terça-feira, 1 de abril de 2025

governos

A maior parte do governos em democracia são sofríveis. Toda a gente manda vir com eles, mas assim é que está bem. Mau, mau é quando são excecionais: muito bons, ou muito maus.

A Europa a odiar-se a si própria

Os africanos adoram a sua África, os sul-americanos adoram a sua pertença a uma área cultural feita de sangue e dor, os asiáticos, nas suas alteridades diversas, amam as suas culturas, até os norte americanos se orgulham dos seus jovens países. Na Europa, os europeus odeiam a sua cultura e forma de vida. É claro que a sua história foi edificada sobre escombros de genocídios, massacres religiosos e guerras constantes e brutais. As nações europeias são construções assentes no sangue e nos corpos destroçados. Foi na Europa que eclodiram as mais brutais e mortíferas guerras levadas a cabo pelos seres humanos. Não foi ontem: foi hoje de madrugada. Talvez por isso tivesse sido na Europa que se experimentou a mais revolucionária das experiências sociais e políticas a que a humanidade assistiu: a União Europeia! Pela primeira vez na curta história da humanidade, países, podiam ser clãs, tribos, etnias, nações, abdicaram voluntariamente de parte da sua soberania para que esta seja gerida em conjunto. E pluribus unum. A aventura tem sido positiva: nunca mais os velhos inimigos se guerrearam desde então. Mas o sangue da pátria, a prostituta que tudo devora, continuou a ferver baixinho, uma chama que arde sem se ver, e, agora que as condições são propícias, a borbulhar alto. Cada vez mais tormentosa e a entornar o cozido urdido e tecido com os voláteis ingredientes do chão sagrado. Não vai acabar bem! E, voltando ao princípio, volta-se sempre ao início da aventura para melhor a corromper e destoçar, o ódio que os europeus votam à sua Europa vai levar à sua destruição e morte. Para sempre! As águas dos rios, como as da História, não passam duas vezes pelo mesmo lugar. E, no entanto, não há, como na Europa, lugar onde se viva melhor, onde se tenha mais liberdade e melhores condições sociais, culturais e financeiras. Sim, podem dar as voltas que quiserem ao mundo, à história, que não encontram. Eu, como as crianças, gosto muito da Europa.

Fernando Cabrita - Olhão

O maior poeta algarvio vivo: logo um dos maiores de Portugal. Com 50 títulos e 50 anos de criação poética, ensaísta e crítico literário, contista, conferencista por esse mundo afora, com traduções e colaborações em diversos países, como Espanha, França, Itália, Marrocos, Turquia ou Rússia, entre outros, dinamizador cultural e congregador de gentes e literaturas do mundo, organizador do Festival Poesia a Sul, em Olhão, durante 7 anos, com uma dezena de prémios literários, viajante por forma de vida, apresentou, ontem, na Casa Álvaro de Campos o seu último e belo livro "A Língua Portuguesa", Prémio Literário da Lusofonia Professor Adriano Moreira.

Gostaria de vos deixar uma singela pergunta, que talvez alguém me saiba responder:

Porque não tem esta vasta e importante obra, de um escritor que tanto tem dado à literatura portuguesa, um único livro no PNL (Plano Nacional de Leitura?

Untitled

Eu posso, e passo, a explicar...

A vida não é senão uma dança sem fim do que somos com o que fomos.

O tempo voa no nosso pensamento mas aquieta nas nossas vontades:

nunca chegar a chegar.

Querido amigo! A viagem segue a sua vertigem e irá até onde nós formos. Vamos. Anda!

Nunca os vivos deixarão partir os mortos. A sua vida, a dos que viver deixaram, será, até que a sua, a dos que a viver restaram, único garante de que vivos continuam.

Moisés Espírito Santo Bagagem

Quando chegou à nossa primeira aula, na velhinha Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova, ainda a confundir-se com o quartel Trem Auto, no início dos anos 80, com os olhos muito vivos e rolantes, pousados no teto, de quando em vez olhando-nos rasando o alto do cocuruto; os seus esparsos cabelos revoltos, pensei tratar-se de um maquinista de comboio. Não, era o nosso professor de Sociologia, e Sociologia das Religiões, Moisés Espírito Santo Bagagem. Rapidamente se tornou um professor muito querido dos alunos e um mestre. Levava-os em trabalho de campo consigo (célebre ficou a ida à sua aldeia para os lados da Batalha) e discutia com eles no recreio e no bar a religião popular como se de um assunto da maior atualidade se tratasse. A sua humildade talvez lhe viesse do seu peculiar percurso académico: começou como carregador de material necessário ao trabalho de campo de sociólogos belgas, onde se tinha refugiado, e acabou por se licenciar e doutorar na disciplina.

Homem da ruralidade, tinha um sentido de humor fino, e às vezes corrosivo, e às vezes incompreendido, como o provam as dificuldades que parte dos seu pares lhe foi colocando no caminho da sua evolução na carreira.

Morreu hoje um mestre e um amigo. MESB (1934-2025)

PS. Esta página parece ter-se tornado, ultimamente, um necrotério, mas parece ser o destino das impressões de quem já tem uma certa idade.

