quarta-feira, 1 de julho de 2026

Tudo também pode ser nada

 


(sem rede)

Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, um esquecimento determinado pelas convicções, talvez a morte não fosse tão temida e tão cruel. A passagem para um outro lado qualquer, um chão obscuro, mesmo que de brilho numinoso, parece ser sempre uma aventura radical. Mais, ainda, quando nada sabemos sobre o outro lado. O que é quase sempre, mesmo quando estamos convencidos que o conhecemos, e, às vezes, escolhemos, e entendemos. Nós, inocentes militantes do mal, que nem conhecemos, nem entendemos, o nosso próprio lado. Nem Deus, que está em todos os lados, consegue interpretar a multiplicidade. O estar em toda a parte não (O) ajuda em nada. Muito menos a omnipotência que se torna inútil num mundo frágil e de equilíbrios delicados. Num mundo complexo, são os mais fracos os que mais poderosos são na realidade. O outro lado será sempre o lugar do esquecimento: Masahisa Fukase fotografou corvos negros o resto da vida, depois de se separar de Yoko Ono; Robert Walser programou a sua morte deitado de costas sobre a neve, depois de ter vivido os seus últimos longos anos de vida num manicómio, W G Selbad quebrou a sua rotina de caminhante para ir buscar a filha de automóvel ao outro lado e morrer num brutal acidente contra uma árvore.  Até eu, que sou um sedentário invulgar, nadei uma tarde na deslumbrante Baia das Gatas, na Ilha do Mindelo, em Cabo Verde, enquanto mirava, ao longe, a selvagem ilha de Santa Luzia, paraíso de tartarugas felizes, e fui brutalmente recambiado por polícias zelosos, em 1978, antes de Portugal ter entrado na CEE, de Cérbere para Port Bou, onde, sem saber que aí se tinha suicidado em desespero Walter Benjamim, prometi a mim mesmo ser um revoltado para o resto da vida. Descobri, desolado e só, nessa ingrata terra catalã, que não havia lado nenhum para onde pudéssemos ir, nenhum lugar resta que não o nosso lugar. Um lugar de memória, mas, mesmo assim, o que de mais chegado podemos contemplar. Por isso mesmo, nunca encontramos esquinas chanfradas. As esquinas não permitem olhar o outro lado ao nosso lado. A danação presumida do desejo. Numa só terra mitológica, aguardamos o inevitável esquecimento, um caminho desconhecido desprovido de livre-arbítrio. Escolhemos o nosso destino como um cão escolhe a sombra para se deitar no verão, ou como um camaleão muda de cor, o que lhe é fatal, ao atravessar a estrada. A escolha não significa sermos livres. O nosso lugar é o lugar do outro. Todos os lados constituem, e vão gerando criação e construindo, em constante (r)evolução, o que de cá é também o nosso de lá.

Babell Porto 26

 Escritores ricos, e leitores babacas, esgadanham-se e acotovelam-se, com o patrocínio dos bem-intencionados, e beatos, comendadores da pátria, a trepar, durante um belo fim-de-semana, numa cidade linda, a mítica Torre de Babell. Hoje como ontem, a vaidade humana comandando a vida. Não aprenderam nada com a leitura da Bíblia.



Da arte de contornar o tédio

 Para seres pássaro, não é preciso saberes voar. Basta, sim, quereres encontrar um amigo. Com ele, aprenderás a voar. A ir por aí rasgando a solidão que te oculta e constrói. Criando caminho e aprendendo que a amizade não estilhaça a tristeza. Não te rouba à beleza de estar só.

O mar torna-se mais belo e acolhedor porque tem barcos. Que rasgam o azul das águas e descobrem outras terras, outros mares.

Quando somos andantes, errando por aí, mais tarde ou mais cedo, trocaremos olhares.

As casas só nos oferecem vãos para rasgar a paisagem interior das almas.

Para mostrar o vazio das pedras domesticadas.

Caem crisântemos sem fim

 Caem crisântemos sobre  a tua face molhada e a chuva não dá sinais de abrandar.

Sento- me na orla da tua cama enquanto balanço os pés no abismo escuro dos teus sonhos.

As pétalas das flores tristes agarram-se

à face macilenta.

