sexta-feira, 26 de maio de 2006

Um Antropólogo Competente

 


 Um homem, que pelo que a senhora do café disse, cigano, mijou na casa –de- banho. E onde está o mal pergunta-se?


   Malditos ciganos, não sabia o vento levá-los, guinchou a mulher do café  ( presumo que a dona do estabelecimento, entendendo o café como edifício que alberga efemeramente transeuntes carentes), armada de balde e esfregona farfalhuda.


   Mijou à parede, mesmo ao lado da sanita, nojento! vociferou impiedosamente, colocando uma cara-de-boca-de-cu.


   O homem, provavelmente levado pela ventania, não se encontrava nas redondezas, enquanto a relinchante esfregadora procurava o unânime assentimento dos carentes, efémeros clientes da globalização. Eu, que tudo sei, poderia adiantar que o vi agora mesmo entrar no barbeiro do quarteirão seguinte. Mas que interesse tem isso para agora...


   Depois do árduo trabalho de limpeza da retrete, a senhora empresária sentiu-se aliviada. A sua alteridade reforçara-se. O “nós” consolidara em ritual suspenso e ávido de movimentos de nucas.



   O dia começava a raiar quando o antropólogo entrou no café. Trazia, como sempre que trabalhava no ofício, a pele de outro. Confundia-se com o objecto de estudo. Mimetizava-se de “homo falsus”, para ser levado a sério.


   Sentou-se com a barba de cem dias. Pediu café. E, para agradar aos fregueses, uma aguardente velha. Seguramente mais velha que a sua barba e mais nova que a sua vida. A aguardente é claro. O que nada nos adianta sobre a sua idade. A dos dois é claro. A não ser que ambos tinham mais do que cem dias. O que já antes era óbvio: ninguém, com menos de cem dias, pede uma aguardente e nenhuma aguardente velha que se preze tem menos de cem dias. Que confusão. Quem disse que o caminhante fazia o caminho?! Voltemos ao caminho.


   Tragou primeiro o café com cheirinho e depois, devagar, em pequenos goles a bebida ardente. Socializando-se com gozo. O tempo parou por breves instantes. Só o vento se ouvia inquieto.


   O antropólogo sentia a nova pele aconchegar-se ao "velho" corpo enquanto um prazer intelectual profundo o colocava nos interstícios do tecido social e lhe corrompia a identidade. O tempo, como atrás víramos, parara e era preciso dar-lhe vida. A festa não pode ser eterna. A sociedade é um fluir incessante que não pode parar. Parar, como tão bem Lapalisse frisou, é morrer. Ficar encantado à espera do sapo. Ou do príncipe?


   Esticou o gozo até onde pôde e subitamente levantou-se e pagou. Antes de sair foi ainda à casa-de-banho. Depois, despedindo-se com um claro “até-logo”, entrou no vento e desapareceu rapidamente na direcção do quarteirão seguinte. Alguns fregueses pensaram a medo: que cigano simpático...


  O café entrou no remanso turbilhão (rodando para a direita como sempre acontece no hemisfério norte) da normalidade. As conversas de catação voltaram a escorrer sem fio afrouxando as tensões. Só o vento se ouvia inquieto.


   Mas o tempo, que não é previsível, logo voltou a entrar em turbilhão        ( agora rodopiando para esquerda como sempre acontece, com os turbilhões catastróficos, no hemisfério rico) gerando uma confusão momentânea na ignorância dos clientes.


    A dona do café, que não era ingénua, tinha ido espreitar à casa-de-banho.


    Malditos ciganos, uivou. Não sabia o vento levá-los, guinchou.


   Alguns fregueses pensaram sem medo: os ciganos são sempre falsos.


   Eu, utilizando as mesmas premissas, cheguei a outras conclusões: nunca se pode confiar num antropólogo enquanto trabalha. E, manuseando outras premissas, diria mesmo: muito menos quando não trabalha.


 


   Seriam umas onze horas, duas horas passadas sobre os dramáticos acontecimentos ocorridos, quando o antropólogo voltou a entrar no dito estabelecimento comercial. Alguns fregueses, especialmente freguesas, seguiram o seu deambular ondulante, pelo café, até à mesa escolhida para pousar. Roupas primaveris e uma cara escanhoada pareciam fazê-lo mais novo. 


