segunda-feira, 28 de agosto de 2006

politicamente correcto e incorrecto/sexo e género

Isto está mesmo muito complicado. Já nem se consegue ser politicamente correcto. Ou melhor, o politicamente correcto está a virar incorrecto. É um pouco como a paixão. Já repararam que toda a gente vive em estado de paixão... é caso para dizer que já ninguém vive apaixonado. Sendo a paixão um momento de excepção, se se está em permanente estado de paixão esta eclipsa-se. Mas voltemos ao politicamente correcto.


Fui visitado este cálido Verão por dois amigos que não via há 15 anos.(E aqui começa a minha consciência politicamente correcta a, desculpem-me, "correctar"). São os dois homossexuais e vivem juntos desde que os conheço. Continuam juntos até hoje.


A tal minha conciência: se fossem um homem e uma mulher não escrevias posts em blogs, pois não? Certo, respondo.


 A tal consciência: se fossem um homem e uma mulher não estavas a pensar, tanto tempo juntos? Confesso que o estava a pensar mas, se no caso abordado em cima não tenho defesa, aqui vou ripostar.


Minha rica consciência não se trata de avaliar o tempo de vida de um casal homossexual. Trata-se de uma questão de género. Explico-me: sendo os homens mais dados a comportamentos promíscuos (não consegui melhor termo) a longevidade de um casal homem/homem, mais volátil,  poderá ser responsável por este meu pensamento. Possivelmente se fossem duas mulheres nunca teria ousado pensar desta maneira.


Escusado será dizer que a minha dita consciência já está a maltratar-me com uma murmurante vozita, os homens mais promíscuos?! És capaz de me fundamentar melhor essa teoria reacionária e ...


Retirei-me apressadamente. Ainda vou conseguindo afastar-me da minha consciência quando ela se torna mais chata que a potassa.


Errare humanum est. Desculpem lá o meu fraco latim.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Estava Frio na Tarde Poeirenta

 


 


 Estava frio na tarde poeirenta. Agarrou os sapatos e entrou descalço no cemitério. Algumas beatas místicas adoravam os seus mortos ruminando palavras silenciosas. Percorreu o corredor central e chegou-se à sepultura de uma mulher de óculos escuros sem lágrimas. Pousou os sapatos. Olhou as árvores repletas de caracóis e começou a assoviar baixinho. As beatas ruminavam a líbido esperando compaixão das almas inertes.


  Passara um ano sobre a morte da mulher de óculos escuros sem lágrimas. Era a sua primeira visita.


 O Outono descia as persianas. O Universo rodopiava, sem pressas, em volta do cemitério.


  Subiu a colina suave da sepultura e sentiu os pés descalços a enterrarem-se na terra. À procura da raiz.


  Há anos, quando repousava no seu regaço, sentia as mãos tremer de gozo. Lembrou-se das galochas que sempre quisera ter e nunca teve e que os rapazes da rua sempre tiveram.


  Olhou o céu à procura de encontrar Deus a sorrir. Não existe. As beatas consumiram-No . Existe. Só existe o que se pode consumir.


  Sentiu as mãos tremer de gozo. Os pés terrados .


  Bruxas no sabat sem fim aproximaram-se do cemitério. Pensou nos mortos ricos e nos mortos pobres, que foram vivos pobres e vivos ricos. A loucura passa pela maior das normalidades quando tem um espaço onde se projecta. Só quando o pano de fundo desce, a loucura cai à rua: é doido varrido, vê pulgas na opa de sua majestade, quer saudar o infinito, satisfaz-se no vazio. A mais grave.


  As viúvas místicas atingem orgasmos na penumbra das sepulturas.


  Os espaços sagrados aparecem quando os seres do Além se fundem aos do Aquém e aqui começa o sabat. Fantasmas e vice-versa, num só, debatem os mais prementes problemas da Filosofia contemporânea.


  Mãe, por que me abandonas-te? Acaricia-me os pés. Faz-me tremer as mãos. Vamos construir um mundo porreiro sem carimbos na consciência.


  Parecia que o tempo não passara mas o Sol caíra atrás da parede do cemitério e como era preciso atravessar o ritual da morte para participar no sabat, o coveiro, homem devidamente encartado para tal, expulsou as almas do outro mundo para o outro mundo.


