terça-feira, 28 de abril de 2009

a primeira pedra e um dinossauro desinteressado


 


No dia 25 de Abril, pela manhã, fui ao lançamento de uma primeira pedra.Não uma primeira pedra no sentido bíblico. A de um lar para a "terceira idade". Foi a minha primeira pedra. Pedra pedra, bem entendido.


O acto em mim atraía-me tanto quanto um concerto do António Carreira. Foi a fragilidade da minha mãe ( na tal 3ª idade e dinamizadora do projecto) que me arrancou do generoso leito e me arrastou até ao terreiro onde irá ser implantado o "equipamento social". O evento não contou com a cumplicidade do tempo que se apresentou frio e ventoso. Uma nortada cortante e impiedosa  que fustigava os que se apresentavam para presenciar o piedoso acontecimento. Cheguei bastante cedo que a minha mãe estava ansiosa. Embora tenhamos combinado de véspera, já me tinha telefonado temendo a minha crónica irresponsabilidade. Apresentou-se-me de traje de cerimónia com broche e tudo. Eu, como já se calculava, de gangas e casaco de cabedal coçado.. Uns ténis de um dos meus filhos, deslavados e gastos (pareceram até à minha mãe rotos).A senhora não gosta mas já entranhou. E a companhia bastava-lhe. Gozou-a até aos limites da sua tensão arterial, cronicamente já alta. Chegámos ao terreiro poeirento e desolado e já por lá andavam, cabelo ao vento (ralos e esparsos) muitos dos futuros utentes do lar. Trajes de festa, uns aguardando as individualidades, outros dedicados à logística dos comes e bebes pós-discursos, lutando contra o vento que ameaçava arrastar para fora das mesas os mimosos pastéis de bacalhau e outras iguarias apetitosas.


Ai como o menino está tão novo. Está mesmo igualzinho a Sr.. Fernando. Ainda há pouco, estou mesmo a vê-los, andava na brincadeira como mê Zé no ribeiro que pareciam uns patinhos todos enlameados... e a minha mãe babada. A minha gente. Tenho-os no coração sempre e para sempre.


Começam a chegar as individualidades: o presidente da junta, o da câmara e, ano de eleições obriga, os novos candidatos ao município: o delfim do actual ( o que detém o cargo concorre à câmara da capital) e o pretendente da oposição. O padre da freguesia, o presidente da Casa do Povo, os presidentes das freguesias vizinhas e, o mais eloquente e nervoso, o presidente da associação que vai lançar a obra.


Chegam alguns amigos da minha idade. Poucos que na noite anterior houve baile na Casa do Povo e a tertúlia foi longa.


A minha mãe já está na primeira fila em redor do local onde há-de ser colocada a primeira pedra. Numa terra pequena e num município pouco populoso, toda a gente se conhece. As individualidades são todas minhas amigas ou conhecidas. Cruzámo-nos na escola, no futebol ou, pura e simplesmente, encalhámos frequentemente nos caminhos estreitos da paisagem envolvente.


A minha mãe delira com tão íntima relação. Fatos azuis contra ténis "dread", mas ela já nem repara.


Dentro de um cilindro é colocada uma carta com os nomes dos envolvidos mais relevantes no longo processo que vem da ideia até ao presente momento. Carta da memória aos vindouros que um dia abrirão a missiva e honrarão os de antanho.


O padre, tão magro que o vento quase o leva, benze a pedra com o aspersor sagrado. Diz umas coisas sobre as obras dos homens e as obras de Deus. Aproximo-me para ouvi-lo. Foi meu professor de História há 35 anos e quero relembrar essa histórica voz. Desilusão. Já não é a mesma voz. Ou os meus ouvidos já não são os mesmos? No entanto fiquei a saber (que vergonha tão tarde) que benzer é dizer bem. Disse-o o padre. Nunca tinha pensado nisso.


