terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

As respostas são sempre as mesmas...


 


 


 


 


 


 


 


A resposta, meu amigo, está soprando no vento!


( ladrão que rouba a ladrão tem ....! Não é João?)

O Xadrez e a Vida

A vida é uma longa partida de xadrez. Só que , na vida, se pode, por vezes,  jogar sem mexer em peça alguma...

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Poemas de Amigo III

 




 


 


 




 


A propósito, conheces a destreza dos sinais


do vento, a dissecação de rumores subindo


pelo corpo ao murmúrio dos cabelos. São


desenhos que alimentam o olhar fugidio pela


água parada, a procura de pequenos animais


ancorados numa distância irremediável. Em vão


segregas outros rumos inclinados, pormenores


de infância vaticinam a indolência das palavras


onde escarras os dias. Surge uma casa


ou outra casa onde te convidam ao aconchego


de trocares os atalhos da pele. Saberás,


mesmo no escuro, ler um corpo palmo a palmo,


onde descobres um coração pernoitando só,


ao leres devagar a humidade muita pela


casa acesa.


 


Acordas aí da modorra de pequenos cristais de


solidão, sabes que é inverno e caminharás


para dentro e para fora da indizível língua


de fogo para repousares no vértice da água.


 



 


 


 



 


                        O cavalo acende-se por si


                   quando uma nêspera que cai apresenta 


                   um pássaro comedoiro.


 


                   Quando o animal hipantropo não perfuma


                   os recantos inacessíveis       eis um vento azul


                   que pernoita os sulcos quase verdes


                   da fome e da sombra.


 


                   Mesmo quando se não acende


o animal existe!


Risca a ressaca dos muros com mãos de relâmpago


                   e troveja ainda no crepúsculo dos galos...


 


                   Às vezes sobra a noite quando


                   uma rusga de silêncios


                   cai apagada


                   sobre a fuligem do cavalo.


 


                   O cavalo acende-se por si


                   perante o não sol.


 


                   Mesmo quando a bruma deambula


         de rosto em rosto!...




 


 





 




 


                            Digo o fim da rota


                            remota               


                            enquanto se não reinicia.


                                       


                            Respiro veloz a voz que percorre


                            o rosto da vela inacabada.


 


                            Rente ao fulgurante vento         


                            a esconsa rua


                            o corpo sentado à beira-mar.


 


                            Não vejo os barcos. São mil.


                            Enquanto nómadas no deserto do mar


                            sei


                            da lua não


                            mas os caminhos...


 


                            A parede do gesto repete-se.


                            Digo o fim repetido.



 




 


 


 


 



 




 


                                      ELEGIA DAS BOAS MANEIRAS


 


 


 


 


                   Obrigado obrigadíssimo obrigadinho obrigadão


                   é assim esta canção


 


                   Obrigadão obrigado obrigadíssimo obrigadinho


                   é assim tanto carinho


 


                   Obrigadinho obrigadão obrigado obrigadíssimo


                   é assim o vil ofício


 


                   Obrigadíssimo obrigadinho obrigadão e obrigado


                   já me sinto deslocado



 


 


 


                            Sei que sou por vezes inconsequente


                            porque não entendo


                            a beleza


                            da violência física...


 


 


 


 


                            tenho um grilo em casa                       


                            um charro no bolso


                            alguém no coração


                            um polícia em cada desgraça...


 


                            sou da mulher


o cigano de feira em feira


                            da mulher...


 


                                   será a ideia de deus mais útil


                            do que outra ideia qualquer?...


 


                            quase tudo faremos por uma sanduíche


                            d eternidade...



        


 


                                        MONÓLOGO


 


 


 


                     Criação:


 


                     vivem pelas arqueologias do silêncio


                     reunidos durante as cálidas insinuações


  do fogo sob a pedra


 


  Orgasmo:


 


  palavras marmóreas aéreas descem


  à fixidez do vermelho


 


  Solidão:


 


  a solidão transporta o rosto


  para a penumbra dos esgotos


  única musiqueta de todas as maneiras


  intransponível


 


faca


 


  aparecem na babugem os peixes mortos


  até isso te vai parar


  às tuas mãos sózinhas


 


  Morte:


 


  sibilina modorra desprende a língua do fruto


  na mutação das chuvas o rio engorda


  um objecto cortante arde-te frio nos dedos


 


  sei a pulsação do sangue


  digo logo para mim


  essa nuvem


  rebente profusa em teu pobre peito






( de Rui Dias Simão )


 



 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Poemas de Amigo II

 


 



 

 


 


 


Do pó das escadas


dos novelos das estalagtites


das aranhas


ressurgem as memórias da ternura


das tuas mãos prestáveis


à procura de uma pequena luz deixada ca-


ir no chão: um beijo


na sincera era do galope.


