, servos.

P.S. perdão, produzem tolos.

Herberto Helder e um poeta dependurado numa árvore

Acabei de ler a biografia do Herberto Helder, pelo João Pedro George, Se eu quisesse enlouquecia, e gostei muito. Gosto de biografias agrestes e que não bajulem, ou beatifiquem, o autor. Tem falhas? Tem, como todas as biografias. Quem quiser mergulhar na Lisboa do último quartel do século XX, tem aqui um filme denso e fluído, movimentado e pormenorizado da vida nos cafés de muitos dos nossos artistas mais conhecidos.

Só um caso delicioso descrito no livro que cito de memória: tendo saído um livro de António Ramos Rosa, amigo do biografado e seu primeiro crítico, com uma apreciação bem positiva, que foi, vagamente, acusado de conter poemas plagiados a Helder, o poeta algarvio atira-se de uma janela, tentando pôr fim à vida. Por sorte cai em cima de um robusto arbustro que lhe salva a vida. Por acaso, passa na zona da ação uma sua vizinha a poetisa Maria Teresa Horta. Vendo o despeitado escritor aflito, entra num café e telefona para os bombeiros, ou para o 112, ou para a polícia, sei lá. Para espanto das entidades referidas e dos atónitos presentes no café, põe-se, aflita, a gritar para o bocal "depressa, venham depressa! Está um poeta pendurado numa árvore!"

da deformação do antropólogo...

A minha deformação de antropólogo faz-me, muitas vezes, deixar o conforto do sofá para, curioso, assistir a eventos estranhos e singulares. Hoje, para mergulhar no maior espetáculo jamais havido em Tavira, lá fui ao tão publicitado concerto dos Calema. Não conhecia nenhuma canção, mas lá me meti a caminho. Como conheço a cidade há muitas décadas, não me foi difícil arranjar um lugarzinho fácil e relativamente perto do evento. Constatei que, realmente, se tratou do maior concerto já realizado na cidade, e manifestamente muito profissional e eficaz. Ouvi os dois primeiros temas e fui-me dali beber uma cerveja ao centro da cidade, estranhamente calmo. No caminho, a análise antropológica foi-me remoendo as sinapses. Paradoxos da vida: milhares de pessoas, sendo no Algarve, e tendencialmente jovens, mais de metade, seguramente, votantes no chega, celebrando dois rapazes negros, imigrantes, de S. Tomé e Príncipe cantando canções com sonoridades africanas! Como quase sempre, a abordagem do antropólogo traz mais, e mais difusas, dúvidas e questões do que interpretações aceitáveis. Já a cerveja só apresenta uma simples questão: sagres ou super bock?

o nariz de cleópatra

Se o nariz de Cleópatra tivesse sido diferente nunca tínhamos tido o néscio oxigenado na Casa Branca.

Últimos- um romance sem fim, mas à beira do fim








 



Passam intelectuais armados até aos dentes.

De dor e crueldade.

Dançam em bicos de pés, ensandecidos,

Na quente calçada metálica.

Engolidos na noite.



















 



 







Nota de pesar da Casa Álvaro de Campos na morte da sua sócia honorária Teresa Rita Lopes

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TERESA RITA LOPES



Há pessoas que atravessam a nossa vida como torrentes de luz e nos arrastam pelos caminhos da sabedoria e do amor, que, afinal, são os mesmos, só que por voltas e veredas diversas. A Professora, Mestre, Teresa Rita Lopes foi, e será sempre, uma dessas pessoas luminosas e boas que alumiam os terreiros por onde passamos.

Teresa Rita Lopes, algarvia de Faro, acompanhou a vida da Casa Álvaro de Campos durante quase 40 anos, participando e organizando sessões de poesia e conferências sobre Álvaro de Campos e, o seu criador, Fernando Pessoa, desde 2010 até ter adoecido gravemente em 2022. No aniversário do heterónimo nascido em Tavira, no dia 15 de outubro, fazia sempre questão de estar presente. A poetisa e professora era madrinha da Casa Álvaro de Campos e sua sócia honorária, e, quando a doença a encerrou em si mesma, no ano de 2022, preparava, com a sua equipa de investigadores pessoanos e com a direção da CAC, um congresso internacional sobre Álvaro de Campos.

No início dos anos 60 matriculou-se na Faculdade de Letras e logo se envolveu nas atividades culturais da academia e da cidade, o que atraiu sobre si o interesse da PIDE. Em 1963, antes de ser presa pela famigerada polícia política, meteu-se no Sud Express e exilou-se em Paris. Na cidade das luzes, doutorou-se na Universidade Sorbonne Nouvelle com a tese “Fernando Pessoa e o drama simbolista — legado e criação”, e tornou-se professora na referida e prestigiada instituição. Em Paris, continuou a sua atividade criativa e literária intensa e apaixonada, tendo convivido, e conspirado contra o regime do Estado Novo, de forma cúmplice e solidária com a comunidade artística portuguesa exilada.