Sons do Martírio


Lúcifer passa de canon analógica AV-1 ao ombro com um rolo a preto e branco. Procura deus para o fotografar de surpresa. Eu, que conheço bem os dois, não acredito que o consiga. Deus está em toda a parte e em lugar nenhum. O mafarrico é um idiota inútil . Meu senhor vêde como conseguirei parecer-me com um homem. Ajudai-me na minha modesta aventura de me olhar no espelho negro da solidão. No retorno sem dor ao cavername sombrio do navio afundado na tua mente. Náufrago na tua memória. Lúcifer dança na manhã nevoenta e fotografa tudo o que não consegue ver na esperança de apanhar deus desprevenido. Os gritos que descem da aurora eminente são apelos dos anjos que não conhecem o fedor das entranhas de deus. Que labirinto será o dos dias sem dono, onde a tesão escolherá os que morrerão de desejo na sombra imaculada do inferno. Onde caem os cadáveres dos que vivos terão perecido para renascer? Nos tempos em que a saudade roía a memória das donzelas escarlates lambendo cones de baunilha falsificada e das que, meretrizes sendo, herdavam o dom de se revelar como odaliscas desamparadas resvalando nos profundos abismos da carne. Suando em casacos de pele de elefante e cantando odes ao acaso encantando sepentes desnorteadas que por ali passavam sem destino. É então que os ossos das preguiçosas enguias se enlaçam nas pernas dos heróis desconhecidos e impedem a festa que se anunciava para domingo. Se a festa não for nesse dia nunca mais poderás usar gravata aos domingos. Lúcifer espreita por detrás da sarça ardente e, rodeando com perícia o púbico deserto do sinái, fotografa Moisés que tomou por deus nosso senhor. É nesse desespero que se imola na sarça ardente enquanto as tábuas sagradas são divulgadas às pedras. Ardia o diabo na moita divina quando se ouviu uma voz de trovão ribombar no deserto. Quem ousa arder no fogo de deus? Quem ousa usurpar a chama que aos homens se destina? Nisto, um clarão imenso* iluminou as trevas. A chuva que caiu durante cem anos bastou para renegar, e regenerar, todos os crimes que deus cometera. E então um sol sem explicação alumiou os dias sem fim.



* E não, não era o flash da canon.

Untitled

Antigamente, até um antigamente pouco distante, as forças progessistas puxavam a carroça pelos varais, fazendo-a avançar, sempre com dificuldade, e, com alguns recuos circunstanciais, em frente, encosta acima. Nos nossos tempos, os tempos de hoje são "o nosso tempo" de todos os vivos, mudaram-se, atabalhoadamente, para a ré, metendo ombros à viatura de forma a que esta não resvale e inverta a sua marcha ladeira abaixo. De motores do desenvolvimento e do progresso, seja lá o que isso for, e que os números, cientificamente comprovados, demonstram, a paraquedas de sociedades em auto desestruturação.

bocas








Bocas



Eu posso, e passo a explicar...

A vida não é senão uma dança sem fim do que somos com o que fomos.

O tempo voa no nosso pensamento mas aquieta nas nossa vontades.

Nunca chegar a chegar.







Iguarias imponentes


A culpa é uma invenção das religiões para refrear o desejo. O escrutínio do indivíduo que pensa que age de forma errada porque a sociedade lhe impõe um roteiro de possibilidades já testadas e avaliadas. Ser livre é andar a tatear na escuridão e cair nuns buracos ao acaso e embater em muros que nos conduzem a outros buracos e a outras paredes e a subir e descer vertentes de toda a espécie, voltear e recuar avançar sem saber se, afinal, recuas no espaço e no tempo ou na memória. Ser livre vem a dar no mesmo do que seguir o roteiro determinado: evitando-te, porém, este último, tanta volta e revolta e perda de energia e tempo. Por isso, a escolha torna-se fácil e, tão frequentemente, a mesma de tantos. E a culpa acompanha-nos, oferecendo a quem passa o generoso amparo dos deuses.



A energia que os anima é a mesma os devora.

Matrix

O nosso 4.o Guardião da Quinta passou hoje para uma nova dimensão. O bravo e, ao mesmo tempo, dócil cão de quinta, que alegrou a família durante quase duas décadas, não resistiu a uma já longa velhice. Foi asssistido na hora da partida pelo seu veterinário dedicado e o seu dono mais velho. Este último, destroçado.

na rua


(... cheguei sem sentir o vento) Na rua,

enquanto esperava a tua voz,

percebi que o colapso era uma confissão

lenta de frenesim anunciado.

Os caminhos, de bermas floridas,

levam à cidade que ocupa o horizonte

pejado de aves sangrando

na placidez dos tempos.

A voz que não ecoa do alto

das montanhas sombrias

constrange a ação dos miseráveis

apelos da rua silenciosa,

da vida suspensa que arde na calçada insuportável.

Os passos desajustados calcam

presas insensíveis ruminando

milenares crenças no mistério

do labiríntico ciúme

transferência dos desejos ocultos da comédia.