 


Estarás em casa?


 


A seta indica o regresso da tribo intacta:


tua boca na minha rua pelo universo fora.


 


Ver-te-ei daqui


quando te sonho fora do sonho?


 


O arco-íris do vento


das searas no polegar dos pastores


tem constelações de Miró na cabeça. Ora


essa:


 


na paisagem constipada


quando perco alguns sossegos


começo a sair à noite


repenteado de morcegos.








 


 


 


 



 

 


 


 


 


 


 


 


 


 


A progressão aquática da vírgula descalça o


náufrago – olhos de dezembro


na miopia das areias rastejantes, é assim


o recomeço de todas as linguagens.


 


A árvore o barco a quilha da vicissitude


aquática


o mimetismo da espuma no núcleo


da sombra


quem espreita pela fechadura de deus?


eis um resultado nómada.


 


40 braços do que pensas enquanto


o sonho levanta uma heresia?


 


A progressão aquática da vírgula


descalça o náufrago.




 


 


 



 

 


 


 


 


 


 


Julho é sempre um mês de adormecer


sobre a água. Ou de morar dentro das


árvores e demorar. Tanto faz. O corpo


não hiberna nas ideias nem nunca é julho.


Sou filho do espanto e não sei pensar.


Minhas palavras não sabem dizer


bom-dia. Nenhum sexo rima nenhum


pudor sonha. Sequer o meu barco é de


papel. A minha poesia é apenas pura dentro


do sono mimético da curva: o olhar parado


na sua estreiteza – a sede a miragem


o deserto.


 


Julho é quase sempre um mês de adormecer


sobre a água. Mas a saudade não deixa


ninguém dormir. Devo dizer: julho,


esse lento animal, é este tempo de sonhar


sobre o começo da pele na nudez incerta…


 


Da água nascem os bichos, único gesto


que se desprende do mar;


a mesma ilha sobre o dia.


 


 


 



 

 


 


 


 


 


 


 


 


Todo o homem merece um automóvel


(um automóvel melhor)


um cão para vigiar a virgindade das plantas


uma língua tatuada de camões


e um saco de plástico


para as indisposições…


 


Todo o homem merece… um sexo de dúvidas


Acompanhado de drogas legais


Um papagaio


Uma criada nua…


 


Todo o homem merece… uma ilha


Peneirada por borboletas nocturnas


Uma nota de música


A dizer-lhe que está sozinho


No centro da tela


Dos animais da sua cabeça…


 


Todo o homem merece


O seu nome de papel d embrulho…






 


 


 


 


 


                            AS PERNAS INTELIGENTES


 


                                                        para Rui machado


                                                        ou a felicidade por um fio


 


                           “O protagonista não concorda com o espelho”


                                                                           Almada Negreiros


 


                   nunca é triste dizer que sem a mulher


                   as palavras não seriam


                   a erógena maré sempre revisitada.


 


                   as pernas inteligentes dominam a paisagem


                   se um pássaro respira na curva dos joelhos


                   que nome dar ao princípio da alegria.


 


                   dize se uma lágrima


                   não pousa no recanto dum lábio


                   entre uma ternura uma cerveja.


 


                   as pernas intocáveis já não são


                   o centro do século


                   as ninfas pereceram sob os pés


                   brilhantes n areia.


 


                   compreender não é vulgarizar pres-


                   sentimentos


                   mas


                   os fios da libido que tecem a madrugada


                   conduzir-me-ão ainda a uma pele


                   sem riscos de moedas.


 


                           “A mulher com quem o protagonista vai


                             já não é a mesma que vai com ele”


                                                                Almada Negreiros


 


                   o lugar dela à janela


                   os dentes quase gastos das pastilhas


                   os cães.






(de Rui Dias Simão)


 


 


 

Poemas de Amigo

 


 




 

 


 


           PAISAGEM AZUL DA SALIVA


 


 


 


Tens a boca prenha do tácito discurso dos relâmpagos


deitas por fora uma nódoa plural no mel da manhã…


que sono procuras? que equinócio absorve o fulcral


lume das papoilas e dos dentes? que sangue


respira o suave piano do níveo dia?


 


 


Quem derruba a polissemia dum olhar diagonal?


a paisagem azul da saliva, a cal e o rastro


enquanto o rosto acende a luz…


(múltiplos insectos ao redor das lâmpadas acesas)




 



               HIPANTROPIAS

 


 


     (percursos e ironias


de um herói ói)


 


 


 


1.    Os cavalos deambulam pela tua ternura a terra do olhar galopa


sob a pata dos cavalos –


 


no piafé do vento.


