segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Metamorfoses na baía das ilhas de púrpura


Entre ... e ... também corre um deserto de pedras.



Uma borboleta pousou numa nespereira morta.

Uma abelha morta no meio do cus-cus.

Nunca digas que os santos não mordem e que as divas em vias de extinção não atiçam fogo no coração dos galãs postiços. Pastor de criaturas sedentas numa terra sem ervas. Segue os rios secos do deserto e desafia para a caminhada as mulheres que se cobrem de raiva e medo e se acocoram nas bermas do destino. Contempla as árvores de argan e rejeita os apelos das torres altas da medina. Recolhe os excrementos das cabras que povoam as árvores, visita a cooperativa das mulheres que fabricam os unguentos e besunta o teu corpo do óleo sagrado de argan. Procura o caminho do mar. Sempre o caminho do mar, e, quando o encontrares, lava-te nele de todos os desejos insanos. Insanos e belos. E antigos como os pomares esquálidos de argan.



Quando abandonares as areias de sangue da praia de Mogador, e as ilhas de púrpura, onde colherás o molusco roxo que trouxe as barcas, serás outro. Outro mais antigo do que o que aqui restará.

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