Vai agora pegar na palavra, iniciando as hostilidades, o director da segurança social do Algarve e candidato à câmara pelo partido da oposição. De improviso vai fazendo a cronologia do apoio prestado e, timidamente, faz crer que esse apoio foi "mais relevante" para o bom desenvolvimento que o apoio da câmara. O actual detentor do cargo, dinossauro da política que se alavanca a outro concelho mais "valeroso", regista e sorri. Já vamos ver porque sorri. Não é ele que vai ripostar ao orador inicial. É um homem desinteressado... É a sua vice presidente (e candidata reincidente) que está frente à pedra. Discurso escrito (brincas, não...). As palavras saem duras e o vento açoita com elas o candidato da oposição. Novo nestas contendas, lá vai encaixando como pode. Com dignidade, registe-se. O dinossauro sorri... desinteressado.


Finalmente, momento há muito aguardado, que as barrigas também têm as suas razões que a razão não desconhece, o discurso do presidente da instituiçaõ de solidariedade social que ali se materializa. Individualidade exterior  às contendas políticas hodiernas (por ora), balbuciou umas palavras de circunstância  a que pouca gente ligou (excepto a minha mãe que foi a principal responsável pela ascensão do orador à presidência, pareceu-me mesmo ver-lhe assomar uma lágrima no canto do olho). Não fora ter-se esquecido do presidente da junta na elencação das personalidades que contribuíram para o sucesso da empreitada e ninguém teria registado qualquer parte do discurso.


Todas as individualidades pegaram, à vez,  na colher de pedreiro e afagaram e acariciaram o cimento que colava a primeira pedra à eternidade. Confesso que temi que na vez do meu irmão, uma das individualidades presentes - porventura a mais importante a seguir à minha mãe - as calças se descosessem durante o acto de se baixar para afagar a pedra. De resto, com o seu fato azul escuro às riscas e de cravo vermelho ao peito ( a única individualidade com tal símbolo ao vento) encheu-me de vaidade e orgulho. Quando a mole humana (fosga-se que isto é que é falar. Influência dos distintos oradores?) se trasladou para as mesas convidativas e abandonou a primeira pedra à sua sorte, achei por bem retirar-me. A política é linda. É uma ficção encenada com emoção e empenho  onde os actores representam o melhor que sabem e podem. 


  Deixei a minha mãe a cargo do meu irmão e desloquei-me para o almoço tradicional do 25 de Abril com os meus camaradas. Daqui a nadinha estaremos a entoar  amanhãs que cantam e a querer cumprir o 4º e o 5º mês...

sábado, 25 de abril de 2009

Amália revisitada





 


 


Quando, num Verão quente e seco, no fundo do tempo dos anos 70, ali, na esplanada do  restaurante Peixinho em Cabanas, junto à Ria Formosa, a ouvi pela primeira vez ao vivo, toda a penugem se me  eriçou. Num impulso de adolescente, no fim do espectáculo,  dirigi-me  a ela para a beijar. Sorrimos e guardei aquele beijo para sempre. Agora, ao passar pelo blogue do meu amigo João, e deparar com esta monumental interpretação, senti o mesmo levitar da penugem. A mesma vontade de beijar.


 


meu amor na tua mão,

nessa mão onde perfeito

bateu o meu coração.




[Alexandre O'Neill, Alain Oulman - Amália]


 


Versão  de Nuno Gonçalves (The Gift) e Fernando Ribeiro (Moonspell) e voz de Sónia Tavares.


 

sexta-feira, 24 de abril de 2009

25 de Abril, para sempre!



Este foi o jornal onde  aprendi a ler. O meu pai recebia-o todos os dias ( de borla, vejam lá). Era seu correspondente de província. Este número, tão especial, tenho-o em minha posse.


 


 


José Carlos Ary dos Santos - As portas que Abril Abriu.




Era uma vez um país

onde entre o mar e a guerra

vivia o mais infeliz

dos povos à beira-terra.


Onde entre vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

um povo se debruçava

como um vime de tristeza

sobre um rio onde mirava

a sua própria pobreza.


Era uma vez um país

onde o pão era contado

onde quem tinha a raiz

tinha o fruto arrecadado

onde quem tinha o dinheiro

tinha o operário algemado

onde suava o ceifeiro

que dormia com o gado

onde tossia o mineiro

em Aljustrel ajustado

onde morria primeiro

quem nascia desgraçado.