Mais novo que certas aguardentes velhas.


   Sentou-se e pediu um café e um queque com passas. Mordiscou o queque enquanto ia bebendo o líquido quente, devagar. Adorava a mistura dos dois. Molhou mesmo o bolo no café.


   O ambiente não se alterou significativamente com a entrada do estranho. Um caixeiro-viajante, pensou uma mulher mais nova, mergulhando em viagens para longe. O vento amainara lá fora.


  O cheiro a mijo ainda não se tinha dissipado completamente apesar da esfregadela profissional. A dona do café estava feliz. A vida corria sem sobressaltos e os momentos eram dentes em roldanas de velho relógio com corda para uma semana.


   Passado um bom bocado, e depois de umas miradas com interesse à telenovela da hora do almoço que corria na televisão, o antropólogo levantou-se, dirigiu-se ao balcão, pagou, foi à casa-de-banho e saiu despedindo-se:” até sempre”. Os fregueses responderam-lhe cordialmente e retomaram a postura de efémeros carentes sem lugar nem futuro.


      O cheiro a mijo tinha aumentado consideravelmente.


   Malditos ciganos.


   A dona do café atribuiu-o ao vento que amainara lá fora.


    


 


 


 


 

Uma Alface já na Salada

 


 


 Eu estava ali sentado. Uma mesa redonda sem fim, cheia de beatas de cigarros e de ilusões enlatadas num frasco de açúcar.


  Às vezes entravam melgas gigantes. Traiçoeiras. Vestidas da cor das manhãs sem Sol.


  Pensava nos amigos e nas lágrimas que se desprendem pelos comboios que partem acenando até os olhos se despedaçarem em jardins solitários. Nunca se sabe até onde os amigos podem chegar no nosso bocado de solidão.


  Há ainda os copos de álcool com cintos de cabedal à cintura.


  No outro dia começaram as queimas em louvor dos vossos espíritos. E mais uma vez te perdi.


  Apetece-me encontrar cadáveres sorridentes nas páginas dos livros de pó, a navegar no meu tempo e nas ânsias esquecidas dos nossos pensamentos.


  Há ali uma estante inclinada perante os servos dos grandes. Como ela lhes rendo a minha homenagem singela. Para além disso nunca saberei como pagar a quem sofre os meus padecimentos.


  Não vês o que a música tem para nos livrar dos pecados?


  Nem por sombras arriscarei acariciar-te o cotovelo. É teu. Acariciar é uma trajectória imaginária à volta dum corpo indizível. Todos nós temos um romance almareado com o horizonte. É aí que todos os elementos (com fúria) se orientam segundo rumos de afectividade.


Acontecem ainda algumas coisas difíceis de compreender nas ocasiões em que dois guarda- chuvas se precipitam na terra lavrada.


  É doido o que não pensa o dia de amanhã. Que agradável loucura, pensou um homem pendurado no cabide do precipício.


  ( ... )


  No dia seguinte:


  Foi então que chegaram ao pé de mim elefantes a jogar petanca. Como ninguém lhes sorriu, sentaram-se e pediram café.


  De Angola, perguntou o empregado.


  Não, do Pólo Norte, responderam em coro como se a pergunta fosse uma alface já na salada. Era de caras.


  Um dia, pareceu-me triste, vieram-me falar uns indivíduos esquisitos. Bebiam uma mistura de bi-naranjus com bagaço do século XIII. Vomitaram algumas ideias completamente escaradas. Como era de esperar, juntei-me a eles e percorremos 3/4 do globo terrestre a pé. Chegados a um lugar, reparei que tinha gasto a sola das botas. Comi o que restava delas - como Charlot - e fui a nado à Mauritânia (ou Singapura?).Aí, na Mauritânia ou em Singapura, comi uma lata de sardinhas e estraguei os dentes todos. Dei-os então a uma menina de caracóis de luar. Pensei que eras tu.


  Mais adiante surgiram as primeiras complicações: numa sala quadrada com duzentos metros de lado, assoviavam alguns homens. O número de criaturas possível de caber na sala mais um. 