Percorro a alameda das árvores insensíveis enquanto os flamingos regressam a casa. Há uma melancolia dominando os dias insensatos e as vozes suaves das meretrizes. Um abraço de  pássaro colhendo ameixas descomprometidas. Nada resta do que me qostarias de dizer no vento agreste do pensamento crítico e permaneces assim no silêncio dos que combatem a negritude dos teus lábios. Nesta manhã escrevi cinco versos. Falam do que aconteceu antes de te conhecer. Antes até de me conhecer. Pensei que seria assim que poderia recuperar o passado. O tempo necessário para tentar entender o porquê  da melancolia que transportas. Nunca tinhas visto os crisântemos que agora te ornam como se do esquecimento se tivesse soltado um pensamento sem peias que dobrasse o infinito poder da tristeza. Chama-me pelo meu nome. Diz-me que o que aconteceu antes de te ter conhecido não aconteceu. Foi uma fagulha de incêndio que ateou o fogo ao futuro. E íamos todos juntos através das marés,  cantando e dançando com os peixes que tinham perdido a memória.  Numa crista de onda imparável vimos até sereias nadando aos pés da cama onde sentado apreciava a frescura do vento. Seria já tarde quando atravessaram a rua os melhores amigos das sereias. Conheciam de cor as letras das canções que embalavam as crias dos inventores de verdades pintadas por Van Gogh. Conheciam também os lugares onde tinham colocado os mortos da batalha final entre a fala e o silêncio ardente, o vazio. Não sei do que falam os que chegaram na aurora eminente, os que atiram pedras aos cães vadios que atravessam a noite. É natural o rugido incontinente da madrugada. O que traz a claridade do dia  é uma mensagem cifrada que ninguém pode entender. E eu ali especado esperando os que nunca virão. Os que esperam nas esquinas da consciência o mal dos outros, enquanto entoam orações pelos labirintos gravados na tua carne. Dentro de uma casa em ruínas dança um feiticeiro na penumbra nevoenta da manhã.

Um pinheiro decepado

Quando chegas de um encontro literário de Puebla del Rio, Sevilha, e a ventania deitou abaixo um terço do pinheiro mais alto da quinta, não tens outo remédio: passar o dia seguinte a cortar a parte caída. Para trabalhos mais duros, uso Rolling Stones como droga!

P.S. Primeiro, para a ramagem mais fina, usas a serra manual, depois, já com a estrutura despida, usas a serra elétrica, em boa hora oferecida pelos filhotes, e cortam-se os ramos médios, finalmente, para os troncos grossos, usa- se a moto serra de alto calibre, a diesel. Nem o Millei me bate.

PS 1. Agora, parei um pouco. Com o Andy não dá para fazer barulho.

PS2. Bem no que seria o topo do pinheiro, encontrei esta casa. Felizmente,  parece-me já não estar habitada.






Puebla del Rio - Encontro de escritores

 Puebla del Rio é uma povoação situada numa colina sobre o majestoso Rio Guadalquivir. Até ao mar, até à foz, na margem direita, estende-se a perder de vista, até El Rocío e Matalascañas, o impressionante Parque Nacional de Doñana. Sevilha espreita ao longe e por onde antes passaram carracas, barcas, caravelas, naus e galeões, passam agora porta-contentores e navios de cruzeiro. Por onde navegaram Colombo, Magalhães, Del Cano, Pigafetta e tantos outros passam agora turistas de ocasião levados em manada para se encantar na capital da exótica Andaluzia. La Puebla orgulha-se de ser a zona onde mais se semeia e colhe arroz em toda a Europa e em ser a "cuna", o berço, das sevilhanas cigarreiras, um género de sevilhanas que tem ainda a alma das gentes que as criam e cantam e bailam, sem concessões ao voraz marketing turístico que tudo normaliza e homogeneíza. Eu próprio, de pé atrás com as sevilhanas, me tornei, agora, um apreciador destas músicas arrancadas diretamente do coração. Conheci mesmo, para além de cantores, dançadores e guitarristas, há-os por toda a parte, um dos maiores letristas de sevilhanas cigarreiras: Pepe Palma, que, como o apelido anuncia, é descendente de portugueses de Guerreiros do Rio, uma aldeia nas margens do rio irmão do Guadalquivir, o Rio Guadiana. Foi a primeira vez que aqui estive, convidado para participar no III Encontro Hispano-luso de Literatura. Foi um fim de semana de convívio e irmandade intenso e feliz. Com flamengo, o espantoso Nin̈o de Gines, fado, a algarvia Melissa Simplício, sevilhanas à beira do rio, visita à galeria do Grande, um homem sem nome, transeunte pelo mundo e que por aqui passa parte do ano, visita à adega Alcaria, onde Joaquim Peulach faz um extraordinário trabalho de recuperação de castas regionais e produz vinhos de autor que marcam, e de que maneira!, visita ao Museu da Autonomia e à casa de Blas Infante, o pai da autonomia andaluza e fuzilado por Franco, e uma visita guiada ao coração do pueblo.