Era uma vez um país

de tal maneira explorado

pelos consórcios fabris

pelo mando acumulado

pelas ideias nazis

pelo dinheiro estragado

pelo dobrar da cerviz

pelo trabalho amarrado

que até hoje já se diz

que nos tempos do passado

se chamava esse país

Portugal suicidado.


Ali nas vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

vivia um povo tão pobre

que partia para a guerra

para encher quem estava podre

de comer a sua terra.


Um povo que era levado

para Angola nos porões

um povo que era tratado

como a arma dos patrões

um povo que era obrigado

a matar por suas mãos

sem saber que um bom soldado

nunca fere os seus irmãos.


Ora passou-se porém

que dentro de um povo escravo

alguém que lhe queria bem

um dia plantou um cravo.


Era a semente da esperança

feita de força e vontade

era ainda uma criança

mas já era a liberdade.


Era já uma promessa

era a força da razão

do coração à cabeça

da cabeça ao coração.

Quem o fez era soldado

homem novo capitão

mas também tinha a seu lado

muitos homens na prisão.


Esses que tinham lutado

a defender um irmão

esses que tinham passado

o horror da solidão

esses que tinham jurado

sobre uma côdea de pão

ver o povo libertado

do terror da opressão.


Não tinham armas é certo

mas tinham toda a razão

quando um homem morre perto

tem de haver distanciação


uma pistola guardada

nas dobras da sua opção

uma bala disparada

contra a sua própria mão

e uma força perseguida

que na escolha do mais forte

faz com que a força da vida

seja maior do que a morte.


Quem o fez era soldado

homem novo capitão

mas também tinha a seu lado

muitos homens na prisão.


Posta a semente do cravo

começou a floração

do capitão ao soldado

do soldado ao capitão.


Foi então que o povo armado

percebeu qual a razão

porque o povo despojado

lhe punha as armas na mão.


Pois também ele humilhado

em sua própria grandeza

era soldado forçado

contra a pátria portuguesa.


Era preso e exilado

e no seu próprio país

muitas vezes estrangulado

pelos generais senis.


Capitão que não comanda

não pode ficar calado

é o povo que lhe manda

ser capitão revoltado

é o povo que lhe diz

que não ceda e não hesite

– pode nascer um país

do ventre duma chaimite.


Porque a força bem empregue

contra a posição contrária

nunca oprime nem persegue

– é força revolucionária!


Foi então que Abril abriu

as portas da claridade

e a nossa gente invadiu

a sua própria cidade.


Disse a primeira palavra

na madrugada serena

um poeta que cantava

o povo é quem mais ordena.


E então por vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

desceram homens sem medo

marujos soldados «páras»

que não queriam o degredo

dum povo que se separa.

E chegaram à cidade

onde os monstros se acoitavam

era a hora da verdade

para as hienas que mandavam

a hora da claridade

para os sóis que despontavam

e a hora da vontade

para os homens que lutavam.


Em idas vindas esperas

encontros esquinas e praças

não se pouparam as feras

arrancaram-se as mordaças

e o povo saiu à rua

com sete pedras na mão

e uma pedra de lua

no lugar do coração.


Dizia soldado amigo

meu camarada e irmão

este povo está contigo

nascemos do mesmo chão

trazemos a mesma chama

temos a mesma ração

dormimos na mesma cama

comendo do mesmo pão.

Camarada e meu amigo

soldadinho ou capitão

este povo está contigo

a malta dá-te razão.


Foi esta força sem tiros

de antes quebrar que torcer

esta ausência de suspiros

esta fúria de viver

este mar de vozes livres

sempre a crescer a crescer

que das espingardas fez livros

para aprendermos a ler

que dos canhões fez enxadas

para lavrarmos a terra

e das balas disparadas

apenas o fim da guerra.


Foi esta força viril

de antes quebrar que torcer

que em vinte e cinco de Abril f

ez Portugal renascer.


E em Lisboa capital

dos novos mestres de Aviz

o povo de Portugal

deu o poder a quem quis.