 

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Requiem Alemão

Como é possível dar 48 voltas ao Sol sem nunca ter ouvido o Requiem Alemão de Brahms ?


Finalmente fruí-o integralmente ontem. Absolutamente fantástico!


Brahms Ein Deutsches Requiem


Arleen Augér (soprano)


Richard Stilwell (barítono)


Robert Shaw (Atlanta Symphony Orchestra and Chorus )


Telarc Digital

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Uma Catacumba Caiada

 


 


 


  Quando o calor se atirou à aldeia, podre e venenoso, o Zé saiu da taberna ziguezagueando.


  Sabia que nunca mais iria enterrar ninguém. Via- se pregado na parede do cemitério rodeado de aranhas que dançavam titubeantes e macabras.


  Contra o que sempre pensara, não morreria velho e foi- se despedir da espanhola com quem dormira as duas últimas noites.


  Àquela hora  os cães dormitavam nas sombras, abanando o rabo à sua passagem.


  O presidente da junta tinha-o prevenido três semanas antes que a profissão de coveiro era ingrata: - o osso é duro de roer. Mas o importante é que há mais marés que marinheiros.


  Em Lisboa, nos tempos de casado, tivera ofícios duros. Mesmo assim sempre pensou que morreria velho. Nem mesmo a separação da família o desesperou, e a vida era vivida com um sorriso interior, de parietal a parietal.


  Porém, o aviso preocupou-o.


  Caminhou junto à parede para aproveitar a sombra dos beirais. Torneou um barco semi desfeito de saudades. No poial da porta da espanhola estava, despreocupado, o marido desta. Despreocupação de corno manso, pensou.


  Atirou-lhe dez tostões. Para a aguardente de figo.


  O canavial murmurava sons de juventude, levemente embalado no sueste. A velha nora espiava por cima do casario árido vindo do deserto.


  Afastou a rede mosquiteira da porta e entrou no escuro antro dos pobres. Fixou os olhos, sem medo, no cristo ameaçador do fundo, e releu o prato azul violeta: " o cabelo que foi loiro e depois se debotou, lembra alguém que tinha oiro e em prata se transformou".


  - Romualda , chamou baixinho.


  Os ladrilhos libertavam uma frescura agradável a alfazema. Entrou no quarto e viu-a estendida na esteira, completamente nua. As dobras da barriga pendiam-lhe até ao chão, subindo e descendo ao ritmo da respiração pesada. Não acordaria mesmo que um tubarão entrasse na ria e comesse metade dos homens que dentro de água esquartejavam os atuns do copejo da madrugada. Ficaria para mais tarde. Muito mais tarde...


  Procurou nos bolsos das calças um cigarro, e foi encontrá-lo num da camisa. Acendeu-o ainda dentro de casa e saiu decidido ladeira acima em direcção do cemitério.


  No caminho entrou na tasca do Marcolino - estrategicamente situada entre os mortos e os vivos - que dormia com a cabeça sobre o balcão. Balcão de amendoeira de amêndoa dura, onde se apoiavam as mais diversas vidas, desde o começo dos séculos.


  Serviu-se a si próprio de medronho. Era a única bebida que, no estio, lhe refrescava as tripas.


  As aranhas começaram a movimentar-se no seu cérebro dando-lhe uma sensação de inesgotável prazer.


  O Marcolino mudou de posição, disse alguma coisa arranhada, e continuou ouvido colado aos sonhos infindáveis do balcão. A venda era impotente perante o calor que se ia instalando sem pagar.


  Mais um medronho e saiu levando consigo a garrafa. Pagaria depois. Muito depois...


   "Medronho puro a bebida do futuro", rótulo sem cor sobressaindo da solidão das ruas escaldantes.


 "Nós ossos que aqui estamos pelos vosso esperamos". Entrou. Dirigiu-se à cova que começara a abrir pela manhã. Ajoelhou-se diante dela murmurando álcool para as entranhas da Terra.


