terça-feira, 23 de novembro de 2010

o sorriso da chuva


 


Dizes sempre alguma coisa antes de contemplarmos o sorriso


da chuva a lamber a vidraça. O cabelo envolve


as palavras frias das pessoas sem ritmo musical


continuando a viajar na lucidez das ausências nunca anunciadas.


 


Dizes o que não traz nome, chave postiça que viola a explicação


simples na revelação da leitura impune, quando


interiorizas o eterno guião da mudança.


 


A tua responsabilidade no crescer do esquecimento


assume-se como rejeição do tempo intransponível. Somos


aquilo que o olhar procura, aquilo que desaparece na mecânica


do desejo acomodado.


 


Rejeitas o que dizes antes de o dizer, exiges a rara leitura


da distância, o sopro do discurso que éramos na


ocasional confusão dos corpos enlutados.


 


Nenhuma agressividade se liberta do que dizes


na acomodação do desejo, na rigidez dos significados


das palavras murmuradas que nos explicam a legitimidade


da  insensível brusquidão da loucura.


 


Podemos dizer, sem exprimir a acomodação dos sentidos,


a irrecusável notícia do mensageiro apocalíptico que nos


surpreende  enquanto paradoxo reunido à mesa


dos  esqueletos brumosos da comunidade.


 


O sorriso da chuva é uma ameaça à necessidade


exasperante dos sinais exteriores de melancolia.


Dizes e não ouves.


 


(Monte Gordo – 23/11/10)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

os simples também gostam de fanecas

 










 


Um homem que era simples. Um simples homem, diziam uns. Um homem simples, diziam outros, não sabendo, nem uns nem outros, o que diziam. Hoje que todos os homens poderosos vieram até à minha terra atravessando as fronteiras fechadas, um homem, que era simples, foi-se deitar mais cedo. Os sonhos vieram até ele e confortaram-no. Os homens simples (ou os simples homens?) são fáceis de confortar. Não sabias? Se não, deve ser  porque és um dos poderosos que pisa a nossa terra... oxalá não comam as fanecas todas.


 

domingo, 14 de novembro de 2010

[degraus, patamar & queda]


«degraus, patamar & queda». 50x50 cm, técnica mista sobre tela. Set 2010.


 


Título, desenho e ideia gentilmente surripiados (sem a devida autorização, claro) ao meu amigo (e também fabuloso - nos dois sentidos - escritor e poeta) José Carlos Barros.


 


Diria, ainda, não acrescentando nada à supra furtada obra, que desde que o homem passou a poder fabricar lâminas que duram toda a sua vida, por mais longa que venha a ser e por mais "rasages" que leve a cabo, o capitalismo ficou condenado ao afundanço cruel e sem agravo. UFA!!!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

cenas campestres


 



 


O Outono não é, nestes campos do Sul,  o estertor a caminho do Inverno. A morte instalou-se com o esplendor do restolho, no final do Verão. O Outono é quando a erva desponta desse restolho entumecido da humidade das noites longas de Novembro. Aqui na quinta, a aproximação do Inverno é tempo da vida. Tudo renasce para tudo morrer. A Primavera, bem a Primavera é a redundância da vida. É, diríamos, a adolescência do ciclo


anual. O Verão é o fim. E cada fim é apenas o começo do princípio (msier De La palisse não diria melhor).


Como vos dizia o aproximar do Inverno traz trabalho acrescido à quinta. Trazer lenha para junto do monte para a cortar à machadada ou com a moto-serra e recriar a horta são os meus trabalhos favoritos. Hoje carreguei a minha pick-up de lenha de alfarrobeira e oliveira (lenha seca e pernadas caídas que resultam da auto-poda das alfarrobeiras - chega a cair mais de metade da copa e com um barulho assustador) e despejei-a junto ao armazém. Armei-me de machado e cortei lenha para uma semana de lareira.Ah, já me esquecia, hoje é o dia da primeira noite, da primeira noite de fogo dentro de casa. Esta noite a Betty não sairá de casa. Enroscada na sua cama junto à lareira, sonhará com ratos toda a noite. Já agora, o outro doméstico da casa, este o verdadeiramente doméstico que a atrás citada nada de doméstica tem, D. Matrix ladrava, ladrava no quintal enquanto eu machadava a madeira cansada. Nestas ocasiões não pode andar por perto ou ainda o racho. Aliás, nem eu devia andar por perto... e ainda por cima tem estado em prisão domiciliária durante o dia por comer galinhas à vizinhança.


Mas o que me deu mais gozo foi o recriar da horta. Já tinha lavrado a terra prometida com o trator. Hoje foi só misturar na terra o composto do diligente compostor, lançar a semente à terra e, com um ancinho centenário, misturar e enterrar. Depois da rega abundante dos quatro canteiros com, por ordem alfabética, alfaces, coentros, rabanetes e salsa, armei um banco corrido com uma travessa (solipa) da linha do comboio junto à horta e, enquanto via o sol mergulha ao fundo da quinta, fumei um cigarrito sentado na bancada lateral. Sim, que uma horta, ao contrário do que os parolos da cidade pensam(pronto, não se zanguem, os parolos de todo o lado) é um espetáculo permanente e em constante mutação.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

o passado passou-se

 










 


Agora que o passado já não conta, vou incendiar a lucidez e permitir-me abraçar os dias sem objetivo. A pequenez de tudo o que circula na contramão  ser-me-á o alimento que atenua a  faminta vontade. Os olhos dirão o que o silêncio não quiser. Navegaremos, então, na tépida nave dos afectos.

sábado, 6 de novembro de 2010

a menina e o baterista


 


Adão Contreiras - "A Menina e o baterista"

Pintura a pastel de óleo sobre papel

60x35
colecção de Laurentino Pinto Madeir

terça-feira, 2 de novembro de 2010

carne inimputável


À carne inimputável acrescento o pavor


que a poeira confunde nas respostas


assexuadas da dor.


Não respondo pela loucura  que se liberta


do desejo intruso  rastejando na pele inflamada e cruel


nas imagens que projeto no vento irascível


deriva que alberga e peia as máscaras reclusas.


O ruído ondula na praia, no mar que se recusa a controlar


a memória convulsa, reverberação  carnal que inverte o desejo


e esmaga o conforto do regresso aos ditames


primordiais,  inertes angustiados gemendo nos lábios cerrados


rompendo a humidade do sexo, garantindo a imputabilidade


do homem que acordou do sonho antigo


provocação da vida intermitente.


Partilho o projeto de segredo onde a nudez


da narrativa resgata a aura paralela do vazio


eterno da criação


frase de ontem ao encontro da noite, procura da pedra


emersa na pradaria apocalíptica


futuro próximo da visão armadilhada.


A carnificina a que me proponho assistir


arrastará as almas até ao êxodo final, descobertas,  restarão


pasto dos abutres do espírito ensanguentado.


 


(Monte Gordo () 2/11/2010)

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...