A sua tese de doutoramento irá ser o fio condutor da sua vida académica e de investigadora futura, fazendo de Teresa Rita Lopes uma das mais extraordinárias, inquietas e profícuas estudiosas de Fernando Pessoa. Segundo a Professora, antes dos seus estudos, ninguém conhecia Fernando Pessoa em Paris. Começou a vir a Portugal depois da queda de Salazar da cadeira e mergulhou a fundo, em apneia sôfrega, no baú deixado pelo poeta da Mensagem, único livro publicado em vida, trazendo-os, organizando-os e divulgando-os, à superfície, aos leitores, a maravilhosa, e sempre em reconstrução, obra do então esotérico e pouco conhecido poeta dos heterónimos. Consta até que, movendo conhecimentos privilegiados com o, à época, ministro da Educação José Hermano Saraiva, irmão do seu companheiro de então, António José Saraiva, conseguiu manter o espólio do poeta, prestes a ser adquirido para Inglaterra, em Portugal. Regressou a Portugal em 1976, tornando-se professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, onde chegou a professora catedrática e desenvolveu, com uma apaixonada equipa, os seus estudos pessoanos.

Para além desta intensa e apaixonada entrega aos estudos pessoanos, à Professora sobrou-lhe, ainda, talento e arte para escrever uma importante e diversificada obra de poesia, teatro e ensaios.

Ao longo da carreira, foi distinguida com diversos prémios, entre os quais se destacam, na poesia, o Prémio Cidade de Lisboa (1988) e o Prémio Eça de Queirós (1997), e no ensaio, o Grande Prémio de Ensaio Unicer/Letras & Letras (1989), o Prémio Pen Club (1990) e o Prémio de Teatro da APE (2001). Era membro da Academia de Ciências. Em 2019, recebeu a Medalha de Mérito – Grau Ouro – atribuída pela Câmara Municipal de Faro, e, em 2024, foi distinguida com a Medalha Municipal de Mérito pelo Município de Tavira.

Nascida em Faro e com família em Vila Nova de Cacela e Alcoutim, encontramos na sua obra estas sulinas paisagens da infância; as cores, os cheiros, os sabores, as brisas do seu Sul. A sua infância, a mãe e as tias, os velhos camponeses são o seu chão sagrado para uma criança que nasceu depois da morte do pai.

É pois, com profundo pesar, que nos temos de confrontar com a sua ausência física, mas com o eterno consolo de que a teremos para sempre nas nossas vidas, e que o seu legado será lembrado na história da literatura portuguesa.

Os seus olhos da cor do mar, a sua sôfrega procura de saber, a sua conversa solta sem fim e a sua gargalhada livre e feliz nunca se apagarão das nossas memórias.



Teresa Rita Lopes, pelo seu amigo Mário Botas

A guerra das duas semanas









Quanto mais em direto é a guerra, menos sabemos o que se passa. Mas duas coisas são certas: o Irão é um gigante com pés de barro, e o iron dome é um chapéu de chuva todo esburacado.








Teresa Rita Lopes









A nossa querida amiga Teresa Rita Lopes morreu. A mulher que mergulhou no bau de Pessoa e o trouxe à luz do dia, para todos nós, uma das mais extraordinárias estudiosas do poeta maior, uma algarvia emergindo do meio da cal, das alfarrobeiras e das figueiras, uma poetisa singular, uma mulher que gostava de viver, de viver com os outros, uma antifascista que teve que deixar o nosso país para o exílio, uma feminista militante, enfim: uma mulher que viveu uma vida única e dedicada aos outros, e distribuiu amizade, solidariedade e amor pelos caminhos que percorreu.

Na última vez que estivémos juntos, antes da doença que a prendeu em sim mesma, num jantar da Casa Álvaro de Campos, tendo ficado lado a lado, contámos histórias, rimos e brindámos com tinto pela noite fora. A Professora era uma contadora de histórias fabulosa. Falava das grandes vedetas da arte em Portugal como falava dos camponeses de Cacela ou de Alcoutim. Sobretudo dos pés-de-barro dos colunáveis da cultura.

Estaremos, para sempre, à volta da eira nas sombras densas das alfarrobeiras.



Rumo ao Sul



Bichos somos de um certo chão

o único

em que nossos passos encontram seu verdadeiro

sítio e som e ritmo

e nossos sentidos desabrocham

suas mais íntimas pétalas.

Sou daqui. Só aqui pertenço

aos três reinos da Natureza simultaneamente. Sei que

fomos originariamente pó de estrelas

mas só as estrelas algarvias me reconhecem :

piscam-me o olho e pestanejam com fulgor.

Sou filha do casamento da terra com o mar.

Meus olhos não sabem viver sem uma paisagem de água

e meu corpo precisa de assentar neste chão

de aqui vir

ritualmente acertar-se com esse sopro interior a que

chamamos alma.

No exílio reinventei com palavras

todos os sítios em que nasci e cresci

e agora são mais meus

porque assim os dei de novo à luz.

Meus deuses são morenos

como a terra e têm olhos de mar

como eu.

Um dia encontrei um na praia todo nu com um camaleão

no ombro e fugi.

Às vezes são venerados como santos

nas igrejas:

vestem-lhes a esplendorosa nudez

e dão-lhes nomes cristãos e tarefas a cumprir:

a de curar os olhos

ou os ossos ou a garganta

e há também um que protege

os animais.

Têm à volta bonecos de cera com a forma das partes

do corpo ou dos bichos que curaram.