 


Trago outro nome para inverter a crina


dentro das muralhas sensuais –


 


sobre a reacção informe.


 


2. Quem penetra o sentimento enquanto


os cavalos suspensos se proclamam no limiar


do sol no focinho da água?


 


Os obstáculos foram criados para se


saber da noite no corpo da mulher


qualquer palavra pode criar um novo


clítoris outra lua à beira da carícia.


 


3. Digo a alegria da casa enquanto selva.


 


4. Resta apenas erguer um pequeno braço de mar


e levar-te: aproximar os regimes de dentro


à fulguração das horas incandescentes.




 


 


 



 

 


                                            I


 


 


                    a.  Com o barco ancorado


entre sí-la-bas


Poeta de malas aviadas


aonde vais?


 


Lapidar os ossos no cais!


 


 


 


 


 


 


 


                    x.  O barco.


O barco como um cavalo ou um barco


sob a fragrância da surdez do sol.


Apenas o barco. Como um cavalo


ou um barco.


 


 


                    z.  Sou o óbvio cavalo óbvio


que galopa a composição aérea do levante.



 


 





 

 


          OS POEMAS SEGUINTES


 


 


 


Debaixo da romãzeira estava uma casca de banana


eu vi


uma casca  de banana sob a romãzeira


eis o princípio dos vasos comunicantes.


 


Do interior do olhar a tecelagem


do branco da lua no nenúfar da pedra.


 


Um punhal desprende-se do céu


e pode desmanchar o arco-íris.


 


O inquebrantável centro de tudo.


 


O barco sentado na planície.



 




 

 


  EM RESPOSTA A O’NEILL


 


 


 


 


Pelo sossego delido dos montes,


aquém do evolucionismo das tetas


de Darwin e dos montes,


já se não vislumbra Miss De Ramirez.


Seus netos, esses, andam de prancha


de surf na mão, o dia medido


entre hamburgueres e coca-colas…


 


Pelo sossego delido dos montes


até o poeta, em qualquer dia


de grosso vento,


até o poeta perderia uma perna…


 


O resto da realidade é uma coisa


que me parece postiça.


(O pobre do Guedes anda coxo


que nem um coxo)!




 


(de Rui Dias Simão) 


 


 


 


 


 


 



 


 


 


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Hara Kiri

Na semana em que o "Público" se revolucionou e apareceu forte e colorido, o Sr. Oliveira promove o hara-kiri da sua jóia da coroa, o DN. Não terá ainda percebido que um bom produto leva tempo a fazer,  ainda por cima, nestes tempos difíceis para o suporte papel?


Ou  será que prefere um produto tabloidizado , insonso e manso? A mim parece-me que sim!

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Manhã de Nevoeiro

As saudades que eu já tinha de uma calma manhã de nevoeiro...

Acorda

Acorda


Acorda aquela mulher.


Tens uma moeda?


É noite


A madrugada pressente-a


Acorda


Vem à cidade


E grita com os cabelos revoltos.


Acorda


Não deixes a noite morrer


Sem me contares a tua história,


A tua interpretação do sonho.



Acorda


Acorda aquela mulher.


Tens uma moeda?


É pedra


Montanha de medo e sombra.


O filho do homem


Esperou sem sono.


Tens uma moeda?


Não, aquela mulher não se vende.

Larva Semiótica

 


 


 


 Escreves como um profeta ateu


Sem direcção absoluta.


Linhas tortas que entoam


Sinaléticas mortais.


 


Escreves contra a coragem dos alinhados


Contra os que dizem sim


Não sabendo o que é ser livre.


Contra tudo, sem paz


E atabalhoadamente simples.


 


Escreves como serpente na terra leve.


Não há truques


Sorves a animalidade dos restos


Hipnóticos dos muros envolventes.


 


Escreves palavras, sons malditos


Que verberam as mentes sábias


Palavras uivantes na chuva irradiante


Uma escola sem aprendizagem


Na lenta escuridão dos séculos


Larva semiótica na pele quebradiça,


Nas dunas prenhes


Do sedimento vital e cru.


 


Escreves ao sabor das correntes sem dor


Dos cômoros de pólvora lavrada


Num fim de tarde na esplanada fria.


 


Escreves no sonho, antes do pesadelo


Na cruenta noite do sexo


Encantando sílabas pessoais e impróprias


Revelando saltos no texto infinito.


 

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...