Ah, também houve recitais poéticos, troca de livros, abraços e promessas para o futuro, e microfones abertos por toda a povoação.  Mas isso são coisas que acontecem em todos os encontros literários. Obrigado, Puebla del Rio. Obrigado, Joaquin e Carmen, obrigado Educiones Ábrego e coletivo poético Desde las Márgenes.

Nunca mais deixarei La Puebla del Rio. Cigarrero para siempre!

Samurais sobem o Guadalquivir

 Para se encontar com Filipe III, II de Portugal, subiu, sulcando as velhas águas do Guadalquivir, na direção de Sevilha, uma embaixada de samurais, embaixada Keichō, vinda do longínquo Japão, para o cumprimentar, honrar, estabelecer relações comerciais e esclarecer complicadas questões espirituais e religiosas. Mandou o imperador de Espanha, e de grande parte do mundo, que ali esperassem. E por aqui restaram até hoje. Esperem por mim à beira do rio. Celebraremos com saké andaluz nas margens da vida!



Parque das Devesas - VN Famalicão

Alguns sabem, poucos, que Vila Nova de Famalicão é a minha segunda terra do coração. A minha companheira é de cá,  os meus filhos, a segurança de duas mães assim o exigiu, nasceram aqui, no Hospital Distrital. Como se mudaram para o Algarve antes de um mês de idade, são tão algarvios quanto eu que lá nasci, não deixando de ser minhotos, é claro. E, isto toda a gente sabe, sendo nós doentes incuráveis de um clube que veste de vermelho, sofremos e exultamos com as derrotas e vitórias do Nosso Famalicão. O problema é quando se encontram vermelhos e azuis do nosso coração...

Mas, como eu ia dizendo Famalicão está na minha alma desde que lá desembarquei pelo inalcançável ano 83.

Todos os anos subíamos e descíamos de Tavira -Famalicão-Tavira várias vezes ao longo do ano. Conhecemos como ninguém como foi a implementação do Plano Rodoviário Nacional. Primeiro dois e depois quatro. Quando nos tornámos, para sempre, quatro, as viagens passaram a ser mais frequentes e as estadias mais longas. Depois, bem, depois os meninos tornaram-se adolescentes e, ainda depois, homens, e os mais velhos foram partindo, e as viagens foram-se espaçando, e as estadias tornando visitas de médico a doente  saudável.

Também foi aí que descobrimos a importância dos mortos no crescimento da paixão pelos lugares. E como a distância nos faz amá-los ainda mais.

Nesta visita de médico apressado não deixei, faço-o sempre, de ir dar uma volta, já lá dei centenas de voltas a caminhar ou a correr, ao Parque da Devesa. É, seguramente, o mais belo parque urbano do país e, neste princípio de Primavera, com chuva e frio, quase sem ninguém,  especialmente belo.



Mão Morta em Tavira

Grande concerto dos Mão Morta no Teatro Municipal de Tavira. Num registo diferente do que nos habituaram, um rock duro, pesado, seco, trouxeram-nos uma peça de rock sinfónico-poético, mesmo jazístico, de grande qualidade plástica e musical. A componente combativa contra a opressão e a desumanidade, essa, continua presente nas palavras e na performance.



quinta-feira, 7 de maio de 2026

Um guardador de poemas maternos

 Um dia por semana, à terça, quando não posso passa para a quarta, como hoje, ando a organizar os textos deixados pela minha mãe (só do seu facebook tirei 100 páginas). Mais as caixas atafulhadas de papéis para neles mergulhar mais tarde. A primeira tarefa é ver se são inéditos. Lá tenho ir com o dedo pelos índices dos seus três livros de poesia publicados, até já estar meio almariado e desistir. Vamos ver se consigo chegar ao objetivo final: publicar estes textos de poesia, ditados populares e até de filosofia. Claro que passo o dia de olhos embaciados, e, às vezes, bem aguados. Hoje deparei-me com este que nos fala da morte do meu pai e seu companheiro de sempre.