(... agora já sinto a brisa) Na rua,

o silêncio impera tolhendo a dor

que asperge os incautos,

rodopiando nos corpos suspensos da cidade

que não cumpre os bizarros ditames da multidão,

a voz que se espera, confessora

da impotência crescente da paixão.



Os dias que se erguem na confusa

espera do som que aclama

a crua rebentação das águas

virão enaltecer o polivalente

rumorejar da ilusão pétrea.



Da penumbra do corpo

solta-se um aroma rosáceo

que me envolve os dedos tontos

sussurrando ventos na pele arrepiada



Quem não entende as cicatrizes do tempo

passará a fronteira do desejo

resvalando nos socalcos palpitantes

da carne em sangue rumorejando

nas inconfidências do silêncio.



As palavras não produzem os efeitos

que projecto nas consciências obliteradas

jazendo em muros

sentadas na planície incompleta

as palavras só rastejam quando a noite

bordeja os caminhos repletos de obstáculos

insaciáveis

onde a chuva de Outono se esvai por entre o sexo

que nunca percorre os meandros

da podridão aconchegante.



Agora o nunca torna-se no sonho

utópico da viagem

acorrentando as pernas dos desconhecidos

que se amam

nas grades frias do paradoxo

animalesco dos genitais.



Não posso sentir a volúpia da tua intranquilidade

prostrada nos dias sem luz

na ausência que afunda o frágil

fluir da viciante entrega

ao outro.

Não posso dizer o que não existe no mundo

das palavras frouxas e malditas

sons sem espelho onde a vida se esconde e reflecte.



do olhar vago

que rejeita a inscrição bélica

aparentemente tocada pela luz,

da incompleta voz que elabora linhas perplexas

na morna superfície dos teus sonhos

escapa-se um inútil desejo de regresso;

de regresso a um lugar estranho

onde a memória prevalece

e a existência sobrevive efémera agarrada

a jangadas de sangue

do olhar vago

sem fracturas no tédio da noite,

da expressão que esconde o sorriso das árvores

o registo das cicatrizes pelágicas

que atravessarão o futuro,

o destino que fará eclodir os desafios tentaculares

das palavras desavindas;

é o lugar de onde avistas a fortaleza que recua,

que recusa acolher-te no interior das possantes penumbras,

a fortificação desejada pelo tórax oprimido

que te torna os dias cruéis

cansados da sinuosa trajectória

em que persistes na manipulação dos pés

quando te aproximas da impossibilidade serena do fim

tempestade à distância dos olhos entre desejos

que contendem no plástico campo de batalha

onde tempo e inquietude se aliam

em brutais teatros sem personagens;

para quê estar à espera do tempo que é pedra?

O Palinho

O Palinho é um homem como outro qualquer. Desagradável às vezes, como a vida tem sido desagradável para os seus dias. Cortaram-lhe uma perna e pesa como uma criança. As ruas não foram construídas para veículos como o que o Palinho conduz. Pede dinheiro e coisas para sobreviver. Resmunga e atira para o chão as moedas quando lhe dão menos que 1 euro, e isso é considerado ofensivo para quem dá. Quem dá exibe a arrogância, a soberba, da superioridade tóxica. Dar pouco queima a pele de quem precisa. Chega à esplanada, a melhor plataforma sobre a costa que conheço. O Sol põe-se. É um espectáculo deslumbrante que é intensamente fotografado pelos telemóveis dos abastados, privilegiados da vida. O Palinho vira as costas ao incêndio da Ria a Penente. Hello, dirige-se-me. Estás bom, respondo-lhe. Surpreendido, fala-me da merda dos estrangeiros. Acabaram de lhe dar 40 cêntimos. Atirou-os ao chão com desprezo e algumas palavras duras. Dá-me 1 euro! Fiquei descansado: fazendo ele o montante, nunca seria rejeitado. Dei-lhe o euro e perguntei-lhe o nome. Surpreendido, aproximou mais a cadeira de rodas da mesa onde eu bebia uma cerveja. Sou o Palinho. O Palinho, repetiu docemente. E tu, como te chamas? Vítor. E acrescentei, de Tavira. Bela cidade. Histórica. Com um belo rio, o Gilão. Também Olhão é uma cidade muito bonita, acrescentei. Esta esplanada sobre a ria é única. Sim, as duas cidades são muito bonitas embora muito diferentes. Parou, pensativo. Recuou até onde a dor rasga o pensamento. Sabes? Casei-me em Santa Catarina. Em Tavira. Vivi por lá uns anos. Ofereceu-me um cigarro. Disse-lhe, e logo me arrependi, que tinha fumado 40 anos e que há cinco tinha largado o maldito vício. Deveria ter aceite e fumado com ele, e não, mais uma vez, ter exibido o meu privilégio sobre a sua incapacidade.

E por ali ficámos conversando enquanto o Sol mergulhava na ria. Ninguém conversa com o Paulinho. E isso torna-o melhor que os outros, mas pior que a si próprio.

Tristeza

se a culpa da tristeza que transportas

fosse minha não seria eu o ente sombrio

revelado nas sombras da nossa ausência

a contemplar a beleza assustadora dessa triste

esfinge que me paralisa de medo

de te tocar e dissolver os anéis de solidão

libertados pela melancolia que nos engole

nas insónias do verão inóspito.

não quero perder-te enquanto as aves

soletrarem as palavras interditas.

