quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

riscas há muitas seu palerma


Durante anos, a minha mãe foi a senhora do meu cabelo. Na minha primeira década de vida, usei risca ao lado esquerdo. Risca euclidiana: direita e vincada num cabelo a dar para o revolto.


Como tenho um irmão mais velho cinco anos, fui ocupando, com facilidade, o caminho que ele foi desbravando. Foi assim que comecei a usar cabelos compridos cedo e a mandar a "risca-da-minha-mãe" à fava, no início da minha segunda década. A tal de risca continuava à esquerda se bem que se tenha tornado sinuosa e imprecisa. Um dia, nos princípios dos anos 70, acompanhei o grupo de teatro da aldeia a uma actuação a Estoi. O meu irmão era uma das figuras principais do grupo  onde, mais tarde, eu próprio passearia a minha carcaça pelas tábuas (e os cimentos) dos palcos algarvios (um dia destes irei abordar com mais tempo a actividade teatral da aldeia que ainda hoje vai de vento em popa). Mas íamos chegando à pitoresca e linda povoação de Estoi, nas fraldas das serranias algarvias, nos barrocais do concelho de Faro. Enquanto montávamos o cenário na sala de espetáculos da Casa do Povo local, deparei-me com uma visão que iria mudar radicalmente a minha vida. Um rapazinho da minha idade, que ajudava no transporte dos adereços, ostentava um cabelo comprido, liso com... risca ao meio. Naquele mesmo dia, passei a usar risca ao meio sempre que tinha os cabelos compridos, o que era quase sempre. Para grande desgosto da minha mãe (esta decisão marcou finalmente o corte do cordão umbilical psicológico que nos unia) e espanto dos meus vizinhos, que eram todos, aldeãos (alguns jovens adultos ainda assobiavam, com quem assobia a raparigas, à minha passagem). Fui o primeiro homem a usar risca ao meio na aldeia. Assim foi até ao fresquíssimo ano de 2009. Cabelos revoltos e risca ao meio foram a minha imagem de marca até ao final do ano passado.


Nos últimos anos os cabelos começaram a rarear de uma forma estranha: só do lado esquerdo da calote cabeluda. A coisa não é ainda muito grave e disfarçava-se bem com uns cabelos mais cresciditos mas, descuidado como sou, lá apareciam com regularidade as tais peladas laterais para grande alegria dos meus filhotes e outros amigos da onça. Nunca tive problemas com mais ou menos cabelo, nem com vir a ser ou não careca mas, só para os chatear, descobri a maneira de ocultar tais clareiras: passei a usar risca à direita e assim estender o cabelo para o hemisfério esquerdo. Bom, até me sinto outro. Uma espécie de Brian Ferry da zona. E até os olhares das mulheres são outros... Só é pena que os cá de casa não tenham valorizado esta fracturante mudança e continuem a risota do costume. Agora um pouco mais convulsiva. São uns insensíveis, é o que são. De estética e beleza parece que não dão uma para a caixa.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

a vida e a vidinha





 


 


Esta foi a primeira música que aprendi a tocar na viola. Foi meu mestre o meu amigo "ratinho" Luís (saravá Braga). Era o celebérrimo ano de 1974 e estávamos em Portalegre a meio de uma visita de finalistas (o antigo 5º ano).


Não sei porquê, hoje ao encontrá-la num blogue, veio-me à cabeça a poesia de  Miguel Godinho e das suas divagações metafísicas por entre os tortuosos caminhos da vida e da vidinha.


 


Ao anoitecer, na mansidão da memória,

é mais fácil transpor a fronteira.

No revolver dos sonhos,

a claridade das ilusões, e a certeza:

tudo se torna evidente ao cair do dia,

quando nos perdemos no tempo

e temos dezoito, outra vez

e temos cinquenta, ou cem,

mas temos dezoito, outra vez.