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Novo PGR

Neste país onde virou moda inventar choques: "choque tecnológico", "choque fiscal", "choque cultural", choque, choque, choque. Porque não se aproveita a altura certa, quando se está a aproximar o fim do mandato do Procurador Geral da República, para dar um "esticão geral" no país com um verdadeiro "choque de justiça": a Magistrada Maria José Morgado para nova PGR.


Quem não deve não teme! E o que precisamos mesmo é de alguém que abane este país e que afronte, sem medo e sem interesses engajados, a corrupção e os corruptos que arrastam o país para a lama.

Untitled

O livro que me comprometi a escrever no meu blog, cá vai andando. O longínquo cabo Santos já marcha no arquivo. A lâmina sonhadora aflora à tona do blog.


Sugestões, críticas e todas as opiniões possíveis e imaginárias serão bem vindas. Eu sei que descobrir este blog é como encontrar um grão de areia peculiar no meio de uma longa praia. Mas um escrevinhador como eu não pensa em primeiro lugar na quantidade de leitores que terá. Pensa sim em deixar um rasto no horizonte, como um grafito nas asas de uma mariposa.


Bem! Se descobriu este blog, faça publicidade. Se ainda por cima estiver ligado a uma editora... estou disponível para negociar... tenho sacos cheios de palavras à espera.

Unhas Curtas

 





Para que não me acusem de ter feito isto. Para que as más línguas (meio de informação e constrangimento que muito aprecio ) não me acusem de não ter feito aquilo. Para que a minha vida não se torne nas experiências que nunca soube viver, ou me perca nos labirintos das diversas realidades. Vou fazer a vontade a uns e a outros ( sendo uns outros e outros uns ). Sentar-me a cortar as unhas,

Sabedoria Pentagonal

Fixei os olhos no canto da janela. Saiu daquela paisagem e foi-se debruçar para o mar e vi uma gaivota mergulhar em vírgula numa embarcação decadente que violara as vidraças. Tentei não reparar que as persianas faziam malha no centro das nuvens em forma de guarda-chuva.Consegui com isso uma leve impressão no céu da boca que me causava a mais terna sensação de mal estar já sentida por um semi-afundado espectro de fantasma de ourives. A paisagem voltou a entrar livremente pela janela esburacada sem pedir autorização à genialidade ali presente. Fiz de conta que o ritual era a condição necessária à permanência das angustias fora das suas gaiolas da Meia-Noite. Espremi os joelhos procurando não semear conflitos na espuma do Levante. Alguém acenou como que a pedir uma explicação desordenada e louca aos poderes calados dos mistérios segregados na rua coberta de pássaros perfeitamente enraizados na calçada da alma enlameada. Uma onda malandra! Vim apressadamente a tua casa amolgada por cigarros desfeitos de encontro às paredes da retrete. Onde vais com os olhos asfixiados de sabedoria pentagonal?

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Um Bilhete para Singapura

 



Engoliu a harmónica. Maldita televisão ( a cores ) a desfocar-lhe os monstros caídos nas batalhas pela independência dos espelhos.


Claramente, e pela certa era provocação, choviam anjos no cabelo da sua namorada e isso entristecia-o consideravelmente.


Colocou a garrafa de bourbon de Sacavém no estômago. Amargo. Estonteante. Amigo.


Deu três passos em direcção do telhado, rodopiou em caracol e sentou-se nas asas dum cogumelo ( pareceu-lhe o de Hiroxima). Sentiu-se ridículo ali especado.


A noite caía aos trambolhões, agressiva. Começou a sentir a incompatibilidade digestiva harmónica/suco de Sacavém.


Maldita televisão ( a cores) que lhe atirava bundas milagrosamente entesoantes à cabeça.


Meu deus, que frio se começava a sentir na cidade. Começou então a cantar numa voz alcoolicamente triste ( talvez à Ottis Reding) :




  • Ó Elvas ó Elvas, insistia a espaços.




Subitamente saiu pelas ruas, comprou um bilhete de avião para Singapura e zarpou no dia seguinte.


PS: Curiosamente nesse dia, 30 de Agosto de 1983, deixou de chover anjos no seu coração.

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Luz ao Fundo do Túnel

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A Cavalo do Impossível

 











A cavalo do impossível cheguei de longe. Era Sábado à tarde já tarde e bebi uma cerveja na tasca da esquina. Livrei-me de conhecer os cigarros já moribundos nos cinzeiros e passei à sobremesa sem grandes pressas.