Cativa, 19-7-2016 (17:35)

para quê morrer?








Se há vida para lá da morte, para quê morrer? A degradação final e a morte terão, assim, ou de outra forma qualquer, alguma finalidade? Se houve premeditação, só poderemos classificá-la como violência gratuita.













 

 

 


 



 




escritor a tempo inteiro

Ai minhas amigas e meus amigos, hoje mesmo, agarrem-me que eu me vou à vida; torno-me escritor a tempo inteiro. Depois de 40 anos como professor, e escrevinhador distraído, e, ainda, agricultor nas horas vagas - gosto mais da palavra camponês, mas, para isso precisava de conseguir matar galinhas, e isso é coisa que nem nos meus piores pesadelos conseguiria -, vou reformar-me. Ensinar crianças e jovens é das profissões mais lindas que existem. Dura, extenuante, mas mágica, incrível e apaixonante. E se é preciso ter uma função na sociedade, dar algum contributo para o seu funcionamento sem convulsões traumáticas e, se for possível, contribuir, ainda, para o seu melhoramento, não estou a ver outra que poderia ter tido. Por isso foi uma sorte poder ter sido aquilo que, tendo que ser, queria ser.

Agora, liberto de horários e obrigações diárias, vou tornar-me escritor. Mesmo que passe os dias sem escrever. Ouvir música, caminhar, estar, o que baste, com familiares e amigos, ler, ler sempre até me tornar na leitura, abraçar o silêncio, tentar dormir, ouvir, ouvir com atenção, enfim: passar o tempo sem pressas e cuidar do que traz paz ao que me rodeia. Cultivar as premissas que me nortearam os passos, e que agora que vou para velho já posso afirmar que cumpri, sem grandes possibilidades de erro, nunca mandar em ninguém e nunca deixar que em mim mandassem - nunca incomodar, para simplificar. Neste primeiro dia como escritor a tempo inteiro, vou passar as horas todas a olhar o mar.

Amanhã vou passar o dia a cortar os ladrões das oliveiras.

PS. Este quadro sempre me fascinou. Está na espantosa, se bem que maltratada, Casa Inglesa, em Portimão. Sempre que venho a Portimão, passo por lá para apreciá-lo. Dizia-me o pintor Picanço, artista residente no café, e já meu amigo, que a pintura tinha servido como forma de pagar a conta do pintor da obra, que tinha almoçado sem ter dinheiro. Já agora, alguém me sabe dizer alguma coisa sobre o pintor Picanço? Se calhar virou pintor residente noutro local melhor frequentado.

Sinais de Fogo

Sinais de Fogo

(um dos mais importantes livros da literatura portuguesa, esquecido porque sim)

Quando, no outono de 1980, atirado ao Terreiro do Paço, depois de uma demorada viagem no "correio", cheguei à capital do império para estudar Antropologia na FCSH - até se me encarapelam as penugens -, os meus colegas gostavam muito de me gozar, humilhar mesmo, um pacóvio com um sotaque esquisito vindo da província, com o facto, segundo eles, e não nos esqueçamos que estávamos na ressaca da revolução de Abril, do Algarve ser uma reserva de indígenas dominado pelos ingleses. Onde a linguagem das ruas, menus, reclamos, publicidade e, mesmo, indicações de locais, era a língua de Shakespeare. Onde determinados espaços, como restaurantes, piscinas, discotecas e aldeamentos turísticos, eram vedados aos autóctones, enquanto utentes de tais prazerosas zonas de lazer. Autóctones, esses, destinados a servir dócil e humildemente os senhores turistas, camones, como eram conhecidos, independentemente da sua nacionalidade.

Como dizia, tinha que ouvir com paciência, e alguma irritação, embora até concordasse com algumas das críticas formuladas por estes amigos da onça, estas boquinhas sobre a subserviência dos algarvios aos camones. Eu que deixara uma aldeia em que o tempo estava suspenso desde as arremetidas do Remexido.

Hoje, passados quarenta anos, uma parte significativa desses críticos dão aulas em inglês nas faculdades, escrevem artigos científicos em inglês, leem revistas e livros em inglês e, pasme-se, chegam a conversar em grupos com portugueses na bela língua de sir Alex Ferguson.

O novo não tem chagas

Quando me disseram que tinhas ressuscitado, compreensivelmente, e embora o desejasse ardentemente, tende piedade, não acreditei e disse-vos que só o creria quando introduzisse um dedo numa das Suas chagas.

Quando me disseram que passeavas pelas ruas de Jerusalém, mais vivo do que os muitos que vivos te seguiam, aproximei-me a medo e disseste-me:

Anda, Tomé, vem ver O que ressuscitou, O que voltou da morte. Que deixou a frieza da pedra para respirar o ar puro da Palestina. Que deslocou a pedra que O cobria com a força do desejo do Pai.

