
(texto de Adão Contreiras)
46º parágrafo
... Perdi a existência por não ter escrito.
Estou vendo duas palmeiras, colunas de pedra rústica, um vale espraiando-se em espaço aberto até um mar ao fundo.
Imperador Romano, diria; - abraço esta Terra Minha com a espada reluzente, coloco nela as minhas colunas, a minha esquadra o meu jardim!
Faraó, na sua glória de Sol acrescentaria esta dádiva mais à sua pose Divina.
Sobrevivente das Cavernas pisaria a Terra com as Colunas ainda em sonho e diria: - o que é isto que me rodeia tão perto e tão longe?
Dito e escrito isto, sinto porventura que continuo existindo perante a exuberância das coisas o silencio do espaço e o vento cingido às copas das árvores, penso.
08.09.11
45º parágrafo
...o copo côncavo agudiza ecoando na palavra no som de copo, o som soando soa o corpo, o corpo copo soando soa o côncavo copo, penso.
23.06.11
44º parágrafo
... quando entrei naquela casa todo o espaço estava cheio e leve, havia qualquer coisa de subtil na atmosfera que subtraía o peso aos abjectos, penso.
13.06.11
43º parágrafo
... o espaço é o lado visível do tempo, penso.
03.06.11
42º parágrafo
... é aqui na magia do encontro do ser colado ao dia, com o olho nu da ternura, que abrigo este querer de querer a palavra e o corpo inteiro. Sólida razão. Caminho sem reservas do dia completo, de musas abrigadas nas cascas dos caracóis; é aqui que estou, onde a terra acaba e o corpo começa e as árvores crescem em sílabas palavras em local com corpo e marés, constelação de pedras, em redor do silêncio, é aqui que estou.
24.05.11
41º parágrafo
... busco na memória antiga o que no silêncio das veias outrora fecundava a terra, penso
02.05.11
40º parágrafo
... tirar à cal da parede as palavras sem resíduos é saber que o dia é vegetal, penso.
05.04.11
38º parágrafo
...perscrutando o futuro com palavras ainda sem corpo, não mais do que buracos no tempo obtemos, penso.
20.03.11
37º parágrafo
... de todo o pensamento e cultura grega clássica o mais importante do seu legado é o ter desvinculado o pensamento da crença e ter colocado lá a permanente interrogação, penso.
04.03.11
36º parágrafo
... não estamos no "fim da História", estamos sim no fim do não à História, penso.
23.o2.11
35º parágrafo
... se não fosse a realidade que se transforma para que serviam as palavras e os muitos sentimentos?
18.02.11
34º parágrafo
...estou pensando, mas o que acrescento são buracos ao universo, penso.
11.02.11
33º parágrafo
... haveria peixe se não houvesse mar, e poderia eu existir se não houvesse universo?
03.02.11
32º parágrafo
... para forjar pensamentos tenho que alimentar o cérebro com carvão em brasa, penso.
13.01.11
31º parágrafo
... será porque o sol não se vê a ele que cada um de nós irrompeu da escuridão, para o ver, penso.
01.01.11
30º parágrafo
... só depois de morrer vou acreditar que morri, até lá sou eterno, penso.
10.12.10
29º parágrafo
... uma sociedade que necessita de tanta "vigilância" é como um corpo doente a sobreviver à custa de antibióticos, penso.
27.11.10
28ª parágrafo
... O fim de semana passado estive acampado, que tal! até rima; passei aí perto de ti se é que estavas aí, e esta que continua rimando! fui parar a Aljezur estrear a tenda ligeira que se abre numa brincadeira o pior foi que do céu caiu água como da torneira e a tenda quase ia indo parar à ribeira e tive que dormir no carro mas tudo passou sem percalço de monta e estou de volta para te dar esta notícia quase tonta!
04.11.10
27º parágrafo
... Hoje é terça e há um rastilho de domingo ainda por incendiar um sol que nutre o silêncio uma voz que abre o corpo um destino nas palavras por dizer; hoje é terça e ainda é o sábado na madrugada de domingo quanto o crepitar terno e são de; quando o sol olha as flores para dentro de elas e me interroga; hoje é terça quando ainda quarta se aproxima emboscada numa luz em gritos e terna combustão de mim.
12.10.10
26º parágrafo
... quando o amor se abre entre as pernas as palavras ficam vermelhas, penso.
23.09.10
25º parágrafo
...vivo,com o corpo entre parêntesis, ao lado do infinito, penso.