- Outra cerveja, arrotei, das de exportação.


O homem do fundo levantou-se e saiu aos trambolhões pela janela.




  • Meu Deus.




Parecia que levava os bolsos cheios de lágrimas derramadas ao acaso. Já na rua retomou a compostura e rastejou assoviando às pedras da calçada.




  • Onde mora o encantador de serpentes, perguntei à empregada enfrascada em cebola. Respondeu evasivamente e colocou-se à minha disposição na posição habitual. A quatro é sempre difícil, pensei desabotoando a braguilha. No entanto, para começar não está mal. Fiz o serviço e saí pela janela.




O Sol punha-se atrás do bosque envenenado. As flores do soalho da rua empoeirada exalavam um cheiro acre a bife de vitela mal passado. Eram trinta luas para o fim da exposição final que começava a parecer um cravo espetado nos pulmões da aldeia. Afinal o encantador de serpentes morava no largo fronteiro ao cemitério, já na linha que separava a aldeia do bosque envenenado. Transpus a linha de um salto, que me pareceu mortal mas que afinal foi banal, e bati na janela da casa-sem-convicção. Ninguém, veio à porta. Achei-o meio desfigurado, por entre a amálgama de entes castrados que lhe espreitavam atrás dos braços e das pernas. Vinha um mau hálito, a sardinha crua, da sala do fundo que mais tarde vim a saber era o parlamento do país aos fins-de-semana.


Ninguém apresentou-se, pontapeando os políticos (?) castrados para o parlamento.




  • Sabe, começou.




  • Sei muito bem, interrompi, eu também bebo ao Sábado tardoite.




  • Então vamos ao que interessa, sorriu cúmplice.




  • Então vamos ao que interessa, supliquei.




Entrámos na cochia onde dormia uma serpente quadrada com bigodes de cartão amarelecido. Logo de entrada verifiquei que estava perto do fim da sessão da tarde e que a película estava toda corrompida por sábios estranhos aos desígnios da Pátria.


Ninguém depositou a chave do pensamento nas minhas mãos, coloridas de espanto. Então murmurou sem abrir a boca:




  • Vai.




A cavalo do impossível retirei-me para longe.


 

Um Macho Sem Dez Tostões

 











Seguia estrada acima com uma dor manhosa no duodeno. Martelava as pedras do caminho com as velhas botas da tropa, distante, e talvez pensasse em bebidas estranhas de camone. As ervas da valeta exalavam cores abundantes e silvavam, baixinho, o gozo da carícia do Levante. Naquela altura os caranguejos começavam a espreitar, à passagem das pessoas, estendendo as pinças à esmola dos mais avantajados. A crise instalava-se no seio de todas as sociedades, complexas e não complexas, terrestres e marítimas.


Acotovelou um caranguejo à passagem:




  • Xô monstrego de duas bocas sem açaimo.




  • É só pra matar o bicho, pedinchou.




  • Vai trabalhar prá estiva, incapaz.




  • É a espandilose, desculpou-se.




  • A espandilose o caraças, onde já se viu caranguejo com espandilose.




  • É caso único, por isso te rogo dez tostões.




  • Sou macho, muito macho e além disso não tenho dez tostões.




O caranguejo, visivelmente derrotado, voltou ao buraco; estreito e profundo, na lama negra e pestilenta, lavado em lágrimas.


O vento é um eterno agouro, uma voz angustiada de marinheiros que vivem no fundo do mar, sem barcos para navegar.


Escarrou, alto e bom som, sem no entanto parecer indelicado ou mal intencionado. Pensou que os anos não eram mais do que dentes que apodrecem sem razão alguma e que, por isso, são atirados aos telhados das pocilgas onde costumam viver os homens.


É sempre cedo para descontar os impostos dos peixes às mulheres que se vendem por garrafas de champanhe amaricado.


Começou a desafiar as gaivotas sem poder de elevação e enleadas nas nuvens:




  • Então bicos brancos esfarrapados sem tesão, não gritam aos machos que passam? Com que coragem me fixam os olhos de machos neutros?




Ninguém lhe respondeu e continuou ao acaso em direcção ao ocaso imperturbável. Não há recepção possível por parte dos loucos comuns aos loucos do poder.