Caminhei para perto do homem, do amigo, que acompanhara pelas pedras e poeiras dos caminhos da Galileia e furei pelo meio da multidão ensandecida. Que falavas como nos conduzias antes, e parecias O que tinhas sido, não haveria dúvida nenhuma, mas das cinco chagas, de onde tinha visto escorrer da cruz o escarlate e morno sangue, nada vislumbrei. Na cabeça luzia uma fronte cobreada, bela e invicta. Do aro de espinhos nada restava que me aprouvesse observar. Cheguei-me mais perto ainda, e acariciei o teu peito nu e limpo. Olhei-Te demoradamente o corpo jovial e belo. Nada vi que me pudesse fazer crer no que me tinham dito. E fui-me dali chorando incréu e desolado. Só.

Quem contraria as leis da vida e da morte, vem nascido de novo como se de mãe virgem tivesse sido anunciado.

Cativa, 8.4.24

Como se um cão fosse


Um poeta colossal lê pequenos poemas, talvez haicais, que os talheres do bar abafam. Entram poetas de idades avançadas, mulheres com rugas rompendo as camadas de creme esbranquiçado, cheirando a perfumes intensos, mas, talvez por isso, baratos. O colosso retira-se sob uma torrente ruidosa de aplausos sinceros: é uma estrela da televisão e dos grandes salões. Quem agora exige atenção cirúrgica e demorada é uma poeta de umbigo à mostra, barriga lisa e namorado babando, e bebendo cerveja, na primeira linha da assistência. Vira-se para trás mostrando desagrado com a colisão de metais, vidros e porcelanas, por dentro do balcão. Elege Robert Redford como sujeito poético e leva-nos a Hollywood sem livre-arbítrio. Foda-se!, entrou no estabelecimento comercial uma poeta com um rabo magnânimo. Sinto mesmo um prenuncio de ereção abortada. Como gosto de rabos bem proporcionados de poetisas (bem metida esta variação da palavra, hein!), cheirá-lo-ia como se de um cão fosse.

O umbigo em barriga lisa retira-se, perante o deslumbramento do poeta enamorado da primeira fila, e o cu soberbo, nalgas mágicas, impondo a tesão, mantem-se no meu campo de visão como elefante que se atravessa num pesadelo de criança.

Os leques andaluzes atenuam o bafo escaldante do vento, as mesas enchem-se de copos de tudo e um poeta chinês emerge, ou melhor, desce, da Serra de Aracena, onde porcos pretos transportam poemas nas suas pernas preciosas, poemas translúcidos fazendo babar os transeuntes. O vento Norte (?) açoita a rua e a barulheira de pratos, copos e talheres impõe o ritmo do evento.

Chega, entretanto, de súbito, a minha vez e subo ao palco baixo de onde se lançam as palavras. Levo, por debaixo do sovaco, o meu novo livro de poemas. Abro-o na página 27, como previsto, e início, com espanto e estranheza, o poema que por lá se escarrapacha. Titubeio e as palavras não me parecem minhas. É longo e a minha lenta leitura fazem-no quase ficar fora de prazo.

Saio debaixo de uma forte salva de palmas e meio almariado com o cheiro a sovaco.

Aborrecido como uma pedra ao Pôr- do-Sol.



Edita, 1 de maio de 2019

O Rio da Posteridade


Rio, rio-me da posteridade, para a posteridade, e recomeço a percorrer o tempo às arrecuas. As amendoeiras em fevereiro a cobrir o chão de pétalas, o branco das bermas da estrada fulminando os olhares, incendiando o inverno. Se fosse ainda mais atrás, poderia encontrar um amigo pedalando num triciclo à volta do tempo parado, mas o passado não existe. Poderia, até, inventar o corta unhas antes dele ser inventado. O passado é apenas o presente travestido, uma carícia fraudulenta que se desprende no devir incontinente. Se eu quisesse seria a cabeça decapitada de s. João Baptista numa pintura de Caravaggio: no profundo escuro o meu sangue esguicharia como a cauda de um cometa. Se eu quisesse, os anjos extirpariam as asas, caminhariam sobre as pétalas das flores de amendoeira tão brancas quanto a sua pele.



No entanto, se me amasses não correria sem jeito atrás dos meus anos, conduzindo brigas voando nos corredores ensanguentados do império: o teu amor seria suficiente para que me quedasse em silêncio o resto dos meus dias. Ensinar-me-ias que o que verdadeiramente importa é o que não importa. Nada me traria o espanto da minha vida irregular. O silêncio do amor suspende a procura. Nos colapsos da existência arrastaria o que me obriga a procurar nos teus braços a viagem sem caminho. Tenho um compromisso nostálgico com as velas enfunadas que me ocultam as mãos. Um pequeno gesto teu e encontaria a ausência final no restolhar do centeio outonal, a coragem de desistir do enfermo esquecimento. Vem! A espera não prescreve enquanto vontade oculta. Na casa do silêncio premeditado dorme o vazio dos que da vida padecem.

