quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Mãos Ávidas de Amor

 


 


 


 


                           Hei-de  amar-vos


E não quero receber nada,


Quero-vos prostituídos e hei-de pagar-vos.


É sempre o vosso odor


A cegar-me os miolos vendidos


E se me quiserem violar


Concentrem-se nos mortos inocentes


Que vagueiam em vossos corpos


Burguesmente saturados de merda .


Tentem deter-me os passos,


Esperem-me onde costumam fuzilar os camponeses


Estarei lá, sem ódio que não merecem,


Mas o meu amor há-de manchar o chão de sangue


Onde se afogarão os carrascos


Semeados de grades em nós.


 


Lentamente regresso ao meu país,


Compreendo as montanhas que me acariciam,


Os olhos são sempre o futuro


Que nos escorrega nas mãos ávidas de amor.

Melodias Abruptas do Fado

 


 


 


 


                           Os dedos rebolam


Entre os cabelos vaginais


Totalmente possuídos por espíritos,


Rebolam ao encontro da saudade


Dos úteros de movimento perdido.


 


Não há mais nada na anarquia,


O poder chupa-nos


Praticamos a magia e sonhamos


Que somos homens bons.


 


Calai-vos desejos que nos culpam


Se nem o frio é oferecido,


Se os anos correm aos gritos dos povos


E maldizem a cobardia dos poemas.


 


Os dedos rebolam sem nexo


Acorrentados ao poder de além país,


À procura do sexo


Correndo à volta dos ventos


E sabendo que um trovão não esperará por eles.


 


Cedo o rebanho progrediu


Nas melodias abruptas do fado.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Guerra no Iraque

Para quem conhecia a história do Médio-Oriente , para quem se preocupava e preocupa com os meandros antropológicos complexos do puzzle étnico/religioso desta matriz civilizacional, era uma evidência clara (desculpem-me o pleonasmo) que a aventura militar dos Estados Unidos da América ia ser um flop . Um verdadeiro tiro no pé.


A invasão, previa-se, seria relativamente fácil. A supremacia tecnológica esmagadora do invasor aliada a um relevo e clima facilitador da deslocação de exércitos pesados e a escassa vegetação alta, que permite o varrimento rastreador de satélites e radares, seriam preciosos aliados no assalto a Bagdade. Bem ao contrário do que tinha acontecido com a guerra do Vietname . E já que falamos no Vietname , o grande trauma dos americanos que havia sido parcialmente resolvido com a reposição da legalidade operada pelos Estados Unidos no caso da 1ª Guerra do Golfo com a "libertação do Kuwait , é o próprio Bush que reconhece que a actual situação no Iraque é similar à vivida pelos marines neste país.


Como dizíamos, a invasão seria sempre pouco complicada. A ocupação, sim , seria o verdadeiro problema. Os suprasumos neocons do pentágono cometeram o primeiro grande erro depois chegada a Bagdade, após as suas delirantes elucubrações ideológicas sobre a teoria dominó para a democracia e futuros amanhãs que cantariam na região, que foi extinguir o exército iraquiano e desmantelar toda a estrutura do partido Baas . Exército e partido que aliás foram armados e treinados pelos americanos não muito antes dos acontecimentos que aqui referimos, aquando da guerra Iraque- Irão.


Teria sido mais prudente ter escolhido para líder um homem forte do exército e do Baas e feito eclipsar-se Saddam e os seus mais próximos carniceiros. Assim, com uma estrutura de poder e de força bem implantados no terreno e com cadeias de comando relativamente consistentes e operacionais , a anarquia que se instalou nos meses que se seguiram à invasão e que se foi instalando em crescendo até aos nossos dias, possivelmente, poderia ter sido evitada ou pelo menos minimizada. Sabemos até como psicologicamente o novo dono do palheiro tende a bajular quem lhe forneceu a chave do dito. E os iraquianos, se  não estavam de braços abertos à espera de um invasor/ libertador (estranho binómio), certamente que não desdenhariam livrar-se de um déspota que não era obviamente amado por muitos...


O segundo grande erro foi pensar que curdos, sunitas e xiitas dariam as mão e formariam o melhor dos governos, no melhor dos países, na melhor das democracias. Não conhecemos nós cadinhos etnico-religiosos na "civilizada" Europa onde problemas similares se verificam e onde só à força de mantém o "convívio" entre partes diversas. Lembremo-nos do Kosovo, da Bósnia- Hersegovina , da Irlanda do Norte, e outros.