(Na manhã mais gelada de todas as manhãs)
Nostalgia
Juncaste de margaridas
O meu caminho
E eu enlacei de amor
As nossas vidas!....
Respirando o perfume
Da flor!
Quando no meu peito...
A paixão queimava como lume.
Era tudo real e perfeito!
Havia amor e carinho.
Cumplicidade...respeito!
Depois partiste!!
Naquela manhã de janeiro
Gelada, fria e triste....
Saudades....sim saudades
Dessa paixão, desse amor
Que queima como fogueira!
E na minha alma existe
Mesmo que o queira....
Ou não queira.

Um mar de vidro


Ora, chegando ali sem dificuldades
Não encontrei o meu irmão pássaro que por ali deveria estar.
E descemos pelo caminho das piteiras-da-índia
Para junto dos homens e eles disseram: o pássaro
Morreu, ide em Paz. Porque te contemplas
Como se a culpa fosse tua?
Ninguém é livre para decidir o que contempla, respondi.
Para estes homens, espreitando das açoteias de barro,
Certamente, o perfume da morte detém a morte!
Porventura nunca chegarão a louvar-se a si próprios,
Porque eu os entristeço e manifesto a fragrância
Do que não existe. Deveis consolá-lo e não esquecê-lo!
Os pássaros creem, fazei, pois, o que admiram
E amam mesmo se esta não for a lei da multidão.
Vós que estais contaminados pelo ódio entoai
Cânticos diante dos anciãos e dos animais, diante
Das suas chagas reluzentes e mortais, perante
O medo dos homens comprados como se de primícias
Se tratasse e que nas suas bocas não se encontre o engano.
Vi, então, a sua cabeça ferida de morte e pus-me sobre a areia
Da praia gritando sobre as suas cabeças chifrudas:
É blasfémia a vossa guerra. Sobre os pequenos e grandes rios,
Os pequenos e grandes servos e indigentes será aposto
Um sinal que anunciará a vinda de um mar
De vidro da cor do vinho.
Cativa, 22 de março de 2025
in, Substâncias, Vítor Gil Cardeira, Editora On y va, 2025

Opiniões do Poeta Nero ao livro Substâncias

 




Que em Portugal se lê pouco, já não é novidade para ninguém. Que entre quem escreve e publica (poesia ou não) se lê pouco — perdoem-me a franqueza ou, na pior das hipóteses, o gosto duvidoso ou demasiado selecto que tenho construído —, também me parece uma evidência. Que a resistência à leitura de poetas ou de outro tipo de autores que habitem outras esferas que não os principais meios urbanos do país é um facto (mais do que uma mera desconfiança minha) também me parece claro. Que grande parte da poesia contemporânea tem perdido profundidade (semântica, estética etc.) já me parece mais discutível, ainda que possa ser compreensível essa sensação, essa percepção ou essa tendência efectiva, na era em que mais gente parece saber ler e escrever, em que mais gente parece ter formação — nesta era em que a humanidade parece ter perdido a maiúscula, o bom senso e o valor dele. A necessidade da escuta, do diálogo, da aprendizagem, da esperança… soa-me hoje a causa perdida ou a mensagem panfletária e romântica dos anos 80/90, em que a minha infância teve lugar.