A liberdade dá muito trabalho a conseguir


Pago a água, a eletricidade, o gás e a internet. Pago os meus impostos e os juros da casa e do carro, sem falhas. Para pagar tudo tenho um emprego que me queima o tempo e a vida. Que me adormece enquanto esbracejo no pântano dos dias e mantém em vigília nas noites inacabadas do desejo. Tenho a televisão ligada, o frigorífico ronrona no canto da cozinha. Aqueço o leite do pequeno-almoço no microondas e as torradas saltam da torradeira eléctrica antes de esturricarem. Agora, que ainda tenho 25 minutos antes de me meter no automóvel para o trabalho, percorro as aplicações do telemóvel: vejo como vai estar o tempo, enquanto ponho a música que me apetece ouvir no spotify, vejo os mails, que a esta hora da manhã são poucos, dou uma volta no facebook, no instagram, no tik tok e no X. Sim, que eu sou uma pessoa informada. Como poderia conversar no emprego com os colegas se não o fosse. Dou a última trinca na torrada e meto-me a caminho. Para arranca para arranca para arranca para arranca... para o ano vou de férias a punta caña. Já ando a poupar há uns tempos. Dizem que é formidável: tudo pago e nem precisamos de sair do aldeamento turístico. O descanso é fundamental para recuperar do quotidiano feroz da vida. Afinal o homem é um animal gregário e isso não é fácil. Sem a coesão das relações sociais não seríamos nada. E a democracia permite viver sem grandes sobressaltos até à morte. Depois de voltar de férias vou começar a poupar para dar a entrada para um novo carro. Desta vez vou comprar um elétrico. Disseram-me que era o futuro! É para o futuro que eu estou voltado: o passado é uma estrada plana sem curvas e sem memórias. Estaciono o carro no parque da empresa e passo o cartão do ponto pela máquina na entrada. A porta abre-se. A liberdade dá muito trabalho a conseguir.



In, Espúria - Lagos

Do Determinismo Literário


Leituras para outonos:



 

Uma das mais importantes conquistas do escritor, e relevo sempre, na minha modesta opinião, que o escritor é igual a qualquer outra pessoa, e que qualquer outra pessoa pode ser, já o é em bruto, um artista, é a sua voz. Não é suficiente, mas é, seguramente, condição necessária. Só quando o escritor é possuído pela sua voz, se torna um criador singular. E um artista!

Como podemos facilmente constatar, hoje, e em todos os tempos, os que campeiam na praça usam, e alguns abusam, das vozes de outros. Brilham, muitas vezes sem dar por isso, e orgulhosos disso, dessa voz, nos salões, exposições e concursos, por esses campos afora. Muitas vezes, quase sempre eles, ganham prémios e mordomias. Muitas vezes com vozes extraordinárias. Só que são vozes extraordinárias de outros. Um "plágio" subliminar, difícil de provar e, por isso, legal. A realidade é diferente para cada pessoa. Só a ficção poderia, nunca o é, ser semelhante para todos. O que a paixão vê não existe. Apenas alguns cadáveres se passeiam com resquícios de literatura agarrados ao corpo, e, algumas vezes, às almas. Espectros!

A cena literária nacional é tão pequena, tão circunscrita, que, quando te pões a falar mal de alguém, se te descuidas, já estás a falar mal de ti próprio. E, para teu alívio, e espanto, isso sabe-te tão bem! A literatura deixou de servir para inquietar ou contaminar. Sabemos, no entanto, que os agentes literários, leitores, escritores, editores, livreiros, críticos, entidades oficiais e oficiosas, premiadoras do mérito e do demérito, formatados pelas correntes redutoras dos meios artísticos, ao menor desvio da regra não inscrita, do caminho já pisado, fremem de indignação e malham nos que se atravessam nesta estrada da inquietude oficializada e canónica. Nada há de mais perturbador do que um sujeito em contramão na autoestrada. Nadando contra a corrente do rio grosso e manso. Ciando em barco alheio.

Talvez por isso, seja tão universal a simbologia da cabeça decepada. O Areopagita, São João Baptista, os Santos Mártires de Marrocos, Luís XVI. Quem não acompanha a arte como mezinha desinquietante, tem o pescoço exposto à fria e pesada lâmina da guilhotina.

O novo escritor será um mártir literário. Não lhe bastará a pobreza e a inutilidade das escritas, ainda precisa de ser maltratado por leitores, pares e críticos. Quanto mais desconsiderarem e rebaixarem a sua escrita, mais feliz se sentirá. Como a um mártir, o castigo só reforça o martírio: curiosamente, e a cultura judaico-cristã-islâmica é terrível e exemplar nestes domínios do martírio, castigador e castigado, escritor e leitor, retiram prazer do castigo. Quando alguém elogia o escritor, por caridade, dever ou admiração, vê-lo-emos a planar, sem chão, vazio e aparvalhado. Quase sempre, enveredará por outros caminhos que se afastem da bajulação do leitor: o leitor é, continuará a ser, por incrível que pareça, a medida de toda a escrita. Criador e criação, sendo um outro e outro um, numa dança sem fim rodopiando convulsivamente ao som de uma música gravada a fogo na memória coletiva da humanidade. A lassidão das peias deterministas, que libera loucos e dementes das pesadas correntes do determinismo social, faz destes os potenciais inovadores mais fecundos de entre os criadores. As obras de ponta serão o resultado, cruel e vazio, de mergulhos, em apneia, de pescadores descomprometidos no profundo e vasto inconsciente. Pescadores sem rede, de pérolas inúteis. Inúteis, mas preciosas.