Mas nas noites

de lua cheia fogem do bafio dos altares para o ar livre

e alegremente convivem com os deuses não domesticados

que continuam a viver à solta como bichos vadios

e juntos

cortejam as mouras encantadas que se evadem de suas cisternas

e ficam com eles a namorar

até de madrugada.



Teresa Rita Lopes

(Faro)
















 







O fotógrafo de Cesariny


O tempo passa sem as pessoas interferirem. Entro na casa do surrealismo e sou recebido pelo funcionário dedicado, outra vez. Publicita catálogos. Para depois.



Carrego no botão do elevador para o 2.º andar e subo sozinho. “Visto a Luz”, não resisto: é um telemóvel novo oferecido no Natal e registo. Splash, uma a uma. Talvez não possa, mas não há aviso algum e subo a rampa da galeria. Ascendo às voltas. Splash, splash, splash, as luzes que incidem nos pedaços do Mário refletem-se na máquina vindas das paredes que regressam outra vez. Estou a meio da subida escatológica e via-sacra da luz. Splash! O elevador escancara-se para mim e o funcionário dedicado, e diligente, atrapalhado, sai e admoesta: não pode!

Desculpe-me, não há aviso. Não tem flash, é só splash. Ficou a meio. O homenzinho, mais só do que nunca, desce até ao chão no elevador triste. Continuo a subir até ao fim. Mais só do que o próprio elevador triste.

Desço pela caixa vertical receando o funcionário dedicado, encalacrado. Não está ninguém na saída. Respirando o ar frio do carrossel de crianças que anda à volta do tempo, entro no cenário, exposto às pessoas que nunca interferem.

“Ama como a estrada começa”. Falta-me lastro trágico para ser coerente. Ser como as árvores no inverno.

Os catálogos? Ficarão para depois.



V.N. Famalicão, 29 de dezembro de 2011

Eu gosto de imigrantes

Eu gosto de imigrantes, e, já agora, também gosto de emigrantes. Gosto de movimento de pessoas. Não gosto de muros a separá-las. Por mim, todas as fronteiras deviam estar abertas, mesmo escancaradas. Claro que os migrantes teriam sempre que cumprir as leis dos espaços por onde se deslocam. Então viriam em massa, chegariam de todos os lados, e seriam, até, mais do que nós, e seria o caos, diriam alguns, vá lá, muitos. Bom. Em primeiro lugar, só abandona a sua terra, e sempre com sofrimento, quem não têm condições na sua (não vêm para Portugal imigrantes suíços, ou canadianos, ou japoneses), e procuram sempre países desenvolvidos. Por experiência de 40 anos de ensino, sendo professor de imensos filhos de imigrantes, constatei, com tristeza, que grande parte dos imigrantes usa Portugal como plataforma para conseguir emigrar para outro país, os tais mais ricos. Passam um dois anos em Portugal e, quando podem, lá vão para a Suécia, Bélgica, Inglaterra e outros que tais. Em segundo lugar, as pessoas só vão para lugares onde possam arranjar trabalho e, assim, melhorar a sua vida e a dos seus. Podem bem estar as fronteiras escancaradas que, se não houver trabalho, ninguém as cruza. Finalmente, e muitas mais explicações poderiam ser avançadas para não haver deslocações massivas para o nosso país, o mal estar, injustificado, nas comunidades de chegada, como são exemplo as vitórias eleitorais, e a força crescente, dos partidos de extema-direita, racistas e fascistóides, levam a um refluxo dos migrantes.

Dir-me-ão: mas, teoricamente, com fronteiras escancaradas todos os migrantes que quiserem podem entrar em Portugal. Podem, teoricamente, mas nunca na realidade. Também, teoricamente, todos os habitantes de Lisboa podem tentar apanhar o Alfa das 16.20 para o Porto. Podem, teoricamente, mas nunca na realidade.

Há quem lhe escorram lágrimas pela face quando vêem a festa do Senhor Santo Cristo na Califórnia, levada a cabo por emigrantes açorianos, quando ouvem povos do sudoeste asiático trautear um "malhão malhão ", deliram com as igrejas católicas em Goa ou Macau, com ruínas de fortalezas portuguesas na costa africana, ou, ainda, com os nomes nos mapas de Península do Labrador, Flores e estreito de Magalhães. Já quando se encontram com um sickh com a sua cabeça coberta, uma festa de Eid-al-Fitr, uma simples mesquita, ou um elefante chamado Ganesha, desorientam-se e tornam-se violentos como aimais selvagens.

Nem de coisa nenhuma


O homem é a medida de todas as coisas. Mas, o determinante artigo definido que antecede o axioma, aqui, é indefinido: o homem não sou eu nem tu: pode ser um homem qualquer. Nenhum homem é a medida de todas as coisas. Nem de algumas coisas. Nem de coisa nenhuma.



É, será?, por isso mesmo, que os limoeiros só dão limões depois de barbaramente maltratados: espancados com um pau dos duros, nunca de citrino, e, finalmente, se lhes espeta um prego no tronco. No lugar, se as árvores o tivessem, do coração.

