sexta-feira, 24 de maio de 2013

viagens nos trópicos latinos


 


O negócio das esplanadas



Algumas vezes os milagres acontecem

Nas esplanadas do café e não chegam a horas

Para acordar quem precisa de repousar

Das loucas filas que se estabelecem

Nos esconsos armários da felicidade.


Há pessoas que tomam pílulas para dormir

Quando descobrem que a vigília é um estado

Terminal que visa perpetuar as conversas ambulantes,

As serpentes que perseguem as caras que emergem das noites.

Pesadelos ambiciosos no sono inútil, cancro que se instala

Nas ideias que fumegam nas chávenas de café.


O café é forte e o empregado atende as velhas

Com malandrice concupiscente. Ali, só a morte

Impõe o cumprimento da vida. Se não morrêssemos,

Ninguém largaria uma conversa a meio, ninguém

Se levantaria da esplanada fria sem se despedir

Para sempre. Todos fumávamos e ríamos e troçávamos

Da inflação, não haveria subsídio de férias, nem paraísos fiscais,

Nem mesmo bancos na Suíça. As férias seriam eternas

E a sobrevivência estava assegurada pela imortalidade.

Não haveria ambivalência nos escritórios onde

Se negoceiam as dívidas soberanas e as agências

De rating não fariam poemas atirando dados.


Nas esplanadas continuar-se-ia a tomar café,

Talvez aguardente de medronho da serra, as velhas

Seriam mais velhas, pois a morte nunca chegaria,

E os coveiros frequentariam workshops, fazendo

up grade dos ossos que manipulavam,

E passariam a exercer carreiras de sucesso

No mundo da alta finança.


No crescente e rentável negócio das esplanadas,

O tráfico de influências daria lugar a happenings

De solidariedade social, performances plásticas

Sem redundância nenhuma, sorteios de ganâncias

Desprovidas de valor ou meetings de pontos de vista dejá vus.

O vil metal chegaria de mercedes-benz, e de carro funerário,

E no coche barroco do falecido d João 5º.

Falecido??!! O que é isso?, perguntariam as crianças

Post mortem. No passado as pessoas morriam,

Ausentavam-se para sempre, explicaria um transeunte

Manhoso, erguendo, respeitosamente, os olhos ao céu.


Há cadáveres famosos que nos enformam os desejos.

Teimam, mesmo defuntos – descansados sejam -, em alienar-nos

O pensamento, em gritar fazendo estremecer as pedras

Tumulares. Se não morrêssemos, o futuro não seria o vazio

Que tentamos escravizar, o mundo que não conseguimos

Desocultar quando avançamos na escuridão.


Na esplanada os pássaros depenicam partículas

Recebidas por correio eletrónico, provocam os adultos

Com peidos monumentais e sorriem às crianças

Que os escolhem para amigos desinteressados.


Se não morrêssemos os cientistas deixariam

De tentar explicar as coisas e tentariam interpretar o nada,

O nada e a sombra que anuncia o fim sem fim. Nem é fácil

Imaginar o poder dos mecanismos que regem os mercados,

Nem fácil colocar bombas nas instalações dos bancos de investimento.

O grito fascista que ecoou na Ibéria profunda encontra

Seguidores nos caminhos irregulares dos desvalidos.

Viva la muerte, será o regresso às origens onde o vento

Açoita a tarde.


Nas esplanadas voltarão a ouvir-se os lamentos

Das vozes que reverberam as parangonas dos jornais.








Numa tarde de chuva



Da janela escorria uma camisola ensanguentada.

Pingava na terra encharcando o vazio

Que se assomava por detrás das casas.

Três facadas na carne rasgando

Os tecidos nauseabundos, expulsando

O sangue em golfadas efervescentes.

A minha mãe já não mora aqui e o sangue,

Que também é o dela, cai no pântano

Morno cobrindo o chão da cozinha.

A camisola envenenando as ervas daninhas,

Alimentando os vermes que me consomem o corpo.

 Agarrem-no!, ecoou como lâmina zurzindo

O ar brutal do bairro sórdido, não há crime

Sem castigo!, berrou o homem sem significado

Que assistia a tudo.

Nunca um crime foi sentido por mim

Nas fronteiras da solidão, respondi eu

Cobrindo a retaguarda.

Ratazanas sem compromissos escapuliram-se

Nas sarjetas iluminadas pelo odor dos enjeitados.

O vizinho do 2º dtº deu a primeira facada.

As outras que me rasgaram a pele e trincharam os ossos

Foram, no calor da refrega, atribuídas a incertos.

Conhecidos mas não identificados nas complexas

Poeiras que ensandeciam a tarde. A camisola

Aspergindo o espetro rastejante da pobreza.

Nunca ninguém fugiu de si próprio deixando

Um rasto de informação oferecendo

Aos caçadores de infinitos

O odor que os levará ao covil da presa,

Ao definhar do ritual do fogo e do sangue

Que rege o ordálio crepitando nas mentes

Experimentadas no silêncio, na viagem

Interrompida por deus.

A multidão rumina dissolvendo as persianas

Ululantes das personalidades elementares.

O crime percorre as ruas por entre

Conceitos duvidosos e ideias lancinantes

Abandonadas pelos que temem os estrangeiros

Nascidos entre os nossos. A matéria

Que compõe os heróis regurgita no princípio

Da noite, cadinho onde se fundem as ilusões,

E o crime assume a vertigem da virtude

Incontestável e una.

O sangue que brotoeja das feridas escancaradas

Sacraliza as ruas por onde prossigo procurando

A caverna dos prodígios labirínticos, a degeneração

Do corpo que reproduz o regresso ao fim.


Duma janela apontando a noite pinga

Uma camisola ensanguentada.






fotos: escultura de Cao Hui





*    *    *









Vítor Gil Cardeira, nascido em 1958, natural de Conceição de Tavira – Algarve. Antropólogo e professor (agricultor de vez em quando e exorcista de palavras inúteis). Bloguista no http://quintacativa.blogs.sapo.pt. Um homem como outro qualquer com tendências para o silêncio e para a misantropia. Leitor compulsivo. Lema de vida - nunca incomodar.








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