  Sem que desse por isso, da catacumba do General, saiu um esqueleto com galões a condizer, armado de martelo e pregos. Com o queixo aprumado, protuberante, e rodando sobre os calcanhares a cada sepultura, chegou-se ao Zé que flutuava a um palmo do solo. Deu-lhe o braço e foram os dois até ao lado Norte do cemitério. Aí, o esqueleto general, pregou o esqueleto do inferno na parede caiada, peça do puzzle infinito da calmaria.


  As aranhas, agora livres, saíram à rua semeando  panfletos incendiários aos transeuntes.


  Duas árvores, frondosas, coraram de cumplicidade.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

notícias de um livro e de uma trilogia anunciada

Estamos no 29º conto do livro "Transeuntes". Vão ser 33. Aproximamo-nos, portanto, do Fim.


Descansem os míseros leitores (míseros de poucos) que "Transeuntes" é apenas uma talhada de uma trilogia  que me propus editar por esta via.


Seguir-se-ão um livro de poemas (ainda sem título) e, finalmente, e se o conseguir, o supra sumo da obra literária: um romance. Este último, sem título e sem uma só palavra mas com muitas ideias.


Comecei por desprezar a quantidade de leitores mas a angústia de não saber se, no universo cibernético profundo e infinito, era lido, levou-me a recorrer à ajuda de um contador de visitas.


Não ajudou muito mas pelo menos passei a saber que não viajo só nesta aventura (ia  escrever odisseia) e que cheguei a alguém.


Nunca incomodar é a forma mais bonita de atravessar o horizonte. Se quiserem digam qualquer coisinha...

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Viagem de Volta Favorável

 


 


 


 Avistei terra ainda antes de escurecer. O barco sulcava as águas espumosas, empurrado pela leve brisa do penente. Quando o breu rodeou a velha carcaça do saveiro, as luzes de terra brotaram como cogumelos, guiando-o ao porto escancarado.


  Saltei em terra iluminado por uma sensação de felicidade que me entrava pelos pés e fluía por todo o corpo. Subia às estrelas: dez contos no bolso. Cinco passageiros até Marrocos e viagem de volta favorável. Kiff para todos, mesmo os inimigos de ocasião.


  A tasca do Quim efervescia: o Rato, o Califa, o Ai Que Lindo Polvo, o Zeca Barbinha, todos.


  A coragem paga o vinho e a aguardente e mesmo o poejo, até a tasca fechar. E fechou tarde, embriagada.


  Os guardas-fiscais passaram armados até aos chapéus.


  Ah! Ah! Ah! Sorri abundantemente.


  Eu era uma alucinação imensa rebolando na praia, e quando o Sol já queria alargar os horizontes, dirigi-me a casa dançando melodias árabes por entre vagas alcoólicas. Alterosas.


  Entrei em casa com o meu melhor amigo (como se o meu melhor amigo não fosse o mar), que me guardou o dinheiro, das minhas vidas, no bolso da miséria e saiu para o céu em labaredas. 

Um Grito de Mercenário

 


 


 


 Um grito de mercenário. Juro que o imbecil se junta nas herdades desertas da multidão.


Viajo até a solidão se dissipar no atrito do desespero. Aí celebro a infância desmembrada, de amor. Desta vez o sonhar é uma sensação demasiado real para causar dor, demasiado rude para convidar ao reflexo comum do prazer.


Na estrada há um barco angustiado ( talvez  bêbado, como disse o outro ). Centenas de pirilampos jazem nos cadáveres sem apodrecer. A ti envio os meus dedos vestidos de arlequins esverdeados. Não és um desafio porque sabes demais das incertezas do infinito.


Um ser embriagado deu à costa. Bebeu o mar e caiu na calçada, calada, por onde namoriscavam peixes vestidos ao contrário. Ainda vi que eras uma alforreca desmaiada.


Vi- te passar perto de um ser que parecia engolir os destinos. Nem as promessas do homem mentiroso seriam tão vãs. Ele era um deus razoavelmente desprovido de sentimentos sociais.


A mentira é tudo, sendo nada é fogo ateado à imaginação para consumo dos vizinhos. Sem a mentira há medo. A suavidade é a possibilidade de construir o passado em liberdade e acabar de vez com o futuro.


Vais comover o farol das trevas! Entrega-te patrão das sereias iluminadas!


A Europa é um paraíso de opressão.

sábado, 5 de agosto de 2006

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...