Um furo no coração


A minha mãe explorou durante cerca de vinte anos uma loja de roupas e retrosaria em Olhão. Naquele tempo, a 125 era uma estrada estreita, sem escapatórias, ladeada, longitudinalmente, por muros de pedra. No inverno, quando as noites eram enormes e os dias terminavam de repente pela cinco da tarde, a viagem de regresso a Tavira, quando encerrava a loja, conforme a clientela, pelas sete da noite (por alturas do Natal chegava a encerrar à meia-noite), era uma verdadeira aventura. Na escuridão das noites e do alcatrão, sem qualquer marca horizontal a ajudar, os utentes, camiões e camionetas da carreira, carros ligeiros particulares, carroças, ciclistas e motociclistas, peões e animais ocasionais, circulavam nas noites escuras como entidades míopes à deriva. Os seres vivos que por ali viajavam jogavam a sua vida nesta via da morte. Em casa, esperando com o coração nas mãos, três almas em pânico, aterrorizadas, esperavam ansiosamente a chegada da esposa e mãe. Rezando a cada início de noite como crentes que não eram. Se as violentas chuvas dos invernos daqueles tempos limitassem a visão a um palmo à frente do para brisas, a angústia apoderava-se daqueles três seres e sacudia-os até ao tutano. Todas as chegadas eram celebradas como se fossem vitórias ciclópicas contra as trevas. Tudo se iluminava na nossa casa. É claro que durante estes anos todos ocorreram, com a nossa heroína, dos mais diversos e incríveis acontecimentos extraordinários na estrada que percorre todo o Algarve, de Vila Real de Santo António a Sagres. Fora os que a minha mãe, com uma visão fraca, e derivado às condições inenarráveis, não sabia bem precisar se tinham acontecido



na realidade e aqueles que a concentração focal no alcatrão, sequer se tivesse dado conta.

Um dia, por acaso no verão e com uma visibilidade magnífica, no regresso de todos os dias no nosso Anglia de vidro traseiro reclinado, de matrícula IA-32-12, à saída da Vila da Restauração, um arreliador furo fez travar a marcha triunfal até casa. A minha mãe, assisadamente, fez o devido pisca à direita e estacionou na estreita berma da estrada. O pneu já vazio fazia um ruído de restolho pisado por elefante em debandada. A condutora saiu do carro, envergou o regulamentar colete amarelo e colocou o triângulo uns vinte metros atrás da viatura, onde se situava uma paragem de autocarro. Na paragem, aguardando a carreira, estava um homem robusto dos seu quarenta anos.

-Boa tarde, cumprimentou o quarentão.

- Boas tardes, replicou a minha mãe.

Pousado o triângulo nas barbas do cavalheiro, a condutora retirou o macaco e o pneu sobressalente, e, sucessivamente, procedeu ao levantamento da parte frontal esquerda da viatura, à retirada da roda do pneu furado, à montagem da nova roda e, finalmente, sem ser no fim, à recolha da roda furada para o porta bagagens. À solta para na manhã seguinte a entregar ao cuidado do Luís mecânico, seu amigo e diligente artista das oficinas.

Sacudiu bem as mãos, limpou-as a um desperdício multicolor e dirigiu-se, imperiosa, para resgatar o triângulo. O sujeito supracitado saiu da paragem/abrigo do autocarro e dirigiu-se à minha mãe que dobrava o triângulo vermelho.

- Olhe, se faz favor! Não me podia dar um boleia até à Luz de Tavira?

Espumando de raiva, virando-lhe a cara e rodopiando com estilo, a minha mãe deslocou-se apressadamente para o carro e entrou de supetão batendo com força a porta. Arrancou a toda a velocidade deixando uma nuvem de poeira atrás de si que cobriu por completo o despeitado perguntador.

João Neves

Campeão europeu! Parabéns João Neves! Um menino de Tavira no topo do mundo!

Fernando Venâncio

Morreu um homem extraordinário! Fernando Venâncio, antes de ser o linguista de excelência, o professor e conferencista apaixonado, era um homem bom, solidário, amigo, simpático, prestável, humilde, simples. Um homem que amava o convívio com os seus semelhantes, semelhantes enquanto seres humanos, e que adorava estar entre os seu amigos à mesa ( ainda me lembro bem da sua recusa em comer uma belíssima salada de polvo, à do António do Cinema, em Tavira, e o cuidado que pôs em nos explicar o porquê de tal recusa, nem mais nem menos que a inteligência do animal , sem ferir as suscetibilidades dos que o apreciavam no prato). O prazer imenso que tirava das suas descobertas no domínio da língua portuguesa só era superado pelo entusiasmo e gozo que lhe dava a divulgação e discussão dessas descobertas, por vezes polémicas, novas formas de olhar e sentir, e mesmo usar, a língua portuguesa e a sua história. Este prazer levava-o, mesmo, a responder a toda a gente que na sua página do Facebook lhe punha questões e discordava das suas teorias. Depois de uma vida nos Países Baixos, voltou a sua natal Mértola, uma terra que não é fácil para acabar a velhice. Não porque trate mal os velhos, antes pelo contrário, mas devido ao relevo acidentado e ao terrível estio do Alentejo. Esta proximidade com o Algarve, trouxe-o, algumas vezes, a falar dos seus livros e da língua portuguesa por esta terras do fim do mundo. Conheci-o, há uns anos, no importante encontro de escritores Poesia a Sul, em Olhão, e tivemos a sorte de o ter na Casa Álvaro de Campos, em Tavira, como um amigo da casa e um conferencista singular.