Uma vez, quando a mulher das tempestades bonanceiras apareceu ao povo, perguntou-lhe quem era o responsável pelo fluir das bebedeiras dos passarinhos metamorfoseados em passarões com pele de lobo e sentimentos de cordeiro. A resposta foi vaga mas responsável:


 












  • Um homem foi às traseiras da sua casa numa noite de bonança e se a cidade fosse no seu quintal teria visto toda a confusão da noite na palma das suas mãos.




  • Está bem, disse um amigo de ocasião, e se os anjos fossem realmente bons? A resposta amputaria assim as memórias vazias?




A mulher das tempestades bonanceiras começou a mudar de cores e, quando se tornou amarelada, desapareceu deixando um imenso oceano de respostas nas mentes dos cobardes presentes.

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Um Homicídio Anunciado

 



Há anos que não dava um chá de caridade. Baixou ligeiramente o som do gira- discos. Ópera. Sentiu uma doce alfinetada a dirigir-se, do tórax, em direcção ao púbis e levantou-se para o vazio. O cérebro recusou-se a elaborar a continuação da vida e estatelou-se, desajeitadamente no tapete persa. A emoção traíra-lhe as cruzes.


Quando, minutos mais tarde, reabriu os olhos, pareceu entender tudo o que entrevira antes. Mãos à obra.


Toda a tarde rabiscou cartões a anunciar uma festa para a semana seguinte. Não faltariam ministros, duques, deputados, chefes de, estrangeirados, primos do 7ºgrau, pintores, músicos e amigos chegados.


Durante a semana o reino andou em frenesim. Não se falava noutra coisa.


A misteriosa senhora contratou os melhores mordomos, coisa que sempre dispensou, para a ocasião solene. Segundo se dizia o mordomo é sempre o culpado, e assim, nada melhor para encobrir o imenso crime que se pressentia no ar.


Chegado o dia fatal a anfitriã deslocou-se ao cabeleireiro, que por sinal não estava convidado, para ajeitar as melenas.




  • Faça-me um penteado de peixe, pediu delicadamente.




  • Goraz ou redfish, perguntou sensibilizado com tamanha honra.




  • Nem uma coisa nem outra, preferiria antes carapau alimado.




  • Concerteza, referiu sem se mostrar magoado, vou-lhe fazer um penteado bem avinagrado.




Às seis da tarde o portão do sumptuoso palácio foi aberto de par em par, deixando entrar aos trambolhões os ilustres convidados que se amontoavam à entrada.


Estava ali reunida a nata do reino. Bebericando, petiscando e convivendo sem pressas, o chá foi decorrendo a contento de todos. Foi então que se anunciou o próprio rei:




  • Cá estou eu sempre alegre e fanfarrão que mesmo sem convite vos venho alegrar o serão! Cantarolou entrando ao ritmo de Strauss.




  • O rei vem nu! Gritou uma criança presente, enquanto era arrastada para as masmorras do palácio.




A multidão de convivas espumava de prazer enquanto a dona da casa recebia S A R, dando qualquer desculpa esfarrapada para o facto de não o ter convidado - como se tudo não tivesse sido premeditado...


O monarca compreendeu e juntou-se a um grupo de pederastas, que bebericando o chá morno, lhe apreciavam o minúsculo apêndice do baixo ventre.


Aproveitando o entretenimento geral, a velha senhora retirou-se um pouco e voltou com a maçã envenenada que tinha preparada para executar o projectado.


O rei, já ligeiramente embriagado, rodava de grupo em grupo animando a festa. Agora divertia, com o seu humor imanente, os amigos chegados. As nalgas reluziam-lhe à luz difusa do candelabro.



    Meus senhores e minhas senhoras, interrompeu a velha com a maçã na cabeça ( velho costume do reino ), não queria deixar de aproveitar a presença de S A R sem lhe agradecer a honrosa presença nesta modesta casa. E por isso, nesta ocasião especial em que comemoramos; com este singelo chá de caridade; o nascimento do meu segundo dente do siso, gostaria de oferecer-lhe esta simbólica maçã, colhida na árvore da vida.



Romperam os aplausos na sala enquanto o rei recebia em suas mãos tão valioso presente.