Mas, para não nos alongarmos muito, o mal está feito e é preciso olhar para o futuro. Americanos e, menos, ingleses, e, ainda menos, alguns poucos aliados, estão atolados no Iraque e numa situação em que sair parece não ser solução e ficar nunca será solução. Então que fazer?


A minha solução, falível como todas as soluções, será a que começa a ser, timidamente, aflorada pelo grupo Baker : envolver os vizinhos. Só que a minha proposta é mais explícita e, de certa forma, mais radical: ameaçar os vizinhos com a saída! Como?! Nenhum vizinho gosta de ter problemas à porta. A não ser que... um ou mais inimigos estejam envolvidos e altamente penalizados com o problema. Mais, que mantenham o problema controlado dentro de certos limites e que vão enfraquecendo em lume brando (pouco brando aliás) e cometendo erros atrás de erros.


Vamos fazer conjecturas. Americanos e aliados, pressionados pelas imparáveis opiniões públicas e incómodos períodos eleitorais, tudo fazem para abandonar rapidamente o Iraque. Cenários: 1- Guerra civil aberta entre curdos, sunitas e xiitas e desmembramento do Iraque em três países.


Reflexões: Guerra já é o que se passa hoje. Guerra entre iraquianos ( ou parte) contra invasores. Guerra entre grupos iraquianos. A violência e o número de vítimas diárias não nos desmente.


Desmembramento do Iraque está em cima da mesa hoje como esteve ontem e sempre estará. Ou seja não é a presença de um exército ocupante que travará esta  tendência entrópica crónica.


Temos portanto que as forças ocupante pouco ajudam no resolver do imbróglio actual. Pouco mais fazem do que proteger-se a si e aos governantes iraquianos actuais. Ou seja, esgotam-se em si mesmo.


Conclusão 1 : Se as forças de ocupação saíssem com um calendário pré- fixado e lestos, poderiam fazê-lo com relativa segurança e na certeza de que não  acrescentariam grandes dramas ao enorme drama que se vive hoje no Iraque. É claro que a situação poderá sempre borregar mas alguém nos garante que não é isso que já se está verificar?!


Conclusão 2 : Quem ficaria preocupado com a saída dos ocupante? Passo a enumerar:  Irão, Síria, Jordânia e Turquia. Violência descontrolada e, sobretudo, desmembramento seriam o pior que qualquer destes países poderia desejar. Um país curdo então traria mesmo o consenso pleno entre eles. O que fariam? Simples. Empenhar-se-iam em resolver a crise. Melhor do que os Estados Unidos seguramente.


 


 


 


 

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Sobre a morte

Morreu o meu primo Arménio. Era um homem alto, bonito, inteligente, simpático. Era tudo o que toda a gente gostaria de ter sido. Ainda por cima com uma vida desafogada (por herança) e  um bom emprego. Já desconfiava que a terrível doença, que tinha afectado o pai nos últimos anos da vida e que passava, hereditariamente, para os filhos varões, tinha grandes probabilidades de o afectar. E assim aconteceu, ainda mais terrível do que ao seu pai. Chegou mais cedo e com sintomas mais devastadores: aos 40 anos começou a sentir desequilíbrios, pouco depois deixou de conduzir, depois deixou de poder  exercer a profissão que era  sua, deixou de andar e passou a estar sentado, depois a estar deitado, pois os tremores e convulsões não lhe permitiam segurar a cabeça, a fala tornou-se imperceptível, etc, etc,(para vos poupar e para me poupar).


Faleceu depois de 20 anos de doença, de um sofrimento atroz para si, para familiares e amigos, um destroço humano que a quem o visitava deixava sem palavras durante horas a seguir a estas dolorosas visitas.


Infelizmente, para ele, para todos os que o rodeavam, lúcido até ao fim, até aos 60 anos.


E ainda dizem que Deus existe...

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Sem ti Apetece-me Viajar

 


 

A flor trepou pelo meu braço


Senti arrepios convergindo no cotovelo


O jardineiro tropeçou no meu


Coração.


Jurei-lhe que a flor eras tu


Mas fui expulso do jardim


Como se a flor fosse maçã.


 


Agora – sem arrepios no cotovelo – não


Consigo chorar


Vou de mansinho bater às portas da loucura.


Sem ti


                                                                                                    apetece-me viajar.

Através de Mistérios

 


 

A rapariga correu


Através de mistérios,


Rosas e homens


Agitou os seios


Em procura de amor e


Nada.


O rio nunca quis


Que as suas lágrimas


Se perdessem no mar


Enquanto pássaros


Cantassem o seu cabelo.


 


Mas que música estranha


A rapariga deixou de correr


Fim...