Fui um homem mais completo e mais feliz em poder contar com a sua amizade nestes últimos anos da sua vida! Nunca o esquecerei!

Condomínio Vital


Escorei a minha vida para que a pudesses atravessar sem o perigo de desabamentos que te esmagassem. E assim, estaquei a minha vida nas profundezas da lama do devir, criei um exoesqueleto que me sufocou.



Errar é o meu destino.

A língua do Rei

Isto de falar a língua do país que nos acolhe tem o que se lhe diga: Ricardo Coração de Leão, um dos reis de Inglaterra mais famosos de todos os tempos, não sabia falar inglês.

vai para a tua terra

Os emigrantes portugueses quando, na Suíça, na França, na Alemanha, no Reino Unido, no Luxemburgo, no Canadá ou nos Estados Unidos, os mandam para a sua terra, acham os seus anfitriões simpáticos e generosos. Ir para a sua terra é o desejo final de qualquer emigrante.

Um mar de vidro


Ora, chegando ali sem dificuldades



Não encontrei o meu irmão pássaro que por ali deveria estar.

E descemos pelo caminho das piteiras-da-índia

Para junto dos homens e eles disseram: o pássaro

Morreu, ide em Paz. Porque te contemplas

Como se a culpa fosse tua?

Ninguém é livre para decidir o que contempla, respondi.

Para estes homens, espreitando das açoteias de barro,

Certamente, o perfume da morte detém a morte!

Porventura nunca chegarão a louvar-se a si próprios,

Porque eu os entristeço e manifesto a fragrância

Do que não existe. Deveis consolá-lo e não esquecê-lo!

Os pássaros creem, fazei, pois, o que admiram

E amam mesmo se esta não for a lei da multidão.

Vós que estais contaminados pelo ódio entoai

Cânticos diante dos anciãos e dos animais, diante

Das suas chagas reluzentes e mortais, perante

O medo dos homens comprados como se de primícias

Se tratasse e que nas suas bocas não se encontre o engano.



Vi, então, a sua cabeça ferida de morte e pus-me sobre a areia

Da praia gritando sobre as suas cabeças chifrudas:

É blasfémia a vossa guerra. Sobre os pequenos e grandes rios,

Os pequenos e grandes servos e indigentes será aposto

Um sinal que anunciará a vinda de um mar

De vidro da cor do vinho.



Cativa, 22 de março de 2025

O estertor do Novo Regime

A Revolução Francesa (1789), a mais efetiva, marcante e duradora das revoluções, parece estar nos estertores definitivos. RIP.

cal

Vão-se lá entender os mistérios da cal?

Eu sou indostânico!

Notícias da clandestinidade, do exílio interior: Eu sou indostânico!

Escrever é um renovar dos meus dias


Esse é o jogo impossível de imaginar. As páginas brancas são pradarias sem rosto perdidas na ilusão das sombras. Se risco a obscuridade converto a ausência em mensagem incompleta resistindo ao tempo. A caneta rompendo o vazio enquanto as crianças dançam na noite que sucede à luz e aprendem a atirar o pião no papel que resplandece nas palavras. O mestre soletra as letras que se acumulam sem sentido nos umbrais do sonho. Há alguém que embala um nascituro sem mãe, e isso significa o fim das entranhas das ervas, o fim do testemunho inútil do tempo inclemente. A crueldade do que se passeia frente aos mares profundos, aos abismos que ocultam a noite impossível, a regência do que nunca colapsa nos últimos registos do apocalipse. As escrituras serão atiradas aos crentes pelos profetas fraudulentos da vida, profetas que padecem da cruel realidade das palavras. Da ritualidade sinistra dos maestros nauseabundos. Escrever-te não é senão uma dança sem sentido que desconstrói o que fomos. Aprender a ler é um caminho através do sono em chamas.



( o meu texto para a Espúria, lido no Percurso Literário João de Deus, na primavera literária da Feira do Livro de Faro.

eleições legislativas 2025

Tenho lido centenas de análises e comentários sobre o resultado das últimas eleições legislativas, por parte de analistas de esquerda (os de direira não analisam nada: ganharam porque são melhores, talvez ungidos pelo divino). A maior parte bate na velha tecla das dificuldades do povo no dia a dia, dos direitos sociais e económicos perdidos com as políticas neoliberais, com o domínio dos órgãos de comunicação social pelos grandes grupos económicos, etc., etc., etc. A maior parte das vezes, estas discorrências apenas servem os discorrentes que, desta forma, ficam autossatisfeitos e satisfazem os seus consumidores, já consumidos. Ora este movimento em direção das mais obscuras e pantanosas direitas no limiar da legalidade, acontece em toda a Europa, e mesmo por todo o mundo onde há eleições. Nos países ricos, vejam-se os casos da Holanda, Suécia ou Finlândia, na complexa e desorientada Alemanha, e menos ricos, vide os latinos Itália, França ou Espanha. Portanto não há, na essência do problema, uma ligação causal entre níveis de vida e viragem à direita. Meus amigos, acontece que o simpático e ternurento povo é reacionário. O povo é, sempre foi, reacionário! E isso nem é mau nem é bom. Até funciona bem quando essa reacção sustem as movimentações radicais e extremistas de algumas franjas revolucionárias, de direita e de esquerda, mantendo o equilíbrio social das comunidades.

