segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Nota de pesar da Casa Álvaro de Campos na morte da sua sócia honorária Teresa Rita Lopes

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TERESA RITA LOPES



Há pessoas que atravessam a nossa vida como torrentes de luz e nos arrastam pelos caminhos da sabedoria e do amor, que, afinal, são os mesmos, só que por voltas e veredas diversas. A Professora, Mestre, Teresa Rita Lopes foi, e será sempre, uma dessas pessoas luminosas e boas que alumiam os terreiros por onde passamos.

Teresa Rita Lopes, algarvia de Faro, acompanhou a vida da Casa Álvaro de Campos durante quase 40 anos, participando e organizando sessões de poesia e conferências sobre Álvaro de Campos e, o seu criador, Fernando Pessoa, desde 2010 até ter adoecido gravemente em 2022. No aniversário do heterónimo nascido em Tavira, no dia 15 de outubro, fazia sempre questão de estar presente. A poetisa e professora era madrinha da Casa Álvaro de Campos e sua sócia honorária, e, quando a doença a encerrou em si mesma, no ano de 2022, preparava, com a sua equipa de investigadores pessoanos e com a direção da CAC, um congresso internacional sobre Álvaro de Campos.

No início dos anos 60 matriculou-se na Faculdade de Letras e logo se envolveu nas atividades culturais da academia e da cidade, o que atraiu sobre si o interesse da PIDE. Em 1963, antes de ser presa pela famigerada polícia política, meteu-se no Sud Express e exilou-se em Paris. Na cidade das luzes, doutorou-se na Universidade Sorbonne Nouvelle com a tese “Fernando Pessoa e o drama simbolista — legado e criação”, e tornou-se professora na referida e prestigiada instituição. Em Paris, continuou a sua atividade criativa e literária intensa e apaixonada, tendo convivido, e conspirado contra o regime do Estado Novo, de forma cúmplice e solidária com a comunidade artística portuguesa exilada.

A sua tese de doutoramento irá ser o fio condutor da sua vida académica e de investigadora futura, fazendo de Teresa Rita Lopes uma das mais extraordinárias, inquietas e profícuas estudiosas de Fernando Pessoa. Segundo a Professora, antes dos seus estudos, ninguém conhecia Fernando Pessoa em Paris. Começou a vir a Portugal depois da queda de Salazar da cadeira e mergulhou a fundo, em apneia sôfrega, no baú deixado pelo poeta da Mensagem, único livro publicado em vida, trazendo-os, organizando-os e divulgando-os, à superfície, aos leitores, a maravilhosa, e sempre em reconstrução, obra do então esotérico e pouco conhecido poeta dos heterónimos. Consta até que, movendo conhecimentos privilegiados com o, à época, ministro da Educação José Hermano Saraiva, irmão do seu companheiro de então, António José Saraiva, conseguiu manter o espólio do poeta, prestes a ser adquirido para Inglaterra, em Portugal. Regressou a Portugal em 1976, tornando-se professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, onde chegou a professora catedrática e desenvolveu, com uma apaixonada equipa, os seus estudos pessoanos.

Para além desta intensa e apaixonada entrega aos estudos pessoanos, à Professora sobrou-lhe, ainda, talento e arte para escrever uma importante e diversificada obra de poesia, teatro e ensaios.

Ao longo da carreira, foi distinguida com diversos prémios, entre os quais se destacam, na poesia, o Prémio Cidade de Lisboa (1988) e o Prémio Eça de Queirós (1997), e no ensaio, o Grande Prémio de Ensaio Unicer/Letras & Letras (1989), o Prémio Pen Club (1990) e o Prémio de Teatro da APE (2001). Era membro da Academia de Ciências. Em 2019, recebeu a Medalha de Mérito – Grau Ouro – atribuída pela Câmara Municipal de Faro, e, em 2024, foi distinguida com a Medalha Municipal de Mérito pelo Município de Tavira.

Nascida em Faro e com família em Vila Nova de Cacela e Alcoutim, encontramos na sua obra estas sulinas paisagens da infância; as cores, os cheiros, os sabores, as brisas do seu Sul. A sua infância, a mãe e as tias, os velhos camponeses são o seu chão sagrado para uma criança que nasceu depois da morte do pai.

É pois, com profundo pesar, que nos temos de confrontar com a sua ausência física, mas com o eterno consolo de que a teremos para sempre nas nossas vidas, e que o seu legado será lembrado na história da literatura portuguesa.

Os seus olhos da cor do mar, a sua sôfrega procura de saber, a sua conversa solta sem fim e a sua gargalhada livre e feliz nunca se apagarão das nossas memórias.



Teresa Rita Lopes, pelo seu amigo Mário Botas

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