terça-feira, 28 de junho de 2011

uma pedra desatenta e fria




 


Era uma pedra dessas


Desatentas e frias


Dando conta das transferências


Suspeitas do que acontecia


Na planície em fogo destruída


Pelos momentos contidos


Que o medo anunciava.


Dessas sentadas na ordem


Eventual e permanente, no


Inexplicável esquecimento


Reduzido aos arguidos que


Encomendam as lágrimas.


À sua volta tudo mexia:


o pó, a areia, os entes


Que por si se deslocavam,


As árvores esparsas


Tudo se movimentava


Insensível à constância


Da pedra.


Alguns, raros, tropeçavam


Na pedra e interrompiam


A corrente dos que desfilavam


No plasma incontinente.


A gramática da pedra não


Exige compreensão profunda:


uma pedra resiste à análise da sua alma,


Da essência  onde repousa


O entendível. O que resta


Induz o turbilhão e a


Mudança nos fluxos envolventes.


Para o entendimento


Da correnteza é preciso parar.


Na inércia contemplamos


A mudança e abrangemos


Os elementos que se arrastam


Nos atritos que cicatrizam a pele,


As peles diversas que vestem


Os incaracterísticos materiais,


As coisas que flutuam no nada.


No algo que se confunde com


O nada aspergindo o todo


Que projeta e comporta o sonho.


Tropeçar na pedra é um


Jogo de azar que o tempo


Corporiza no pesadelo paradoxal.


Era uma pedra dessas


Desatenta e fria…

sexta-feira, 17 de junho de 2011

planície hilariante


 


A paralisia que governa


A papoila delirante


Grita na noite esquecida.


O som que se esvai por entre


O prazer das voltas no leito


Duro das certezas


É um elixir divino rasgando


As vestes da tua irmã. A tua


Irmã que amas sentado


Na escada que conduz


Ao fogo purificador da culpa


Onde a moral asperge


O castigo ancestral da nobreza


Avançando na memória cruel


Do precipício.


Avanças no teu bocado


De amanhã e o dia estende-se,


Sem propósito visível, por entre


Os sacrifícios da canção dolente.


A viagem é definitiva e o acordar


Cerimonioso do coração embriagará


A planície hilariante.


 


Cativa,  11/5/2011

domingo, 5 de junho de 2011

no infinito não há portas


Lamento dizer-vos, sobretudo pelos possíveis danos causados às virgens úteis e aos crocodilos do costume, mas aqui tem habitado a melhor poesia dos anos 2010 e 2011. E a provocação nem é muito substancial...


 


No infinito não há portas


 


Apagaram as luzes e as questões ficaram para o fim. A breve história, que te apresentaram como metodologia para te encontrares, é um distúrbio na capacidade de enfrentar a desordem e inverter o processo que conduz à unidade mínima do amor. Queres questionar a fala dos outros, o discurso que avança na escuridão e revela a conversão da memória criando dificuldades à compreensão da linguagem. Apagaram as luzes e as certezas que alimentam as almas discretas recuaram até ao abismo das palavras primitivas. És uma bebé que sai à rua pela primeira vez. O mundo é novo e as folhas das árvores acenam-te da infinidade das almas. Nas trevas impostas, conduzes os passos acompanhando o sussurro da manada. Sem claridade, o melhor é perseguir a manifesta vontade da multidão que caminha flutuando na noite artificial e vazia. Aqui, sentes o reconforto do calor que se escapa dos corpos, a ausência de pensamentos. Só interessa caminhar na direção do infinito. Só o infinito poderá circunscrever o desejo que transportas. Nunca te ajudará a encontrar as saídas das sombras. Só saímos, ou entramos, quando há limites que interrompem as planuras, só ultrapassamos as barreiras quando nelas cavamos portas e janelas. Quando as saltas, por encantatório que te pareça, não ficas a conhecer a sua substância e, assim, não as ultrapassas verdadeiramente. A massa informe que integras, sem conhecer os teus parceiros de caminhada, irá um dia confrontar-se com o fim do pisotear do chão antigo. O mais provável é o voltear de cabeças, o recomeçar da estrada escura até uma outra possibilidade de confronto com o fim. Com a pluralidade da renovação das pegadas na pradaria brutalizada. É quando a horizontalidade esbarra com o muro violento que deves procurar chegar-te ao fim que promete o princípio. A manobra é de uma perigosidade extrema perante a deriva translacional da manada. A liberdade vem sempre após um limbo de perigosidade extrema. Se escapares ao esmagamento da dor que te acompanha, estarás (enfim?), só entre ti e o obstáculo que te limita a visão do que está para lá do fim. Ainda não chegaste aos territórios onde a tristeza é uma forma de ser livre como outra qualquer. Ainda tens que abrir uma passagem no muro de silêncio que se ergue à tua frente. Ainda estás a tempo de voltar e integrar o silêncio, regressar ao conforto dos sussurros que evoluem na obscuridade. (lembra-te que apagaram, há muito, as luzes) A escolha é tua. Só tua. Não é uma questão entre regressar e renascer: o renascimento é, ele próprio, um regresso. Um regresso ao futuro. O futuro é a tua escolha. Ousar enfrentar o desconhecido ou aceitar a benevolente oferta do caminho trilhado no pó que se levanta das trevas. Para lá do muro, existe um mundo sem portas nem janelas pejado de cadáveres que se atreveram a ser livres. O infinito é uma prisão sem referências. Não há portas para abrir na imensa vastidão sem fim.


 


VRSA 24 de Maio de 2011

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...