O mundo está em mudança acelerada e as redes sociais, mais a IA, que se interpenetram e confundem, estão a mudar as democracias. Com o algoritmo a cavalgar as arquetípicas forças que conduzem os homens, o medo, o ódio ao que é diferente, a vaidade, o egoísmo exacerbado, o sexismo machista, a menorização da mulher, e por aí fora (também existem, graças a deus, instintos "bons" na condução dos comportamentos humanos, mas, vá-se lá saber porquê, os manipuladores de algoritmos, logaritmos e cookies parecem não gostar lá muito deles...).

Como dizia o outro, habituem-se. Nestes tempos novos de redes sociais e IA, possivelmente, a esquerda nunca mais vai ganhar eleições. Eleições como as que foram inventadas nos países ocidentais em meados do século XIX.

atrasado mental por convicção

Quem passa o tempo todo a atacar os emigrantes, e os mais frágeis da sociedade, só pode ser um miserável atrasado mental. E, nisso, voluntário!

Das verdades que nunca acontecem


Se das fímbrias da tua árvore natalícia, sarça fria e informe, pingasse sangue, a árvore cumpriria a sua promessa de destino: tingir de dor o chão onde cicatrizam os teus passos. Serias então tu a conduzir as tuas errâncias e a rasgar o tempo instalado nas fendas irregulares do esquecimento, nas profecias anunciadas ao principio da agonia incandescente da palavra. Se no chão escarlate que atravessas sem destino não se fecharem as cicatrizes do nascimento dos insurgentes, o pântano ungirá de nojo as verdades que nunca aconteceram.

Num dos lugares mais bonitos do mundo, Cacela Velha, velhos, no duplo sentido da palavra, amigos encontram-se na despedida de um outro velho amigo. Os primeiros partirão para as vidas que se estendem pelos caminhos que os conduzirão ainda, o que aqui os traz ficará, restará, para sempre.



(para um amigo que morreu hoje)

Casas dos avós

Visitei hoje as Casas onde os meus avós paternos, Pedro e Amélia, viveram com os três filhos crianças, Jerónimo, Joaquim e Fernando, antes de se terem mudado para a Cativa. O que eu vejo agora mesmo, tirando as casas que estão há muito em ruínas, é o mesmo que a criança que foi o meu pai Fernando via enquanto brincava neste lugar mágico do fim do mundo, nas fraldas da Serra do Caldeirão. E os meus olhos são os seus olhos! Até ao fim.

o que queima não presta

Eu escolhi um ladrão de malas para deputado, um pedófilo para vereador, na capital, corruptos por todo o lado e um condutor alcoólico, já nem sei onde, mas não tenho culpa nenhuma: mandei-os logo passear. Não sou como os outros. Pudera, queimavam mais que ferro em brasa.

Da loucura à lucidez


Para ser lúcido não temos que aprender nada. Temos que esquecer tudo: primeiro despir o casaco das sensações, depois a camisa ou camisola dos sentimentos, em seguida, ainda, a t-shirt das emoções e, finalmente, arrancar a pele dos arquétipos e escarificar a carne e extirpar a própria cadeia genética. Depois, com a nudez escancarada, procurar as erupções da loucura. Só esta permite soltarmo-nos das peias deterministas que nos roubam o inalcansável livre-arbítrio. Romper o couraçado material genético, impregnado antes da ascensão da cultura nas comunidades humanas, e da infecção posterior da cultura emergente no programa genético, em continua e consistente modelação pelo ambiente natural e artificial. A loucura, inquieta, irregular, flexível, ondulatória, intensa ou desmaiada, ocasional ou prolongada, intersecta a liberdade do pensamento e a procura da sabedoria fora do humano, a constatação, e a construção de uma nova humanidade. Mais lúcida, mas também mais frágil, inconstante e inconsequente. O homem que mergulha no esquecimento e persegue a lucidez é um caçador de gafanhotos loucos, ou seja, um predador de momentos de loucura humana mais acentuados, picos de flamejante, e perigosa, insanidade. É aí que se podem observar os momentos de maior liberdade e, mesmo, delírio criativo que um ser humano pode experimentar.



