domingo, 26 de dezembro de 2010

BOAS FESTAS E BOM ANO NOVO

Hoje, para vos desejar BOAS FESTAS e um belíssimo ANO NOVO, vou deixar-vos um poema da minha mãe. Sim, a minha mãe Rita é poetisa com obra publicada, com prémios vários e carreira consistente, aqui para o Sul. Não tenho distância suficiente para apreciar a sua poesia, embora me pareça distante. Mas, também, o que é que isso interessa? Eu, até, em regra, não gosto de poesia.


E, já que estamos de sentimentos à flor da pele, convidemos o meu pai para as festas.


 



 


 


segui sem rumo pela estrada da vida


caminhei a seu lado em curvas tortuosas


pisei as pedras que me olharam vencida


e voltei atrás em passadas vagarosas.


 


devagar retornei ao ponto de partida


já cansada dos sonhos de caminhante


como utopia na luta já perdida


da vida já vivida e tão distante.


 


vencida olhei os céus do meu destino


como afago as estrelas me mostram


na torre da igreja aquele sino


aonde as horas da vida me marcaram.


 


parada fiquei na beira da estrada


não segui para diante o desconhecido


da minha alma saiu rouca gargalhada


do meu peito o grito há tanto reprimido.


 


 


Maria Rita Baptista - Sonhar Poesia -2001

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

excrementos involuntários


 


canalsonora


 


O meu amigo, e poeta enorme, Rui Dias Simão foi professor dois anos lectivos. Um em Rabo de Peixe, enquanto passeou, diletante,  os ossos pela Universidade dos Açores e pelos bares de Ponta Delgada, outro em Vila Real de Santo António. Este último ano lectivo foi bruscamente interrompido quando numa tarde, a seguir às aulas, foi beber umas cervejas e jogar snooker com os seus alunos. Enquanto ajeitava o taco para bater a bola branca, um aluno carambolou a frase que interrompeu uma rica, se bem que curta, carreira de docente. "Qualquer dia até o meu cão dá aulas", atirou, batendo com estilo a referida bola. Nunca mais entrou numa Escola... o poeta, bem entendido.


Vem isto a propósito de um certo livro de poesia que certo "poeta" lançou num determinado mês de dezembro, que por acaso é o que corre na graça de deus. Qualquer dia, até o meu cão, o possante Matrix, edita um livro de poesia.


Portugal é um país de poetas. É uma certeza que os portugueses, sobretudo os poetas, gostam de alardear aos múltiplos ventos. É um país de poetas como o são o Canadá, a Venezuela, a Indonésia, o Burkina Faso, a Nova Zelândia ou o longínquo Botão. Tirando o maior dos maiores, o Fernando, o excepcional Luís e o perturbante Aleixo, o resto não sobressai da floresta de poetas que polui e, na maior parte dos casos, corrompe o plasma que nos esmaga.


"Também tu brutus", digo eu a mim próprio associando-me à poluição vigente. São excrementos (da alma?) senhor, não leveis a sério. Necessidades que não pretendem ser mais do que um escape libertador da alma. Reação exigida pela ação. Sendo a primeira pior que a segunda que já não é famosa. O que me consola, que nos consola, é que o produto expelido não incomoda nem se acomoda  nos transeuntes. Não contamina nem dói a quem se exponha. Inocuidade sem mal. O que mais me preocupa são os amigos que, inconscientemente, me afagam o ego acreditando nas palavras incontinentes que se escapam da centrípeta vontade do emissor. Quem me dera nunca ter escrito uma palavra. Só posso prometer contenção, a osmose involuntária só parará com a morte. É uma doença cruel e crónica. O que me consola é a floresta que tudo abafa.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

chegámos tarde e a noite avançou


 


Chegámos tarde e a noite avançou, o estatuto da noite não morava ali.


Quantas vezes tinhas empenhado as jóias que reverberam da cerveja bebida na tasca


depois da cerimónia da morte?


O objectivo era unificar a arte, a cultura e a terapia que sublinha


o rumorejar da ausência inerte.


A desesperança encontrava, na associação com os projetos de renovação,


direitos inapeláveis onde os gritos executam


a panóplia inacabada das competências esquecidas.


O morno escriturar da mitológica raiz na plenitude imprime a tatuagem larvar


do caminho interrompido , nudez do rosto avançando,  que aquece


a ordem na arquitetura do sonho.


Quando chegámos, os rostos que sobressaem da espessa penumbra,


rejubilaram de alarvidade.


Dás-me  contas da incompletude nas pegadas impressas de vida,


daqueles  que perdem a utopia viável dos cataclismos confortáveis e nus.


Agarramo-nos à insuficiência dos presentes e arrancamos palavras soltas,


inimputáveis e corruptas. O sabor do ritual irrepetível é uma onda


de desejo  que cumpre os critérios obtusos da multidão.


Os documentos são irreversíveis e envolvem vontades instaladas, revoluções


impraticáveis que renegam os pensamentos estultos e ressabiados,


emergentes da máscara desoculta na balbúrdia reflexa.


Os dias arrastam-se na envolvência das emoções inadiáveis, receita


da casa que não esquece os jogos arquitetados na distância da semente,


os dias são o que não entendes nos outros, as vidas que se cruzam


em múltiplas imagens no espelho paradoxal.


A maresia eleva-se dos espíritos que vagueiam no labirinto


catártico da poesia primordial. O elenco da putridão oblíqua


manifesta-se quando a lâmina penetra a frieza do olhar. É um desenvolvimento


esperado sem a aprovação dos que não dormem enquanto sonham


o desfilar das figuras fragmentadas pela  luz.


Retiras a sensatez aos que desprezam o inútil esculpir da realidade


suspensa no pesadelo das sombras.


 


Chegámos e o jardim contemplou-nos sorrindo na placidez da tempestade.


 


(Tavira, 27/11/2010)

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...