sexta-feira, 9 de junho de 2023

O cabelo de Bowie


O cabelo cai-me pelo peito,



Bowie soa no spotify do telemóvel. Angel or devil

I don`t care. Como já acontece

Há anos, és tu que danças à minha volta com pentes

E tesouras enquanto cortas o meu longo cabelo.

Estamos no meio do pomar de laranjeiras, as moscas

Pousam-me no peito desnudo, chatas, o Sol torra

E eu em cuecas sentado numa cadeira branca.

Quando me penteias com as mãos abertas e me acaricias

O couro cabeludo, sinto-me a flutuar com os pássaros

Que visitam as laranjeiras. Corta, corta, corta e o cabelo cai

Até ao chão rodopiando na terra escura. Angel or devil

I don`t care, o Sol escalda! Curto? Sim que o verão é quente.

Corta, corta, corta e penteia: com o pente de osso e as mãos em pente.

As moscas pousam na pele e enxoto-as. O cabelo rebola em madeixas

Pelo corpo até ao chão. Rodopia ao vento entre as árvores cansadas.

Quando, os que dançam na tarde, consideram a obra razoável,

Retiro a toalha dos ombros e sacudo-a. Várias vezes. Sacudo o corpo.

O cabelo atinge o solo como cortina em contraluz.

Enquanto recolhes os apetrechos, apanho o cabelo do chão

E levo-o para o caixote do lixo. Uma parte de mim é lixo!

Angel or devil I don`t care.



Monte Gordo 21/6/22

Um herói na cozinha, ou, uma receita fácil


Não há, não conheci ainda, ninguém como eu a cozinhar couve dourada, a bem da verdade, não se trata de couve, mas de repolho. Talvez porque tenha sido eu a inventar a receita. E é tão fácil confecionar! Talvez por ser tão fácil, ninguém se interesse por aprender a cozinhá-la. A facilidade é uma impostora e, por isso, afasta os que procuram. Aloura-se, no azeite, a cebola em rodelas finas, junta-se o repolho também cortado em rodelas. Quando o repolho fica cozido, junta-se-lhe mostarda de Gijon, quer dizer, de Dijon, e curcuma bem amarela qb. Mistura-se tudo bem com uma colher de pau (a mesma colher com que se iniciou o alourar da cebola) e acrescenta-se o sal. Pouco, que os tempos não estão fáceis para o sal e para os seus apreciadores. A saúde escraviza-nos. Finalmente juntam-se os ovos mal batidos com pimenta preta e folhas de orégão. Sempre revolvendo todo o composto, desliga-se o fogão quando o ovo está cozido. O resultado é uma fusão deliciosa que espanta sempre os comensais. O que não correu nada bem da última vez foi que quando guardava a mostarda no frigorífico a deixei cair no meio da cozinha: havia vidros e mostarda por todo o lado. Depois de tudo limpo, vidros e vidrinhos difíceis de encontrar espalhados pelo chão, juntei-me à mesa feliz que me acolheu como a um herói.



Da cozinha escapava-se um ligeiro odor a mostarda.

O cru e o frito







O peixe frito, carapau da costa, para ser sincero, considerava-se tão inteligente, tão lendário, que não admitia ser apresentado conjuntamente com salada. A sua singularidade era o orgulho da tribo, vincava de forma clarividente a clivagem entre o cru e o frito.






Untitled





Prolongar uma esperança vã é uma dor esmagadora para quem a espera.














 



 







sexta-feira, 2 de junho de 2023

Do Determinismo Literário


 



A cena literária nacional é tão pequena, tão circunscrita, que, quando te pões a falar mal de alguém, se te descuidas, já estás a falar mal de ti próprio. E, para teu alívio, e espanto, isso sabe-te tão bem!

A literatura deixou de servir para inquietar ou contaminar. Sabemos, no entanto, que os agentes literários, leitores, escritores, editores, livreiros, críticos, entidades oficiais e oficiosas, premiadoras do mérito e do demérito, formatados pelas correntes redutoras dos meios artísticos, ao menor desvio da regra não inscrita, do caminho já pisado, fremem de indignação e malham

nos que se atravessam nesta estrada da inquietude oficializada e canónica.

Nada há de mais perturbador do que um sujeito em contramão na

autoestrada. Nadando contra a corrente do rio grosso e manso.

O novo escritor será um mártir literário. Não lhe bastará a pobreza e a inutilidade das escritas, ainda precisa de ser maltratado por leitores, pares e críticos. Quanto mais desconsiderarem e rebaixarem a sua escrita, mais feliz se sentirá. Como a um mártir, o castigo só reforça o martírio: curiosamente, e a cultura judaico-cristã-islâmica é terrível e exemplar nestes domínios do martírio, castigador e castigado, escritor e leitor, retiram prazer do castigo.

Quando alguém elogia o escritor, por caridade, dever ou admiração, vê-lo-emos a planar, sem chão, vazio e aparvalhado. Quase sempre, enveredará por outros caminhos que se afastem da bajulação do leitor: o leitor é, continuará a ser, por incrível que pareça, a medida de toda a escrita.

Criador e criação, sendo um outro e outro um, numa dança sem fim rodopiando convulsivamente ao som de uma música gravada a fogo na memória coletiva da humanidade. A lassidão das peias deterministas, que libera loucos e dementes das pesadas correntes do determinismo social, faz destes os potenciais inovadores mais fecundos de entre os criadores. As obras de ponta serão o resultado, cruel e vazio, de mergulhos, em apneia, de pescadores descomprometidos no profundo e vasto inconsciente. Pescadores

sem rede, de pérolas inúteis.

Tudo o que fazes se liberta do que somos. A autoria é sempre uma obra coletiva sem autor. Inimputável. O que a IA nos vai trazendo, aos trambolhões, não é senão o acentuar e adensar deste pastoso manto que vai transportando e moldando a nova literatura. Resta-nos a voz. A voz que a tecnologia nunca encontrará.



(texto, sobre o tema "o fim da literatura", da Espúria, lido pelo Paulo Moreira no encerramento da Feira do Livro de Olhão)

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...