Por exemplo, a libido e a beleza, a inutilidade do que é belo. Até porque, para entrarmos no âmago de nós mesmos temos que ir acumulando dados retirados da nossa consciência e arrumando-os na memória, que, como todos sabemos, os deixa degradar, corromper e entrar em fusão e fricção, uns com os outros, baralhando-os, seccionando-os e fundindo-os em amálgamas e conjuntos inescrutáveis e indescritíveis. Bastaria, o que raramente acontece, a deterioração de um só dos elementos congelados, para que, assim o diz, asisadamente, a teoria metodológica das ciências sociais, e todo o edifício, em construção com tão ruins materiais ruiria como um castelo de areia. Ou, pior ainda, daria lugar a um outro edifício que parecendo o nosso não seria senão a definitiva prisão da nossa sepultura. Ou seja, tudo se tornaria mais estranho à compreensão e ao pensamento do que quando jaziam em suas camas profundas, relativamente inertes e pouco expressivos e atuantes, à primeira vista. Porque quando digo que não gosto de pretos, isso não é um pensamento, uma ideia, trata-se de uma reação instintiva gerada no fundo mais fundo do subconsciente que nos obriga a "pensar" assim. Como não é inteligente, sendo-o na realidade, o acto de um cão escolher as sombras no verão, e o sol no inverno, como melhor lugar para se colocar. Ou, gostar mais do azul do que do amarelo. Ou, ainda, ser do Real Madrid. Nenhum destes exemplos se refere a uma escolha: trata-se simplesmente de uma imposição. Uma impostura! Mais evidente se mostra quando as ideias, ações e os comportamentos são involuntários e contra os desejos do indivíduo, como por exemplo quando coramos, quando temos uma ereção desadequada, durante os lapsos de linguagem, ou troca de nomes. Não renegamos o livre-arbítrio, mas a sua influência causal é muito mais limitada do que pensamos ser e queremos que seja. Não podemos também excluir destas equações que atiram as ideias, os pensamentos e as ações para mínimos de autonomia criativa dos seres humanos, da também forte influência das impressões assimiladas na vivência nos alvores dos novos seres. Não é preciso escarrapachar toda a teoria freudiana e psicológica sobre a brutalidade do ambiente natural, social e cultural que é exercida, inexoravelmente, nos primeiros anos das criaturas humanas. Acrescentando a isso o peso das regras morais, religiosas e dos condicionalismos éticos, se bem que mais fáceis de contrariar e manipular, e temos a mancha comportamental possível quase toda ocupada por uma escura sombra que impede a livre escolha e impinge uma panóplia comportamental e um rendilhado ideológico que podemos comparar ao celebérrimo destino tão evocado nas sociedades iletradas e em franjas das mais complexas.

Ora este tipo de reflexões arrelia os homens. O centro do mundo, a humanidade, desloca-se, desta forma, para a periferia e o homem é atirado para o lugar que sempre ocupou e sempre ocupará: a utopia. Ou, melhor dizendo, um território tão vasto quanto o universo. Tirar-lhe o livre-arbítrio representa, na sua soberba auto estima, o mesmo que representou quando Galileu nos retirou do centro do mundo, quando Darwin nos tirou do centro da criação, quando Nietzsche matou Deus ou, situação semelhante à abordada neste pobre texto, quando Freud retirou à consciência o domínio dos pensamentos e acções. Quando Jung atira a emergência das nossa emoções e comportamentos para a profunda caverna do mundo dos arquétipos (onde já Platão nos tinha aprisionado para observarmos, lá no alto luminoso, a realidade de sombras que conhecemos).Não estávamos ainda refeitos deste abanão apocalíptico quando o sr. Émile, Émile Durkheim, nos sufoca com uma sociedade que gere a nossa existência enquanto seres sociais, de forma inconciente e através de prémios e castigos e, de foma severa, utilizando a vergonha e a culpa como instrumentos castradores da idiossincrática ação. Mesmo no suicídio, que Camus afirmou ser o único problema filosófico verdadeiramente sério, e que Durkheim estudou a fundo e apresentou nessa obra genial e monumental que é "O Suicídio ", o autor adianta que uma parte significativa destas mortes voluntárias autoinfligidas, passe o pleonasmo, são inexplicáveis, tanto para os autores como para os observadores atentos.

Não será esta minimização do livre-arbítrio popular entre os seres humanos, como será compreensível. Mas, como vimos este exorcismo brutal não é novo. Deleuze defendia que a filosofia levava sempre ao entristecimento, e, salvo raras excepções, quem gosta do caminho das tristezas? Por isso usamos todas as estratégias possíveis e imaginárias para ocultar as nossas tristezas, que, afinal, não são nossas... Os livros de autoajuda pululam modelando leitores, as redes sociais tornam-nos perfeitos e belos, políticos populistas prometem dar-nos tudo o que nos tiraram (não é por acaso que os seus principais alvos a abater são as elites, sobretudo as universitárias) e os políticos do sistema contornam os problemas mais graves e os mais urgentes de forma a não incomodar o povo. Mentem todos à sua maneira. Para ajudar à festa, que ainda agora começou, a IA promete resolver todos os problemas, em todos os lugares, em todos os tempos.

Cativa, 30/4/2025

uma minuta literária

Tenho um amigo, escritor conhecido, que, muito solicitado para fazer apresentações de livros de amigos e conhecidos, usava uma minuta e quase só mudava o nome do autor e do livro a cada novo evento.Meia bola e força! Era um sucesso garantido e inúmeras vezes testado. Só alguns autores davam por certas e determinadas imprecisões, pouco relevantes, e, por isso, face ao valor da generosa prestação, ignoradas.

Este governo, e ontem a prestação do senhor Primeiro-Ministro foi exemplar, parece usar o mesmo método. Falham as maternidades, minuta, falha a luz, minuta. É fácil, simples e dá pouco trabalho.

Arte Vaca

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É já, antes de o ter sido, o acontecimento cultural, e porque não social?, do ano! O artista plástico, há muito afastado das grandes exposições de pintura, expõe (-se) na Galeria da Casa Álvaro de Campos, em Tavira. Quem falhar é um pepino fora de prazo!