Mesmo que tenha passado

às vezes por mãos estranhas

o poder que ali foi dado

saiu das nossas entranhas.

Saiu das vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

onde um povo se curvava

como um vime de tristeza

sobre um rio onde mirava

a sua própria pobreza.


E se esse poder um dia

o quiser roubar alguém

não fica na burguesia

volta à barriga da mãe.

Volta à barriga da terra

que em boa hora o pariu

agora ninguém mais cerra

as portas que Abril abriu.


Essas portas que em Caxias

se escancararam de vez

essas janelas vazias

que se encheram outra vez

e essas celas tão frias

tão cheias de sordidez

que espreitavam como espias

todo o povo português.


Agora que já floriu

a esperança na nossa terra

as portas que Abril abriu

nunca mais ninguém as cerra.


Contra tudo o que era velho

levantado como um punho

em Maio surgiu vermelho

o cravo do mês de Junho.


Quando o povo desfilou

nas ruas em procissão

de novo se processou

a própria revolução.


Mas eram olhos as balas

abraços punhais e lanças

enamoradas as alas

dos soldados e crianças.


E o grito que foi ouvido

tantas vezes repetido

dizia que o povo unido

jamais seria vencido.


Contra tudo o que era velho

levantado como um punho

em Maio surgiu vermelho

o cravo do mês de Junho.


E então operários mineiros

pescadores e ganhões

marçanos e carpinteiros

empregados dos balcões

mulheres a dias pedreiros

reformados sem pensões

dactilógrafos carteiros

e outras muitas profissões

souberam que o seu dinheiro

era presa dos patrões.


A seu lado também estavam

jornalistas que escreviam

actores que se desdobravam

cientistas que aprendiam

poetas que estrebuchavam

cantores que não se vendiam

mas enquanto estes lutavam

é certo que não sentiam

a fome com que apertavam

os cintos dos que os ouviam.


Porém cantar é ternura

escrever constrói liberdade

e não há coisa mais pura

do que dizer a verdade.


E uns e outros irmanados

na mesma luta de ideais

ambos sectores explorados

ficaram partes iguais.


Entanto não descansavam

entre pragas e perjúrios

agulhas que se espetavam

silêncios boatos murmúrios

risinhos que se calavam

palácios contra tugúrios

fortunas que levantavam

promessas de maus augúrios

os que em vida se enterravam

por serem falsos e espúrios

maiorais da minoria

que diziam silenciosa

e que em silêncio fazia

a coisa mais horrorosa:

minar como um sinapismo

e com ordenados régios

o alvor do socialismo

e o fim dos privilégios.


Foi então se bem vos lembro

que sucedeu a vindima

quando pisámos Setembro

a verdade veio acima.


E foi um mosto tão forte

que sabia tanto a Abril

que nem o medo da morte

nos fez voltar ao redil.


Ali ficámos de pé

juntos soldados e povo

para mostrarmos como é

que se faz um país novo.


Ali dissemos não passa!

E a reacção não passou.

Quem já viveu a desgraça

odeia a quem desgraçou.


Foi a força do Outono

mais forte que a Primavera

que trouxe os homens sem dono

de que o povo estava à espera.


Foi a força dos mineiros

pescadores e ganhões

operários e carpinteiros

empregados dos balcões

mulheres a dias pedreiros

reformados sem pensões

dactilógrafos carteiros

e outras muitas profissões

que deu o poder cimeiro

a quem não queria patrões.


Desde esse dia em que todos

nós repartimos o pão

é que acabaram os bodos

— cumpriu-se a revolução.


Porém em quintas vivendas

palácios e palacetes

os generais com prebendas

caciques e cacetetes

os que montavam cavalos

para caçarem veados

os que davam dois estalos

na cara dos empregados

os que tinham bons amigos

no consórcio dos sabões

e coçavam os umbigos

como quem coça os galões

os generais subalternos

que aceitavam os patrões

os generais inimigos

os generais garanhões

teciam teias de aranha

e eram mais camaleões

que a lombriga que se amanha

com os próprios cagalhões.