03.09.10
24º parágrafo
... ontem, disse palavras com os olhos, e elas ficaram no espelho, coloridas.
23.08.10
23º parágrafo
... intempéries absurdas no horizonte desfilam diante das rosas do jardim, penso.
15.07.10
22º parágrafo
... escrever é um exercício infindável de musculatura e sorrisos brancos.
22.06.10
21º parágrafo
... devemos ao sistema financeiro a chuva, rigorosamente, pensava eu quando não chovia.
03.06.10
20º parágrafo
... quando sonho não serão os meus braços que estão pensando?
24.05.10
19º parágrafo
... hoje encontrei o silêncio debaixo do travesseiro, onde havia ruídos de ontem.
13.05.10
18º parágrafo
... estava eu no café, procurando entender o mundo, saboreando as dádivas da natureza com a alegria do sol que ora se esconde ora aparece, pensava:
-a Luísa está sem casa, será que a chuva esburacou tanto as telhas que , coitada, deambula agora em algures? isto pensava eu quando escrevi;
" diálogo com uma palavra":
-òh palavra, que dizes tu?
a palavra:
- eu não digo, tu é que dizes!
- se não dizes tu, o que digo eu, palavra?
a palavra:
- tu não dizes nada, porque eu é que sou a palavra!
A olhar para o tampo da mesa fiquei pensando:
vou escrever um livro de poemas, talvez um só poema e dei-lhe um título, " abstracção do poema abstracto",
seria assim :
as vírgulas de pernas para o ar entram no poema como a chuva no terreno, etc etc.
e:
cada vez que um amor se encontra pendurado nas pernas duma abelha, vem o sol em grande algazarra burilar os buracos do vento,
etc etc.
ou:
agora que o espaço se abriu de encontro aos joelhos da montanha que fazer com a alegria que as palavras têm no ventre, etc etc.
quando pensava que tinha encontrado um rumo para o poema, apercebi-me que de há tempos para cá, desde que comi brutamente um pedaço de chocolate preto, uma ligeira agonia subjaz pesando no pensar como se tivesse engolido sal a mais.
enfim, tomei tudo isto por vontade de escrever apenas, arrumei as coisas e vi-me embora.
um grande abraço e até breve.
18.04.10
17º parágrafo
... que cão me mordeu, foi aquele sapato de marca!
09.04.10
16º parágrafo
... em crepúsculos de intimo olhar moram as palavras a nascer
30.03.10
15º parágrafo
... são como fósforos acendendo-se na mente as palavras que nascem involuntárias.
03.03.10
14º parágrafo
... quando penso estou eu dentro do pensamento ou está o pensamento dentro de mim?
10.03.23
13º parágrafo:
... se mexo um braço na viva voz do tempo, construo um saber antigo que a mim me foi dado.
10.02.10
12º parágrafo:
... eu penso o universo, mas pensará o universo em mim?
01.01.21
11º parágrafo:
... com o Sol ao centro e a Terra a entrar em nova elipse saudemos o corpo, a sua casa e as nossas vidas.
01.01.10
10º parágrafo:
... se eu pudesse viver sem palavras lambia os calcanhares e adormecia, penso.
18.12.09
9º parágrafo:
... prosélitos afâs de minúsculas palavras invertem a ordem dos chouriços gordos,
pode ler-se no pensamento de minorias loucas.
12.11.09
8º parágrafo:
... pensando ou não sou sempre mais do que eu mesmo.
07.11.09
7º parágrafo:
... rasgar a pele com uma palavra, - eis o que penso pensando em escrever, se pensasse ser poeta.
04.11.09
6º parágrafo:
... bem cheirosos pensamentos advogando
entre Lisboa e Gorjões em viajem, com conversas de merda falando.
30.10.09
5º parágrafo:
... representação teatral com um só acto, uma só cena, uma só fala e sem actor;
voz fora do palco:
- , aqui só entra o outro!...
Frase repetida em todas as línguas e em todos os idiomas
23.10.09
4º parágrafo:
... entre a matéria e o meu pensar há um vazio, o qual nomeio-o eu de - "o grande pensamento"
15.10.09
3º parágrafo:
... por vezes, é na sombra das palavras que penso.
2º parágrafo:
... pensando bem, nunca pensei nada.
1º parágrafo :
... estou pensando que poderia pensar, mas não penso o que me deixa pensativo.