Convite Exposição ARTVACA/ Ricardo Baptista - Casa Álvaro de Campos Tavira - 2 maio/ 18h

O fogo que te assombra os desejos


Eu tenho medo de andar sobre o fogo.



Os meus pés são de seda e cetim. Não sou tão novo quanto

Os dias de antanho e os meus sonhos soçobraram perante o grito

Das saudades dos que caminham sob a chuva sem casaco.

Sou feliz quando acordo com os pés negros de caminhar

Sobre as cinzas incandescentes, as brasas mornas do tempo por

Parir. Os meus sonhos, sabe-lo bem, são como pedras semeadas

No chão pisado dos caminhos perdidos onde se esperam os

Caprichos vagos da podridão perdida. Nunca os nossos passos se fizeram

Sentir sobre os teus ombros, nos sótãos da consciência vazia. Nunca

Os meus pés caminharam sobre o inferno que te assombra os desejos.

A solidão só apascenta as almas ao emergir do crepúsculo. As ervas daninhas são o seu

Sustento e a sua alegria contida. Nem só de paz vivem os que da luta fazem caminho. Só da

Inação acrescentam ao que não bebe do suor da lavra indelével e crua. Dos lentos

Envolvimentos da luz saem linhas de sombra encobrindo as quimeras do enlameado

Canto das sereias. Apaga-se a claridade dos anjos. Dos apetecíveis manjares do reino

Das cruzes justificando o mal que nos refreia a cruel ilusão da morte. Agora que

Os lamentos de deus se infiltram nos interstícios da penumbra e se instalam

No rude restolhar das fogueiras, que as virgens assomaram às portas escancaradas

Do devir, não contes comigo para caminhar sobre o fogo que as tuas mãos acenderam

No chão das tormentas vadias. Não contes com o meu pavor ao teu afago da pele: da minha pele magoada pelas tuas carícias infundadas.

O meu medo será o teu medo: as excrescências impolutas dos sentidos. O que de raro se incendeia e se ateia aos que nunca foram senão o que nunca foram.

Pássaros gigantes que transportam os mármores devolutos da sombra. Os cantos dos que

Objetam perante o amor. Teimosia breve encarando o tempo das remotas heresias. Das imensas alegrias que o outono acarreta.

Caminhas sobre o incêndio que me devora. O negro que o mar oferece sustenta

As mãos cansadas de te dizer o que a loucura asperge na lentidão das noites.

Cativa, 27.6.2024

25 de Abril, 50 anos

25 de Abril Sempre! Enquanto por cá andar comemorarei sempre este dia como um dia inicial, inteiro e limpo. Sempre!

O que a revolução nos trouxe, foi um país como os outros da Europa. O resto, o resto são as pessoas que fazem. Não o que esperam que os outros façam. Bem sei que anda por aí muita gente com raiva da vida, e culpa o 25 de Abril por tudo: por tudo o que não cumpriu e por tudo o que cumpriu. A normalidade, inexplicavelmente, chateia tanto! Somos um país da Europa, como os outros, e eu gosto disso. Quem não gosta, azar!

Viva o 25 de Abril! Viva a liberdade!

o cu de Trump









Afinal, nenhum líder mundial consegue beijar o cu do Trump, acerca das tarifas: ele tem saído sempre das suas entradas de leão com o rabo entre as pernas. E o rabo, a cauda, cobre-lhe, assim, tornando-o inacessível, o publicitado buraco negro.


















 



 

 







O Papa argentino

Já viajo neste mundo há algum tempo. Sou contemporâneo de seis papas: João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco I. Lembro-me muito bem dos últimos cinco. João XXIII morreu em 1963, tinha eu cinco anos. Não me lembro dele a não ser pelos livros de história: foi um papa revolucionário que mudou como poucos a Igreja Católica, no Concílio Vaticano II, admiro-o muito por ter tido a coragem de o fazer. No entanto, sendo eu um ateu/cristão (ou, talvez, um cristão/ateu), não baptizado (nem faço ideia da coragem do meu pai para ter decidido não me batizar nos finais dos anos 50), o Papa com que mais simpatizei foi o Francisco. Desde logo pelo nome: como foi possível nunca ter havido um papa com esse nome? O nome de um santo tão importante para a Igreja? Terá sido porque foi o santo dos pobres e do desprendimento material? Depois, pela sua bondade e proximidade com as pessoas simples, pelas causas dos desvalidos, dos mais ostracizados e frágeis e dos que nada mais têm do que a religião para se abrigarem.

Boa viagem, Jorge!

P. S. - Afinal, ainda fui

contemporâneo do Papa Pio XII por uns 6 meses.

tèrcio Nanook

https://youtu.be/0QdWy-HZi-U?si=cHwmpKsXtGCmGuyZ


(...) quando a normalidade não parece ser o que realmente é: um momento vazio mas indispensável (...)

O suicídio das alfarrobeiras

Como seres vivos complexos, as alfarrobeiras também se suicidam.

A Europa fora da Europa

O Trump não sabe, e muita gente também não, que os EUA e o Canadá são dois países europeus, na América. Como, nos antípodas, o são a Austrália e a Nova Zelândia. É um pouco como o clima mediterrânico: também o encontramos na Califórnia, no sudoeste da Austrália e no sul da África do Sul.

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...