segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O fotógrafo de Cesariny


O tempo passa sem as pessoas interferirem. Entro na casa do surrealismo e sou recebido pelo funcionário dedicado, outra vez. Publicita catálogos. Para depois.



Carrego no botão do elevador para o 2.º andar e subo sozinho. “Visto a Luz”, não resisto: é um telemóvel novo oferecido no Natal e registo. Splash, uma a uma. Talvez não possa, mas não há aviso algum e subo a rampa da galeria. Ascendo às voltas. Splash, splash, splash, as luzes que incidem nos pedaços do Mário refletem-se na máquina vindas das paredes que regressam outra vez. Estou a meio da subida escatológica e via-sacra da luz. Splash! O elevador escancara-se para mim e o funcionário dedicado, e diligente, atrapalhado, sai e admoesta: não pode!

Desculpe-me, não há aviso. Não tem flash, é só splash. Ficou a meio. O homenzinho, mais só do que nunca, desce até ao chão no elevador triste. Continuo a subir até ao fim. Mais só do que o próprio elevador triste.

Desço pela caixa vertical receando o funcionário dedicado, encalacrado. Não está ninguém na saída. Respirando o ar frio do carrossel de crianças que anda à volta do tempo, entro no cenário, exposto às pessoas que nunca interferem.

“Ama como a estrada começa”. Falta-me lastro trágico para ser coerente. Ser como as árvores no inverno.

Os catálogos? Ficarão para depois.



V.N. Famalicão, 29 de dezembro de 2011

Sem comentários:

Enviar um comentário

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...