quinta-feira, 28 de abril de 2011

peixes de metal

 



 


Peixes de metal no meio da rua


 


É assim que os olhos determinam


O sonho arruinado envolto


Em profundas conversas inscritas


No palimpsesto do calendário volátil,


Determinam a divulgação que subsidia


E escancara as asas do desejo amaldiçoado


Avançando na página reescrita, esmagando


 A autonomia das palavras finais.


O olhar estende-se pelo leito da memória,


Atinge os colapsos da energia brutal da arbitrariedade.


Nunca apareças na noite inacabada,


O que sabes resgata o futuro concedido,


O reconhecimento destinado a liquidar


O vazio que apodrece no silêncio.


Na calçada que se estende até às águas


Desfilam peixes de ferro fundido


Que pisas recuando à infância feliz,


Ao rumorejante eco das mãos pronunciando


 O sorriso da noite. Da noite guardiã das falas


Fundacionais, da serenidade nauseabunda


Que te acorrenta os pés. É aí, na genealogia


Do medo, o território que te conduz os passos


Na irrepetível caminhada rompendo os tempos


Que te levam ao fim, à degradação inútil.


Libertas-te do manto moral que te aconchegou


Os dias e atravessas a luz que nunca


Ousaste ultrapassar, a fronteira que abre


As portas da violência falhada e orgulhosa.


E agora?, perguntas à insanidade que exala


Dos excrementos postos a nu pela ousadia


Empreendida. E agora?


Nunca há respostas quando penetras


Na solidez das águas, no ermitério que envolve


A enigmática escultura que desocultas


Da sociedade alienada e castradora,


Da multidão que se barrica, impedindo


A libertação das almas. Enfrentas o ódio


Que se ergue das entranhas públicas


Escarnecendo dos desperdícios libertados


Pelo consenso tribal e avanças como apóstolo


Do absurdo nas mordomias que a ti próprio impões.


O corpo cansado resiste ao sentido que desenhaste


No plano de fundo da tristeza. Resiste e apropria-se


Da vontade que contamina as leituras paradigmáticas.


Os peixes de metal guiam-te no caminho das águas.


 


VRSA   27/4/11


 


 


 

segunda-feira, 25 de abril de 2011

apontamentos de Abril numa aldeia esquecida


No dia 23 de Abril de 1974, o meu irmão entrou para a tropa no Quartel da Atalaia em Tavira. Tinha o destino traçado: a Guerra Colonial. A família destroçada. Dia 25 de Abril tornou-se um soldado de Abril. A festa foi total.


 


Dia 25 de Abril, o meu pai escrevia no pontão que atravessa o ribeiro da aldeia "Viva Spínola". Passados alguns dias  caiava o nome que tinha grafitado antes e discursava na Casa do Povo da aldeia que lhe corriam nas veias glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e glóbulos socialistas...


No 1º de Maio de 1974, eu e outros rapazotes como eu pintámos uma enorme faixa onde se lia Viva a Liberdade e fomos a pé, gritando "o povo unido jamais será vencido, até Tavira para a grande manifestação que aí se realizou.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

eu sou a sombra do vento


Eu sou a sombra do vento,


a silhueta das almas que penetram


a caverna onde repousas os dias


sem retorno. Eu renasço


nos teus lábios quando


a  loucura se esconde no reflexo


do espelho acorrentado, renasço


para morrer em seguida no teu olhar.


Olhar que ampara a dor dos momentos


calados, inerte complexidade da rebeldia


projetada na parede turva do esquecimento.


Eu sou a morte que caminha


ao encontro dos sentimentos que se levantam


na planície instável, ao encontro


dos outros que emergem da noite


e espalham o medo na nostalgia dos incautos.


As tuas mãos afagam-me o cabelo sinuoso


e acalmam a podridão que escorre das pedras.


Só assim se compreende a inquietude das bocas


moribundas, escancaradas na exaustão


das fraturas reverberando o sexo encantatório.


Eu cubro a pele que me recebe pulsando


nas calmarias do pesadelo de sangue, espojo-me


no suor erótico das membranas latejantes


atingindo orgasmos irretletidos.


No barco em que navego ao encontro


das janelas da alma diviso o murmúrio


 dos vagabundos que se aventuram


nos campos ébrios da batalha sem fim,


imprimo os passos que lavram os planos


divergentes da memória coletiva.


Eu sou a sombra do vento e ardo


nas tuas coxas voláteis.


 


Cativa 10/4/2011

domingo, 10 de abril de 2011

BRUTAL!!!

 


 


Brutal é um romance onde se representam todos os traumas da infância, da adolescência e da idade adulta resultantes da decadência humana: violência doméstica, abuso sexual e disfunção emocional. Brutal tem como base narrativa dois personagens que são um só – um jovem e um velho, duas idades da mesma pessoa, ambos fascinados pelo teatro – que, no cenário das suas próprias vidas, dramatizam impiedosamente os momentos que fundamentam e marcam as suas existências. Nesse palco do romance são postos em causa e analisados, até à humilhação de se sentirem culpados um do outro, na relação perversa que ambos sentem pela natureza humana. É um duelo entre a maldade e o remorso, onde o amor e a escrita são meros figurantes.


 


O novo livro de Fernando Esteves Pinto na Babel. O meu amigo, e sócio na editora 4águas, Fernando em grande. Merece-o. É um escritor fabuloso e um trabalhador incansável.

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...