Tudo o que fazes se liberta do que somos. A autoria é sempre uma obra coletiva sem autor. Inimputável. Sempre a obra, por vezes o suposto autor. O que a IA nos vai trazendo, aos trambolhões, não é senão o acentuar e adensar deste pastoso manto que vai transportando e moldando a nova literatura. A IA varre o mundo cibernético, ainda pouco complexo, falacioso e de panóplia bamba, à caça da narrativa; a autoria humana, a mãe de todas as inteligências, varre a genética e a cultura arquetípica, um universo de complexidade e autenticidade sem fim, sempre em reformulação e revolução, esculpindo novas realidades de uma simplicidade excruciante, dolorosa e, inevitavelmente, dolosa.

Resta-nos a voz. A voz que a tecnologia nunca encontrará.

O Sossego do Restolho


Fui eu que procurei o perfume nos matos secos, que inventei os peixes para dar beleza aos mares. Que subi às árvores para nelas desenhar as flores e pendurar os frutos. Que nos seus ramos contrui os ninhos dos pássaros.



Que emprenhei por engano a primeira deusa que encontrei na Grécia e por isso me transmutei num anjo do mal. Que caminhei sobre palhas para não acordar os que nunca sonham e criam óperas estravagantes. Anjos sonâmbulos que transportam a realidade através do sono e escavam longos túneis no interior das memórias incandescentes do corpo. Que renascem do intenso trabalho sepulcral dos vermes consumindo a podridão post mortem. Renascem do pus iridiscente e soçobram de imediato inundando de dor a sensatez dos vivos.

O problema dos que combatem é que estão formatados para lutar contra aquilo que defendem e defender aquilo que os modelou e anima. Para lutar verdadeiramente tem que se destruir tudo. E isso é tão horrendo e doloroso que nem nos passa pela cabeça sequer tentar. A luta, e o sofrimento que sempre lhe está associado (a luta não é a alegria que nos nossos dias embriaga os combatentes), é um silício rompendo a pele. Cicatriz que conduz à morte. Será, também, esse o paradoxo da paixão que, cegando, nos impede de chegar ao seu destino. Procurando um caminho de luz, não é senão uma estreita e sinuosa vereda conduzente ao fim. Um profundo abismo por onde arrastamos os ossos desengonçados na direção da morte.

E tudo seria desprezível se soubéssemos que o outono faz esquecer completamente o verão.

o poema nem interroga


O poema nem interroga, nem responde: o poema é um resgate impossível do nada.



O poema nem interroga, nem responde: o poema é um resgate impossível do nada. Uma porta aberta para o vazio. Ainda antes de ser dito, já fede a cadáver santificado. Antes de escrito revela já a cicatriz que o devora. Só o poeta desconhece a inutilidade da criatura neófita. Tudo o que resta dessa criatura será um rasto de sangue e sombra. Uma cicatriz feita estrada que nos conduz e oprime: um desfiladeiro de dor, grito, escorrendo para a noite. Sentado nas bordas do penhasco, o poeta crê que as acelerações da corrente são o resultado da força impagável das palavras. Varado pelo destino entontecido, perecerá.

O Grande Embuste (ou, a solidão do que resta)


Como se tudo não passasse de um grande embuste, fiz-me ao caminho. As praias foram-me sempre mais lugares de partida do que de chegada. Até porque são mais os que partem do que os que chegam. São muitos os que se perdem na viagem, mais ainda os que nunca se aproximam do seu fim. Diríamos, mesmo, que nenhuma criatura cumpre o seu caminho, cumprindo, no entanto, sempre o seu destino: a morte! O mais difícil, sei-o bem, é distinguir entre viagem e destino, e desenlear os nós que as duas estranhas estradas desenham para nos iludir. Para nos chamar ao seu caminho. Nunca compreendi porque são tão imperativas estas vias. Se impuseram o algo ao nada, se nos atiraram para a vida sem sequer nos ouvir, se nos não deram ferramentas suficientes para lutar com os furiosos elementos e nos tornam mais frágeis quando nos aproximamos do belo (esse mesmo belo que não nos deixam compreender: porque são as montanhas belas? como pode ser belo um rosto entre outros? Que graça tem um animal?) e do sublime, quando nos dão a euforia como droga da salvação, que nos destrói e catapulta para a depressão mais profunda do mar revolto que atravessamos. A uma crista da onda vem sempre um vale. Às ondas da euforia sucedem vales profundos e encaixados, depressões sombrias, bastas vezes sem possibilidades de retorno e conduzentes à morte. Morte física ou psicológica, que, ao fim ao cabo, são, ou representam, a mesmíssima coisa.