Comovido, avançou para o meio do salão para soltar algumas palavras de agradecimento:


Como sabem, começou enquanto deixava escorrer algumas lágrimas pelos ombros abaixo, a maçã é o brasão da minha família desde tempos imemoráveis e esta está tão apetitosa que , com a vossa licença, não posso deixar de a comer já. O ruído da dentadura cariada do rei penetrando a carne viçosa do fruto da árvore da vida ecoou no salão fazendo vibrar os cristais. À segunda dentada o rei revirou os olhos e tombou no gasto tapete persa: estava consumado o regicídio.


A festa continuou até às tantas e ninguém acusou os mordomos do sucedido. Só alguns, por certo maldosamente, acusaram, sem convicção, o cabeleireiro despeitado.

quinta-feira, 11 de maio de 2006

O Fogo da Salvacão

 Aquele cão baixinho seguiu-me outra vez. Sinto que todas as minhas fobias ganham coragem para me arruinar. Depois da esquina, quando ele sorriu com dentes de cão intelectual, pensei chegado o fim. Ali, onde se cruzam as paredes de duas ruas solitárias, encomendo a minha alma ao Criador. Se ao menos passasse o vizinho do talho com os ossos do ofício do costume ...

Foi então que resolvi suborná-lo. Lati-lhe baixinho como que a confessar uma amizade passada e esquecida. Abanou a cauda, como se a mentira lhe tivesse roido os testículos, e riu com os dentes ironicamente húmidos.


Pediu-me um cigarro e apoiou-se nas patas traseiras. Nervosamente retirei um cigarro da camisa e estendi-lho. Fogo! Ladrou espetando o cigarro no incisivo raivoso.


Salvo, estava salvo! Nenhum dos dois tinha lumes e ele entrou na tabacaria para comprar fósforos.


Reassumi a compostura e lá fui assobiando rua acima.

quarta-feira, 10 de maio de 2006

Pensamento na hora

Cago na imortalidade sem corpo.

Um Piolho Sem Cabeça

Tinha dois piolhos amestrados na casa de banho. Um dia, o mais velho adoeceu e parecia disposto a deixar de viver. O outro não dava mostras de se importar com isso. Misantropo?


Cada um é como cada qual e cada qual é como cada um. Disse, sabiamente, o filósofo.


Os tempos estavam particularmente difíceis, mas dispus-me a trazer o veterinário a casa.


Assim o fiz. O homenzinho levou-me, naquele tempo, 400 xets e disse-me que piolho sem cabeça não era cabeça.


Cabeça?!?!?! Mas ele tem cabeça!


É que há uns que se aguentam e outros não.


Reflexos da infância, pensei.


E que a cura nunca estava na relação bizarra doente/médico, mas na interactividade doente/ambiente que o rodeia. E que a morte era a rejeição total de um corpo social ou fisicamente adverso.


Agradeci, empurrando o cavalheiro porta fora, e adoeci profundamente.

terça-feira, 9 de maio de 2006

No Bar do Costume






Uma mulher entrou de mansinho arrastando as solas dos sapatos na tijoleira vermelha. Apertou a mão a uma salamandra semi-nua, que vagueava ao acaso pelas redondezas, e resolveu pedir um bagaço.


O empregado, senhor de um porte arredondado, serviu com a gentileza do costume.


Deu um trago sem pestanejar e sentou-se na arquibancada do fundo retirando um chupa-chupa da malinha ligeira. Chupa aqui... bebe ali...chupa aqui... bebe ali... e assim vai o relógio do bar consumindo o inexorável fluir do tempo.


Entram clientes, sentam-se, bebem e pagam quase sem falar, enquanto o relógio e o empregado vão servindo sem pressas.


Duas rebimba-corações bebem em silêncio na esplanada. O Sol mergulha no mar e as gaivotas erguem-se nas sombras. Ao longe, um saxofone geme milagrosamente entre a babuja da preia-mar.


A mulher levantou-se e dirigiu-se ao balcão ostensivamente envernizado de espuma.


 - A minha conta, pediu com gestos meticulosamente embaraçados.


O empregado, que presenciara a lenta progressão da elegante senhora no salão, levantou-se cordialmente; do banco atrás do balcão, deixando o jornal; que lia sem interesse, pousar nas imperiais por tirar.