Com generais desta apanha

já não há revoluções.


Por isso o onze de Março

foi um baile de Tartufos

uma alternância de terços

entre ricaços e bufos.


E tivemos de pagar

com o sangue de um soldado

o preço de já não estar

Portugal suicidado.


Fugiram como cobardes

e para terras de Espanha

os que faziam alardes

dos combates em campanha.


E aqui ficaram de pé

capitães de pedra e cal

os homens que na Guiné

aprenderam Portugal.


Os tais homens que sentiram

que um animal racional

opõe àqueles que o firam

consciência nacional.


Os tais homens que souberam

fazer a revolução

porque na guerra entenderam

o que era a libertação.


Os que viram claramente

e com os cinco sentidos

morrer tanta tanta gente

que todos ficaram vivos.


Os tais homens feitos de aço

temperado com a tristeza

que envolveram num abraço

toda a história portuguesa.


Essa história tão bonita

e depois tão maltratada

por quem herdou a desdita

da história colonizada.


Dai ao povo o que é do povo

pois o mar não tem patrões.

– Não havia estado novo

nos poemas de Camões!


Havia sim a lonjura

e uma vela desfraldada

para levar a ternura

à distância imaginada.


Foi este lado da história

que os capitães descobriram

que ficará na memória

das naus que de Abril partiram


das naves que transportaram

o nosso abraço profundo

aos povos que agora deram

novos países ao mundo.


Por saberem como é

ficaram de pedra e cal

capitães que na Guiné

descobriram Portugal.


E em sua pátria fizeram

o que deviam fazer:

ao seu povo devolveram

o que o povo tinha a haver:

Bancos seguros petróleos

que ficarão a render

ao invés dos monopólios

para o trabalho crescer.

Guindastes portos navios

e outras coisas para erguer

antenas centrais e fios

dum país que vai nascer.


Mesmo que seja com frio

é preciso é aquecer

pensar que somos um rio

que vai dar onde quiser


pensar que somos um mar

que nunca mais tem fronteiras

e havemos de navegar

de muitíssimas maneiras.


No Minho com pés de linho

no Alentejo com pão

no Ribatejo com vinho

na Beira com requeijão

e trocando agora as voltas

ao vira da produção

no Alentejo bolotas

no Algarve maçapão

vindimas no Alto Douro

tomates em Azeitão

azeite da cor do ouro

que é verde ao pé do Fundão

e fica amarelo puro

nos campos do Baleizão.

Quando a terra for do povo

o povo deita-lhe a mão!


É isto a reforma agrária

em sua própria expressão:

a maneira mais primária

de que nós temos um quinhão

da semente proletária

da nossa revolução.


Quem a fez era soldado

homem novo capitão

mas também tinha a seu lado

muitos homens na prisão.


De tudo o que Abril abriu

ainda pouco se disse

um menino que sorriu

uma porta que se abrisse

um fruto que se expandiu

um pão que se repartisse

um capitão que seguiu

o que a história lhe predisse

e entre vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

um povo que levantava

sobre um rio de pobreza

a bandeira em que ondulava

a sua própria grandeza!

De tudo o que Abril abriu

ainda pouco se disse

e só nos faltava agora

que este Abril não se cumprisse.

Só nos faltava que os cães

viessem ferrar o dente

na carne dos capitães

que se arriscaram na frente.


Na frente de todos nós

povo soberano e total

que ao mesmo tempo é a voz

e o braço de Portugal.


Ouvi banqueiros fascistas

agiotas do lazer

latifundiários machistas

balofos verbos de encher

e outras coisas em istas

que não cabe dizer aqui

que aos capitães progressistas

o povo deu o poder!

E se esse poder um dia

o quiser roubar alguém

não fica na burguesia

volta à barriga da mãe!

Volta à barriga da terra

que em boa hora o pariu

agora ninguém mais cerra

as portas que Abril abriu!