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Gritos por Sentir

 


 


 


 


                   Entrou devagarinho


Como se esperasse uma nuvem e


Espreitou pelas ideias de alguém


O cansaço começou a cair na noite


Gritos por sentir


Atiraram-se às paredes que passavam


Um beijo percorreu as veias


Às avessas de


Sonhos complicados de dor


Então entrou devagarinho


Como se esperasse a chuva


Ninguém


Por entre sorrisos esfaqueados


Confessou nada saber

Untitled

 


 


 


 


 


                             Mas que suave perfume


Saía dos teus maus instintos.


Levas os sapatos sentados


São vermelhos


Mas sonham ser dançarinos


Na velha sala de bilhar.


 


Mostras as coxas aos elefantes


Pardos dum cabaret


Esperas recompensas de amor


Sem conhecer o whiskey .


 


Mas que morno perfume


Lanças do sexo em delírio


Quando cantas blues


E embalas sonhos rejeitados


Que te destroem a paz.


 

Oficina de Ministros

                Levantei-me revoltado


Cabelo sobre os pés.


Onde pusera os dentes para mastigar doces?


Deixara-os no avião.


Com certeza era Sábado,


Os macacos já trabalhavam


Na oficina de ministros


Hoje um ministro da cultura.


 


Olhei o relógio apagado, eram...


Um conto de reis.


Santo Deus!,


A droga é enjoativa para alguns.


 


Puxei a persiana estupidamente calada,


Os automóveis entrara-me nos pulmões


Expirei ar puro enlatado... de Paris.


 


A vida é bela. Pensei.


Tudo nos empurra para a felicidade


E os tempos já não são os mesmos


Até os macacos fabricam ministros.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Escalpes de Prostitutas

 


 


Ainda Há luzes


Mas já não vejo as bombas de neutrões


Ainda há homens


Mas já não vejo os corações


 


Escalpes de prostitutas


Vagueiam na noite esquecida


Como se nada se aprendesse


Nos lampiões por linchar.


 


Ao longe os rebentos ensanguentados


Dançam com a matéria desejosa


De amar os soldados desconhecidos.


 


Partem as árvores sem ramos


Para encontrar o espírito do Sol


Acenam aos esquecidos da guerra


Que não sonham há muito


 E merecem acordar esventrados.


 


Para sempre te julgo como os outros


Uma parte do podre por morrer.

Untitled

Os peixinhos saíram na maré alta


Barbatanas dadas.


 


Quando a maré baixou,


Vieram para casa almoçar.

Como se Esperasse a Chuva

Entrou devagarinho


Como se esperasse uma nuvem


Espreitou pelas ideias de alguém


O cansaço começou a cair na noite


Gritos por sentir


Atiraram-se às paredes que passam


Um beijo percorreu as veias


Às avessas de


Sonhos complicados de dor


Então entrou devagarinho


Como se esperasse a chuva


Ninguém


Por entre sorrisos esfaqueados


Confessou nada saber

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

As Meninas Coraram

As meninas coraram


Sentiram o pôr-do-Sol dizer olá.


Passou o coronel e a serpente,


Alguns anjos de mão dada,


Um rapaz bem penteado.


 


À noite alguns poemas, já lidos


Pousaram nos teus joelhos


E a praia encheu-se de cabrinhas,


Os ovnis gostaram de Ti.


 


As meninas coraram silenciosamente (sem cio).


Ninguém disse olá.


 


Na cidade, vinda de longe,


Alguém chorou histericamente.


Passou o coronel e a serpente.


 


As lágrimas caíram por uma escada


Sem nunca chegarem aos poemas


Já lidos.

Plagio a Tua carta

Plagio a tua carta,


A relva proibida aos pássaros.


A liberdade encerra-me


Nos campos da verdade.


Gostaria de escrever palavras de amor


Mas elas não me parecem bonitas.


Sentes?!


Engano-me?!


 


Que mundo, que medo!


Os amigos valem tão pouco


Quando o fio penetra


A alma, os lábios.


 


Lê o poema como folha arrancada


Do meu diário,


Do meu sorriso embriagado


De esperança.

Contra a Solidão

Masturbou-se na estrada


Contra a solidão.


Um eucalipto beijou-lhe a mão...o pénis.


Não destruas as tuas obras


De que vale um vale sem rio


 E porque choras?!


Por não seres um labirinto?!


 


Levantou-se por detrás do Sol


Contra a solidão


Um vaga-lume sorriu.


Mais longe, suplicaram


As sementeiras maduras.


 


Nunca!


Ele é um objecto


Só sonhará


Se encontrar


A morte


Na estrada.


 


 

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...