domingo, 21 de março de 2010

emoções torrenciais


Jaime Reis


 


Na minha idade tenho que ter cuidado com as emoções fortes. O Glorioso, O Grande, O Inominável  continua a aspergir felicidade sobre os milhões que Nele depositam a sua vida e que Nele crêem até à infinitude.


Hoje 3-0 ao F.C. do Porto e a vitória na Taça da Liga. Na última quinta, vitória em França contra o grande Marselha, e passagem aos quartos de final da Liga Europa. Os tempos que se avizinham não vão ser fáceis. O coração é grande e está preparado para a felicidade que aí vem. No entanto as torrentes são sempre perigosas ... e belas.


 


PS tardio: Infelizmente sou um doudo por futebol. Bem vistas as coisas são apenas uns indivíduos de pernas ao léu a correr atrás duma bola. Mas a vida na aldeia a jogar futebol todos os dias, na meninice, e a federalização nas equipas a sério de Tavira (principalmente no meu querido, e extinto, Desportivo Tavirense -  até se me arrepiam as penugens) fizeram de mim um adepto ferrenho e um expert inultrapassável. Isto vem a propósito do comportamento do Bruno Alves na final da Taça da Liga.Como expert, admiro o Bruno Alves e adoro vê-lo jogar ( eu também fui, uma vida, defesa central e dos bem rijos), mas nunca deveria ter acabado o jogo. É feio não saber perder  e não saber honrar os que são melhores.

sábado, 20 de março de 2010

a inutilidade do retorno


Quando atravessei a linha que separava a aldeia do resto do mundo, entrei num sonho estranho que me espantava e ao mesmo tempo  esmagava. O medo pesava como a escuridão dos tempos em que  as virgens sem consciência pariam profetas. Olhei atrás e vi desaparecer os dias que me abraçaram para sempre. Agora o roteiro seria traçado por mim, as agruras deixariam de ter o amparo da vizinhança.


 


Lançado na aventura de percorrer os caminhos dos outros, comecei por enveredar na direção que me pareceu mais fácil de entender. O breve  cheiro da brisa refrescante. Instinto de animal ameaçado: o vento traria fragmentos do perigo que o futuro transportava e os suores da alma abandonada atingiriam o antro da minha vida, na aldeia difusa no longe que crescia. Enchendo os pulmões com o ar novo que vinha das terras do sonho por cumprir, avancei destemido nas planuras que completavam a traição que urgia desocultar. Voltar atrás era um sussurro incontornável nas paredes opacas da imaginação. A vegetação rasteira rareava nas bermas do trilho esotérico que ladeava o corpo, as árvores deixavam de projectar as suas sombras no espaço que corria sob os meus pés, os pássaros voavam ao sabor da correnteza dos ares sem olhar para os novos amigos da viagem. A própria poeira dos lugares sem esperança começava a assentar com o lastro do vagabundo inexperiente.


O burburinho que se aproximava, transportado pelo vento risonho do além, acrescentava à paisagem um travo acre a solidão. Quando o ruído tomou conta de tudo e, no horizonte, apareceram as primeiras construções brutalizando o olhar, senti o cabelo assustado e espesso.


De olhar  turvo e mãos crispadas, entrei na cidade deixando a alma na periferia orbital. A penetração traumática no antro do devir inibe o desejo. A cidade é o fim do sonho e a certeza da inutilidade do retorno.

segunda-feira, 15 de março de 2010

doidos por congressos


 


Santana Lopes é um verdadeiro enterteiner. Sem ele, e a sua lei da rolha, ninguém teria dado pelo congresso (sic) do PPD/PSD.


 


PS: Perdão, o Ricardo Costa da SIC ter-se-ia passado na mesma.

a claridade da rocha


Sempre que foi avaliado e pretendeu um bom resultado, conseguiu-o. Metamorfoseou-se no avaliador. Esta é a mais injusta das avaliações. No entanto deixa os dois intervenientes felizes. Sobretudo o avaliador.

Nunca o avaliador poderá avaliar-se a si próprio. Todas as suas avaliações (enquanto sujeito e sujeito do sujeito) são, portanto, irrelevantes e falsas. Quando queres saber minimamente o que vales, relaxa e torna-te numa entidade mineralizada. As rochas falam por todos nós.

terça-feira, 9 de março de 2010

mentes brilhantes



Portugal tem dificuldade em fabricar gente normal. Homens e mulheres simples, com vidas rotineiras e hábitos à partida tão banais que contagiam de felicidade quem os tem. Em Portugal só nascem iluminados transformados em agitadores da genialidade quando nem chegaram à idade adulta. Bom, quando lá chegam, tenham medo, tenham muito medo do que dali pode sair. Portugal é um país que se contenta com mitos: o mito da grandeza, o mito da língua, o mito da genialidade. Nunca há gente simples; só mentes brilhantes capazes de tudo para orientar o nosso caminho, sem nunca terem a coragem de sujar os calções - se eu estou a falar no Néné, por favor, lavem-me esta boca com sabão macaco. A genialidade é um peso que carregam. Um estorvo que partilham com os demais. Uma poção mágica que bebem e que os faz querer ser Obélixes a toda a hora. Nunca se apercebem do ridículo que é o auto-retrato: nem toda a gente tem o talento de comer javalis às pazadas. A genialidade não é para todos, muito menos para quem assim se considera. É crescer e aparecer, meus caros.







Bernardo Pires de Lima às 12:19 | link do post

segunda-feira, 8 de março de 2010

e o Sol brilhará para todos nós


 


Apesar da chuva cair sem parar há três meses, o meu Sol continua a brilhar e a iluminar os nossos dias.

quinta-feira, 4 de março de 2010

a hipocrisia da eternidade


Paulo Serra


 


trago nas mãos os rostos rasgados dos tempos


histórias de ruas que desembocam na escuridão dos corpos


esmagando a ossatura divergente das eras nupciais


prenúncio da conflitualidade latente nos arquétipos sinais da lonjura


 


nas mãos mergulho a idade do medo comunitário


contexto manipulador na volúpia dos sentimentos virtuais


nas mãos recolho a inutilidade da passagem das horas


confundo a realidade tornada maresia


sussurrando sobejos de poemas onde repousam


murmúrios da noite edipiana, vestígio


desassossegado de eros arrancando o sexo


às criaturas ambulantes que adormecem nas perplexidades


nos paralelepípedos do sono


 


Eram mãos representando a primeva ereção humana


mãos semi-afundadas no ego das plantas por parir


na pendente hipocrisia da eternidade.

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...