Lisboa, Julho-Agosto de 1975


 


 


 

quinta-feira, 23 de abril de 2009

poema dum funcionário cansado


A noite trocou-me os sonhos e as mãos

dispersou-me os amigos

tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo

as casas engolem-nos

sumimo-nos

estou num quarto só num quarto só

com os sonhos trocados

com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado

um funcionário triste

a minha alma não acompanha a minha mão

Débito e Crédito Débito e Crédito

a minha alma não dança com os números

tento escondê-la envergonhado

o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente

e debitou-me na minha conta de empregado

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar

Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço

Soletro velhas palavras generosas

Flor rapariga amigo menino

irmão beijo namorada

mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho

palavras soterradas na prisão da minha vida

isto todas as noites do mundo numa só noite comprida

num quarto só


 


(poema de António Ramos Rosa, poeta algarvio de Faro)


 


PS: Os primeiros nove versos são esmagadores. Das melhores vizinhanças de palavras alguma vez desenhadas.

sábado, 18 de abril de 2009

noites dolorosas


 


 


Na noite das facas longas todas as palavras serão lançadas. Enquanto as lâminas rasgarem as carnes palpitantes a hipocrisia dará lugar à verdade plana e dolorosa. As palavras doerão mais que as punhaladas raivosas...

terça-feira, 14 de abril de 2009

uma distância entre afectos


 


Era uma distância entre afectos que impressionava as sombrias dúvidas do seu cabelo,

o rastejar das mãos que rasgam o oculto das palavras.Era assim que os tempos se anunciavam como presentes em carne viva anunciando a revolução dos espezinhados,

o estertor dramático das lâminas rutilantes.


Era a impossível maresia ensimesmada, a emergente lama da eroticidade caduca camuflada no onanismo predador da televisão, convocando a caminhada processional e néscia para a travessia da paisagem sem figurantes.


Quando o tempo se estatelar na frieza dos olhares a viagem será percorrida na planície incompleta a loucura ostentará a simbologia das tempestades e os inquietos e famintos aprendizes do nada navegarão sem rumo à procura das metáforas carentes da liberdade.


Repleta de moribundos cairá a noite…

 

domingo, 12 de abril de 2009

há decotes mais generosos que outros


 


Será que na Loja do Cidadão de Faro os funcionários (homens) podem trabalhar com decotes generosos?

um cão e um cherne no topo do mundo


 


Os portugueses vão ter um futuro próximo cheio de alegrias: um português na Casa Branca e outro em Berlaymont.


 


Há quem diga que o cão-de-água do Algarve ( conhecido por acompanhar os pescadores na sua labuta nos mares) é um especialista na pesca do cherne...

sábado, 11 de abril de 2009

o tempo que passa na vida parada


Na madrugada de sexta-feira (3 da manhã?), voava sobre as prenhes e calmas águas da ria, rasgando a noite sob a Lua cheia, depois de ter estado numa festa com 4 000 jovens na Ilha de Tavira. 99,9 % tinham menos de metade da minha idade. O espectáculo é arrepiante.


Um aqua-táxi voando sobre a espuma branca, atravessando a ria numa maré viva e com Lua cheia é uma experiência absolutamente esmagadora.


 


No Sábado, romaria com amigos de infância e adolescência ao estádio José Arcanjo  degustar um Ohanense-Feirense, para a Liga de Honra (sic). Nunca tinha posto os pés no dito estádio. O meu campo de jogos em Olhão era (e será sempre) o mítico Estádio Padinha. e a esse não ia desde 1976 (?) quando o Olhanense desceu à  2º divisão para não mais lá semear paixões.  Jogo muito importante para a subida do Olhanense à primeira divisão (1º classificado contra 3º) fez-nos sofrer até ao fim. 2-1 foi o resultado. Gritámos e assobiámos sem parar, contorcemo-nos, quando o feirense atacava e escancarámos os olhos durante as investidas rubi-negras (penso que até fomos pouco educados para com a equipa de arbitragem e seus familiares próximos) mas valeu a pena: estamos mais perto de ter um clube algarvio nas mais altas esferas do pontapé na bola luso.


Claro está, que à volta, não resistimos aos caracóis do Primo, nos Cavacos, e, depois, às estupidamente geladas imperiais do D. Manuel e aos seus afamados ... tremoços.