Talvez esteja só a envelhecer e o mundo tenha sido sempre liderado por energúmenos. Duvido — se bem que a dúvida é bem menor quando me ocorre a ideia de que os energúmenos de hoje elevam, sem quererem e tão facilmente, os outros, que lhes antecederam, a deuses. Estamos cada vez mais estúpidos, num tempo em que tudo ou nada se aceita. A ideia de qualidade literária, no meio de tanta diversidade e relativismo, parece uma noção ultrapassada. Já a desinformação, o racismo, o ódio, o desrespeito pelo direito à felicidade de cada um (se essa em nada afecta a felicidade dos demais) estarão na ordem do dia. Desenvolvimento, dizem. Desenvolvimento, preconizam. Desenvolvimento, ponto. Desenvolvimento… uma ova.
Dar aulas é perder a esperança todos os dias. E é semeá-la com igual frequência.
Este Substâncias do Vítor Cardeira, do Vítor Gil Cardeira, também ele professor (para sempre professor), tem da melhor poesia que li este ano. Nele, o verso ainda é verso. O poema ainda é poema. As leituras possíveis desdobram-se a cada investida. É, de facto — passe o trocadilho que o título tão bem sugere —, poesia de substância. Poesia substantiva. Poesia que, para quem gosta de ler, nos faz o dia, o fim-de-semana. Poemas há que, espremidos, não soltam um caroço. Não aqui. Não, definitivamente, aqui. Aqui há apuro, burilamento, alcance, ideias maturadas no “silêncio, na nudez da pedra”, “palavras interditas” só para aqueles que não ousam o voo. Poemas límpidos na aspereza, na rouquidão, na lucidez e na destreza de quem modela as palavras como quem respira.
O Vítor lê, a sua poesia reflete esse tempo entre leituras, entre conversas com outros poetas que perpetuam o poema infinito; essa maturidade que não se adquire de outro jeito. Não é “poesia de um autor regional”, é poesia portuguesa da melhor espécie, que cava com a mesma enxada a esperança e a cratera.
Ao que sei, o Vítor (professor, contista, poeta, pessoa…) faz anos hoje. Tem aqui um pequeno grande livro.

O inferno rente ao chão

 

As mulheres vestem-se de azul cobalto e rezam e abraçam os filhos enquanto os homens se enfiam em uniformes de caqui e cingem as armas ao corpo. Acenam aos que choram já mortos antes de morrer. O medo apodera-se de todos e os sonhos suspendem-se nas noites solitárias, nos invernos de lama e chumbo. Bandos de drones uivam nas cabeças sonâmbulas da ausência final, chovem das nuvens boquiabertas. Crateras profundas engolem soldados e os mísseis que as escavam. Só nas catacumbas há paz. O murmúrio que percorre os túneis da efémera salvação contrasta com o zumbido dos projécteis que sulcam os ares. O inferno está instalado à superfície e arde e crepita nos prédios esventrados. As mulheres vestem-se da escuridão dos dias que passam.Os corpos despedaçados repousam na paisagem em chamas. Apodrecem ao ar de enxofre. Nada resta nos que se erguem dos estilhaços do chão envenenado, nada persiste na linguagem dos corpos. Na linguagem pura da morte. Só as crianças, filhas do ódio que nos vem dos substratos mais fundos de nós mesmos, continuarão a construir o futuro. A Paz do reflexo dos seus olhos.
In, Espúria

Registo diarístico

 Deixei passar o inverno, o tempo das chuvas, do frio, das neblinas; das gabardinas -, e quase nada escrevi: a quinta e a preguiça ocupam-me os dias.

Tenho que aprender a escrever no verão.

Poema para Paulo Moreira

 Um poema para um amigo que morreu esta manhã. Um amigo terno, solidário, eterno e insubstituível.

Uma vida incompleta
Havia uma mesa incompleta
Na esplanada da tua rua,
Incompleta porque só tu a ocupavas.
Tu e a minha obscuridade risível,
Profunda, à procura dos sonhos de amanhã.
Dos sonhos que te projetam na cidade particular
Dos objetos malditos,
Na claridade do olhar
Lânguido da noite.
A rua conduz à porta incompleta
Da tua casa,
Incompleta porque não trava
Nem facilita a passagem
Para trás da máscara,
Incompleta porque só tu
Te impões o tabu de a atravessar
Mesmo correndo o risco de rasgar
As vestes que me cobrem a dor.
Convido-te a entrar no líquido sossegado.
Os vapores do desejo
Envolvem os amigos enlaçados.
Quando avanço ao encontro
Do passado inamovível,
Altera-se-me a serenidade
E lanço-me, com brusquidão inusitada,
No abismo hiante do sangue efervescente.
Um barco vindo do frio (incompleto)
Descarrega peixes (incompletos)
E garrafas envenenadas
Trazem-nos mensagens codificadas
Que não entendemos.
A violência (incompleta) implode
E baralha-nos os pés confusos.
Para quem vai, os comboios nunca mais chegam.
Para os que restam no cais, nunca partem.
A viagem substitui
A incompletude do caminho.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Nómadas versus Sedentários

