Levantei-me tarde, como sói acontecer aos poetas num país de poetas, e voei de lambreta até à cidade. Ia oferecer o meu novo livro escrituras a uma amiga. Quando se chega de lambreta à cidade, nunca há problemas de estacionamento. Deixei o motociclo no passeio em frente à casa da minha amiga e toquei a campainha. Espreitou à janela do 1.º andar uma moça nova, bonita e simpática, pedi desculpa pelo engano. Premi a tecla do outro lado e ouvi um clique de porta a abrir no referido andar. Subi constrangido pelo estado em que, supostamente, iria encontrar a minha amiga: sofria de doença cancerígena grave há uns meses. Quando atingi a porta certa, esperava-me sorrindo. De barba e bigode, de pelos à volta dos olhos, sem dentes, de rosto amarelecido e de barriga proeminente. Sorria! As radiações que curam também são as mesmas que matam. A mim só me vinha à cabeça o monstro da bela e o monstro. Sorria! Sorri! Cumprimentámo-nos como sempre. Como se nada do que estivesse a acontecer estivesse a acontecer. Mentindo sem palavras, com apreço um pelo outro. Como fora em dezenas de vezes, em outras circunstâncias.
Ficou muito sensibilizada com a minha oferta. Agradeceu! Agradeci!
Descuidei-me e perguntei-lhe como estava. Que estava bem. Tinha ido ao tratamento no dia anterior. Disse-lhe que, se quisesse, não falássemos nisso.
Queres um café?
Sim, pode ser. Estou com pressa, tenho uma reunião às 4, menti-lhe. Sem saber quanto tempo ia aguentar e preparando a fuga. Levou uma eternidade a fazer o café. Talvez gozando a presença. Quem só sai quando vai ao hospital deve apreciar as visitas.
A casa dava para o rio e entretive-me a ver passar os transeuntes na borda d`água. Quase todos turistas. Como se de um filme se tratasse. Passavam para não mais voltar. As águas da maré subiam a grande velocidade. Marés vivas: Lua Nova: Lua Nova e Lua Cheia maré alta às duas e meia, dizem os antigos. Peguei nuns binóculos que estavam numa estante perto da janela e olhei as margens do rio. As esplanadas dos restaurantes, cheias àquela hora de sol radiante.
Costumo espreitar os caranguejos violino na maré vaza, com eles. Este ano acho-os mais pequenos, não sei bem porquê. Com o café nas mãos. Sorria.
É ainda primavera, no verão serão maiores, aventei, sem que percebesse, ou me interessasse saber, alguma coisa de caranguejos.
Sentámo-nos à janela a tomar o café. Estava bem quente. Como o tempo que parara.
Disse-me que quando ia ao hospital, quando saía, punha a máscara para esconder as pilosidades faciais. Toda a gente o devia fazer, acrescentava eu. Com as bactérias que se apanham por lá.
Falámos dos filhos, dos animais domésticos que tínhamos e dos que tinham partido (não dei pelo gato que sempre teve), de alguns amigos comuns. De alguns, com pinças da minha parte, que haviam falecido. Da autópsia (sempre a morte a vir à tona da mente) que ela, com a minha incompetente assistência, tinha feito a uma araucária da Quinta da Cativa, que, depois de anos de crescimento vigoroso, tinha secado (bem contornada a morte hein) de repente. Autópsia inconclusiva, como era de esperar. Disse-lhe que me ia reformar este ano e ficou contente com isso. Vi-lhe nos olhos.
Acabámos o café em silêncio.
Ainda fumas, perguntou-me enquanto acendia um cigarro de enrolar.
Não, há cinco anos que não pego num cigarro. Com remorsos do tamanho de um pedregulho incontornável.
Há muitas formas de morrer, pensei eu.
Bem minha querida, tenho que ir. A maldita reunião, menti-lhe sem remorsos evidentes.
Despedimo-nos como sempre! Talvez para sempre.
Desci as escadas com os olhos nublados da dor. Dei à chave da lambreta e cavalguei-a para longe. Tão longe que não sei aonde fui parar.
Cativa, 9.5.24
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