De que importa a solidão de agora

quando a noite assim traz

de volta a loucura,

quando nos apercebemos que não há idades

para nos sentirmos vivos


 


Miguel Godinho

Para sempre

escarificas o restolho cansado


 


Escarificas o restolho cansado

que me cobre a pele

revolves a carne superficial

onde a dor se aloja confundindo

os impulsos impenetráveis

da morte



Os sulcos que rasgas

na superfície instável (ainda

vegetação primitiva) impedem

o regresso da conversa concupiscência



Escarificas o restolho

preparando o corpo para o ódio

discreto da amplexa plenitude

deriva obtusa do sexo

inquieto.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Power of God


 


Deus é infinitamente mais perfeito do que a Al-Qaeda. Cem mil mortos e dezenas de milhares de feridos em menos de um minuto. Ainda por cima num dos mais pobres dos pobres: o Haiti.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Farejando Notícia


Mexeu-se outra vez e as costas estalaram. A polícia já não é incompetente como dantes.

Lembrava-se de tudo como se presenciasse a cena: à direita um actor de cinema com os olhos em bico do leite de coco com aguardente de cana. O crepitar da fogueira enchia a sala de recordações tristes. Embevecida no fogo estava ela. Porque fora ele meter-se naquele covil de lobos sem unhas?


Bebeu mais um copo. A cabeça recusava-se a pensar nas responsabilidades do dia a dia. Bebeu outro, de um trago só. Maldita cocaína, ouviu a consciência com voz grave de pai dos anos trinta.


-         Por favor, eu tenho um sapato calçado nos pés dela, rugiu à multidão apinhada no bar-semi-escuro.

-         Não ouvem, pensou sorridente.

Lendo uma revista pornográfica, desta vez à esquerda, estava um cavalheiro distinto mas sem gravata. Ela sorria avermelhadamente com a calma de quem jogava. Roleta russa.


Sentia desejos de ir com aquela mulher para a cama. Sim. Ela até era bonita e olhava para ele com uma expressão de talvez...

Mas que confusão lhe atravessava o espírito/ficção banal. Ela era uma visão sem compromissos e até sorria.

Agora era o malvado joelho que teimava em não funcionar. Nem a perna conseguia cruzar. Que pontapé, essa gente devia era ser jogadora de futebol.


Na poltrona do meio dormitava um velho jornalista corroído por notícias de todo o mundo. Tinha sido, até, correspondente na Polinésia.


Que homem viajado, pensou.

Ela chegara-se mais ao fogo como se precisasse de mais calor. Era a sua, dele, hora. Pé ante pé, chegou-se à lareira e, com a tenaz, retirou uma brasa do braseiro. Acendeu o cigarro à americana. Soprou o fumo, primeiro pelas narinas e depois através dos dentes.


-         Magnífica casa, meteu-se, nesta ocasiões transbordo de amor.

Sentiu-se alarmado com as palavras que deixara escapar. O jornalista farejou notícia. O cavalheiro distinto sem gravata ousou mesmo esboçar uma retirada discreta, sem o conseguir. Pela porta dos fundos apareceu quem se esperava: o polícia secreto do governo sombra.


Sem conseguir reagir ao desencadear dos acontecimentos, e com dores acentuadas nas costelas, deixou-se prender por ele e... por ela.


 O actor de cinema, com os olhos em bico, saiu de cena pela porta baixa sorrindo ligeiramente.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Acordo ME Sindicatos de Professores


 


 «É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma.»


-  Frase saída da  boca do príncipe de Salina, no livro Il Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957), príncipe por nascimento e  romancista por excelência das guerras da unificação italiana.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

domingo, 3 de janeiro de 2010

primeiro ato


Primeiro ato neste início de ano diluviano.O caminho faz-se caminhando e em janeiro os pés far-se-ão desenhar nas lamas fecundas do restolho agonizante. A vida irrompe onde a morte alimentou  os campos de ausência e asperidade. Os dias de março virão e batizaremos a terra de luz e cor. Siga a ação que comando eu. A continuidade é uma mal dita palavra nas noites que introduzem a perenidade das coisas. Das coisas que precedem o silêncio.

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...