 Não deixa de ser irónico que os melhores tapetes, símbolo maior, ainda que a cama, ainda que o hodierno sofá, do sedentarismo, do ficar por casa, sejam confecionados e usados, preferencialmente, pelos nómadas do deserto.

terça-feira, 10 de março de 2026

Um estudo recente como todos os estudos


Um estudo recente, no país do costume, contabilizou
Quatro mil duzentos e setenta e três poetas,
Pesquisa que nunca revelou os seus insondáveis
Métodos ou amostras, por esotérica
Sustentabilidade, avançou, ainda, com um número
De leitores de poesia que se aproximaria
Dos dois mil e treze. Destas duas mil e treze estranhas
criaturas, mil e trinta e duas nunca em tempo
algum escrevera um verso.
A dar o referido estudo como idóneo, perdão, sério!,
E exemplificativo da realidade nesse país, e nada me indica o contrário,
(era uma vez um país de poetas tal como O Burkina Fasso, o Canadá, a Tailândia ou o longínquo e feliz Butão, onde reinava um poeta-Mor entre súbditos fiéis heterónimos de Si mesmo)
4273
- 2013
= 2260
+ 1032
= porra para a matemática que já fiz e refiz as contas vezes sem conta, dizia, 3292 poetas não leem poesia.
Escrevem sem ler versos.
Meus caros poetas, leitores de poesia
Que não são poetas e poetas que não são leitores de poesia,
E poetas que não são leitores de nada,
E, ainda, gentes que nada lê, que esses são todos
Os seres que, como Diógenes, seguem
A luz que transportam, não vos admireis
Desta desajustada ocorrência: eu próprio, poeta aclamado e medalhado,
Por certos e incertos, só leio romances.
O romance comporta tudo! A escrita e a vida, a realidade e a fantasia.
E a morte. Nada exclui ou estigmatiza. A contrário da poesia
Que se arroja a representar a palavra eleita.
Sublime e divinal.
P.S. Por impossibilidade na abordagem estatística aos poetas que nunca escreveram um verso, estes não são referidos neste estudo. No entanto, sabendo nós, de verdade verdadinha, que cerca de 10% dos poetas está nesta condição, isto viria a acrescentar ao número de poetas uns 427. O que, digamos de passagem, ainda é um número significativo de poetas. Destes, é claro, nunca saberemos se lerão poesia ou não. Alguns, e talvez dos melhores, nem saberão ler.
PS1. É também uma verdade que os cães mijam aos postes dos candeeiros da rua e que estes não foram feitos para isso.

António Lobo Antunes e a monografia Assimetrias Numa Freguesia do Sotavento Algarvio

 É com este excerto que se inicia a minha monografia do seminário final do curso de Antropologia "Assimetrias numa Freguesia do Sotavento Algarvio". A freguesia era a que já não existe, o que era já adivinhado na dita monografia, e minha freguesia de nascimento, da Conceição de Tavira. Já agora, que ninguém pergunta, obteve a classificação de 18 valores. 19 seria para "o mais velho" Mesquitela Lima, 20 para o deus Lévi-Strauss, dizia-se. Por acaso o responsável pela minha ida para Antropologia, após a leitura desse monumento literário Tristes Trópicos.

"O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem: estendem conscienciosamente as toalhas na serradura da areia, protegem-se com óculos escuros do sol de papel, passeiam encantados no palco de Albufeira em que funcionários públicos, disfarçados de hippies de carnaval, lhes impingem, acocorados no chão, colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo, e acabam por ancorar ao fim da tarde em esplanadas postiças, onde servem bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas de televisão. Depois do Alentejo, evaporado na paisagem horizontal como manteiga numa fatia queimada, as chaminés que se diriam construídas de cola e paus de fósforo por asilados habilidosos, e as ondas que se diluem sem ruído na praia no crochet manso da espuma, faziam-no sempre sentir-se como os bonecos de açúcar nos bolos de noiva, habitante espantado de um mundo de trouxas de ovos e de croquetes espetados em palitos, a imitar casas e ruas [...]"
António Lobo Antunes, O Conhecimento do Inferno (1980), Publicações Dom Quixote

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...