[ ] Quando me fiz ao caminho, apetrechei-me, como seria de supor, com tudo aquilo que achei necessário para a aventura em que me ia meter. Inerme, lanço-me à aventura seguindo, assisadamente, o rumo do vento. Tudo o que me chegava, chegava antes de o encontar, e, assim, não seria surpreendido pelo desconhecido. Conhecê-lo antes de se apresentar é uma vantagem que explica, em parte, a calmaria dos que estudam o silêncio das ocultas presenças que se erguem do desconhecido. Nada parece mais próximo de nós próprios do que aquilo que não conhecemos. O que está longe, mesmo que esteja acantonado ao dobrar da esquina da consciência, está perto. Tão perto que a possibilidade de se deixar conhecer é praticamente impossível. É nesta incertidão, que arrasto o esqueleto na direção da ventania. Há criaturas que passam em sentido contrário a grandes velocidades. Levam sorrisos abertos e nunca acenam. Parecem conhecer previamente o lugar para onde vão. Não há longe para quem navega a favor do vento. Quantas vezes pensas voltar e seguir o seu caminho? Ou, o do homem calado? Há momentos em que deixas o olhar seguir as suas trajetórias prazenteiras. O corpo hesita. Mas sabes que o que interessa é deixar o cabelo soltar-se sobre as costas. O caminho mais difícil é o que te levará a descobrir terras incendiadas, devastadas, pelos que ousam descansar nos momentos tormentosos da noite e fugir da ilusão que encanta a visão domesticada das coisas.

[ ] O futuro é um resgate sem retorno do que os passageiros do tempo improvisam quando a viagem é interrompida. Cansados são os tempos que da coragem emergem para resgatar o que da loucura se exibe e grita.

Um dia distante, chegarei, náufrago e indigente, à praia que me viu partir com as velas enfunadas. Quando partimos, somos só nós que deixamos ficar a imensa solidão do que resta.

Escarafunchando num passado inexistente


Escarafunchando num passado inexistente



O calor cresce lá fora. Enquanto a calmaria se precipita do céu violeta, dou por mim a revolver os resistentes socalcos da memória. Alguns substratos profundos são compostos por sedimentos de memórias partilhadas. Escarafuncho e os sedimentos esboroam-se e invadem outras camadas confusas do antro cavernoso do pretérito, aumentando a confusão e ocultando a massa disforme que tento penetrar.

Por vezes recorro a memórias externas que se cruzaram nos caminhos que percorri e vou tentando compor pequenos e difusos fragmentos que me permitam chegar mais fundo. Colar fragmentos de um mosaico, ou melhor, de uma película irrecuperável mas que, à maneira do digital, possa fazer sentido e sarar feridas escancaradas de outrora.

Continua a crescer o calor lá fora. O cão uivou pressentindo inquietudes nas pessoas que se afundam na História incompleta. (há uns dias, por brincadeira só falei inglês com ele: come on on Matrix, your food Matrix, you are the especial one Matrix. Foi-se embora e só voltou dois dias depois. As memórias dos cães são mais selectivas do que as dos homens). Como eu ia dizendo, o Matrix uiva nas sombras. A liberdade só é possível num sistema sem memórias: quando esburacas num passado inexistente. Só perante a vida. Caminhando, sem olhar para trás, nas numinosas paisagens onde as pegadas se apagam antes de os pés assentarem nas areias. Caminhando em intermináveis socalcos metafísicos.

O Sossego do Restolho








Fui eu que procurei o perfume nos matos secos, que inventei os peixes para dar beleza aos mares. Que subi às árvores para nelas desenhar as flores e pendurar os frutos. Que nos seus ramos contrui os ninhos dos pássaros.



Que emprenhei por engano a primeira deusa que encontrei e por isso me transmutei num anjo do mal. Que caminhei sobre palhas para não acordar os que nunca sonham. Anjos sonâmbulos que transportam a realidade através do sono e escavam longos túneis no interior das memórias incandescentes do corpo. Que renascem do intenso trabalho dos vermes consumindo a podridão post mortem. Renascem do pus iridiscente e soçobram de imediato inundando de dor a sensatez dos vivos.

Disse então um homem banal que por ali passava:

- O problema dos que combatem é que estão formatados para lutar contra aquilo que defendem e defender aquilo que os modelou e anima. Para lutar verdadeiramente tem que se destruir tudo. E isso é tão horrendo e doloroso que nem nos passa pela cabeça sequer tentar. A luta, e o sofrimento que sempre lhe está associado (a luta não é a alegria que nos nossos dias embriaga os combatentes), é um silício rompendo a pele. Cicatriz que conduz à morte. Procurando um caminho de luz, não é senão uma estreita e sinuosa vereda conduzente ao fim. Um profundo abismo por onde arrastamos os ossos desengonçados na direção da morte.

Eu, que não conhecia ninguém naquela terra, estuguei o passo e regressei a casa.














 






Peixes melancólicos

Há dias em que os peixes se sentem melancólicos e nadam para trás, divergem dos caminhos que as algas sedosas lhes indicam. Não há maneira de os fazer voltar atrás. Os peixes não dormem e, portanto, não sabem dos sonhos dos homens nem dos deuses. Nadar é a sua vida e nadar para trás traz-lhes benefícios: podem ver com mais acuidade os anzóis que os pescadores de nada atiram às aguas transparentes da solidão. Se os peixes dormissem, nada no mar seria como é. O amor traria tristeza aos que se prendem demais à poesia.

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...