Uma centopeia, sem pernas, gritou na noite. A brisa nocturna, sem devaneios, invadira os lugares obsoletos, mordiscando os pensamentos do lampiões tímidos da rua.


No instante em que a mulher tirou o montante, exigido pelo bagaço; da malinha, entrou no bar um cavalheiro sem olhar. A noite pareceu mergulhar no vasto oceano, enquanto o saxofone se extinguia entre os barcos sem cais.


Sem retirar o sobretudo, o homem sem olhar, voltou à rua e atirou-se na noite desaparecendo na encruzilhada das trevas.


A mulher, depois de receber o troco, penetrou no ar frio da maresia deixando um rasto de luz no alcatrão ainda quente.


O empregado, retomou a leitura do seu velho jornal: ... a solidão é o império dos sentidos.



segunda-feira, 8 de maio de 2006

Transeuntes

Inicia-se, hoje, aqui, a escrita do livro de contos "Transeuntes".


O cabo Santos é o homem que abre as hostilidades.


Amanhã  há mais!


 


VGC

Congressos do CDS e PSD

Bruto, barbudos, jumentos


bebiam sem rir.


 


As espingardas roíam-lhe os pés.

Pensamento na hora

O homem sonhou que um dia a vida seria para trabalhar menos e sempre em actividades, como diriam os nossos irmãos brasileiros,"gostosas."


Infelizmente penso que já chegámos ao pico onde se cruzam as linhas do tempo e da "gostosura" no trabalho.


Depois dos computadores, dos robôs, da digitalização, das múltiplas máquinas-que-quase-tudo-fazem, vamos passar a trabalhar mais.


Eu sei, eu sei, que quando vou ao restaurante quero o peixe mais fresco do mundo e isso...


Quando vou ao dentista quero dedicação, paciência e competência e isso...


Quando visito uma cidade quero-a limpa e isso...


Quando....Quando....Quando....


Custa muito trabalho!


Mesmo assim penso que poderemos sempre conciliar trabalho aliciante e tempos de lazer...Trabalhando menos por época e por vida, por mais que esta última se estenda para lá da centúria.


E se alguém quiser trabalhar mais, que o faça. Liberdade acima de tudo. Todos devíamos ter direito ao trabalho e o dever de trabalhar sem que isso impedisse o direito à convivência com familiares e amigos, à leitura, a ouvir música, a ir ao cinema, ao teatro, ao cinema, a caminhar pelos campos e pelas cidades, a praticar desporto, etc. Nestes domínios não haveria lugar a deveres. Quem não quisesse a isso não seria obrigado...


Agora a lógica de que se os chineses trabalham 14 horas por dia e que se não têm ,ou não querem ter; férias, nós temos que trabalhar mais e ter menos férias, é que não conduz ao caminho de  humanização a que humanidade (passe o pleonasmo) tem vindo a seguir, lentamente e com os precalços que conhecemos. Não seria mais lógico os chineses trabalharem um pouco menos? Ao contrário do que nos têm vindo a, etnocentricamente (ou melhor eurocentricamente), a tentar convencer, eu também acho que os chineses gostariam de tarbalhar menos, de ter férias, 13º e 14º mês, etc...

O Cabo Santos

Os soldados marchavam no seu passo de ganso sem nunca acabar. À frente o General, mão colada na testa. Óculos escuros.


Foi então que reparei no botão que certo soldado, alto e de queixo aprumado, deixou cair na ampla avenida.


O General tremeu. Os olhares sagazes dos convidados seguiram o rebolar do botão pelo asfalto duro e liso.


O cabo Santos gritou:chão! O General não sorriu. Os convidados precipitaram-se, acotovelando-se, para debaixo do palanque central tapando as cabeças com capacetes anti-qualquer-coisa, enquanto os soldados se espalhavam na cidade, de barriga colada ao chão. O destemido cabo Santos rastejou corajosamente em L, aproximando-se perigosamente do malfa(r)dado botão. Com sibilina destreza soprou-o para asarjeta.


Ufffffff...fff, soltou, levantando-se e mandando formar a 26.


O General sempre de mão colada à testa. Óculos escuros.


Aproveitei o sinal verde e atravessei a avenida. Missão cumprida.


 

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...