 


PS. Nesse mesmo Sábado, Aquele que não ouso pronunciar o nome soçobrava, na Luz, perante os estudantes de Coimbra. É uma agonia insuportável que temos que carregar até ao fim. Ao fim do princípio que é já amanhã.


 


Mais dois dias de vidas que passam.Como todas as outras, inúteis ou úteis. Como todas as outras, estranhas e sem sentido. Dois dias que já soluçam nas revoltas e sombrias torrentes da memória.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

jornalismo e jornais: um mundo paralelo


Quem assim escreve e assim pensa tem a minha solidariedade. E estou-me cagando para quem namora com quem.


Como dizia o filósofo alcoólico da minha aldeia, Vivaldo Catraia, "Cada um é como cada qual e cada qual é como cada um."


 


PS: Lembro-me dela na FCSH, quando eu pertencia à Associação de Estudantes, e sempre me pareceu que era moça de antes quebrar que torcer. E parece que não me enganei.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Depois queixem-se de que ninguém gosta de V. Exas


"A palavra do Deputado faz fé, não carecendo por isso de comprovativos adicionais. Quando for invocado o motivo de doença, poderá, porém, ser exigido atestado médico caso a situação se prolongue por mais de uma semana."


 


Retirado da Resolução nº21/2009, 13 de Março que regulamenta a presença  (e as faltas) dos deputados  na Assembleia da República:



 

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Do Santo Matrimónio


Ando, já há que tempos, para escrever sobre o assunto. Agora que ele se eclipsou e desapareceu da ordem do dia, aí vai: casamento ... entre pessoas do mesmo sexo. E já agora adopção pelos referidos casais.


 


1 - Sou completamente a favor do  casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sou ainda a favor dos casamentos poligâmicos/poliândricos e dos casamentos incestuosos. Ou seja sou a favor do casamento entre pessoas que o queiram. Entre pessoas livres, autónomas e na posse das suas faculdades mentais, todas as formas de casamento são dignas e aceitáveis. A lei tem de ser igual para todos.


Aliás, só não sou a favor do casamento entre um homem (ou uma mulher) e uma formiga, porque nunca esta  poderia dar o seu consentimento na contratualização.


Quando digo que sou a favor, não digo que acho que as pessoas devam casar. Aliás acho precisamente o contrário. Mas se a lei permite a alguns, tem que o consentir a todos. No meu caso, que  vivo há 25 anos com a mesma mulher, nunca senti necessidade de me casar. No entanto, se me fosse vedada esta possibilidade, seria dos primeiros a vir para a rua exigir os meus direitos ao casamento para... não me casar.


 


2 - Quanto à adopção por casais do mesmo sexo, sem ter as certezas que tenho quanto ao ponto 1 (será por ser um devoto de Freud?), sou também a favor. E bastava-me para isso o conhecimento dos maus tratos que casais heterossexuais (os tais ditos normais) exercem sobre os seus filhos. Portanto os casais homossexuais constituídos por gente equilibrada, de bom senso, afectivos e apaixonados (gente normal, diria) serão sempre melhores pais do que os primeiros.


 


3- Em relação aos casamentos polígamos não estou em querer que, nas sociedades ocidentais, tivessem muito significado.


No que diz respeito aos casamentos incestuosos penso que seriam sempre hiper minoritários, até porque o nosso grande Claude Levi Strauss nos ensinou que o tabu do incesto está na génese da cultura.


No entanto se a vontade livremente expressa das pessoas fosse essa não vejo como poderíamos exclui-los do direito ao casamento.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Sardinhas Orientais


 


Ah, tinha-me esquecido! No Mercadinho de Cacela Velha, comprei, para além do livro de Borges (que afinal não foi um negócio assim tão bom...) esta pintura de sardinhas em papel de arroz. O artista parece ter assinado e tudo. Custou-me 5 euros mas valeu a pena. Quem conhecer o artista, que diga qualquer coisa. Pela obra deve ser grande! japonês, chinês, coreano, vietnamita?????

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...