segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Herberto Helder e um poeta dependurado numa árvore

Acabei de ler a biografia do Herberto Helder, pelo João Pedro George, Se eu quisesse enlouquecia, e gostei muito. Gosto de biografias agrestes e que não bajulem, ou beatifiquem, o autor. Tem falhas? Tem, como todas as biografias. Quem quiser mergulhar na Lisboa do último quartel do século XX, tem aqui um filme denso e fluído, movimentado e pormenorizado da vida nos cafés de muitos dos nossos artistas mais conhecidos.

Só um caso delicioso descrito no livro que cito de memória: tendo saído um livro de António Ramos Rosa, amigo do biografado e seu primeiro crítico, com uma apreciação bem positiva, que foi, vagamente, acusado de conter poemas plagiados a Helder, o poeta algarvio atira-se de uma janela, tentando pôr fim à vida. Por sorte cai em cima de um robusto arbustro que lhe salva a vida. Por acaso, passa na zona da ação uma sua vizinha a poetisa Maria Teresa Horta. Vendo o despeitado escritor aflito, entra num café e telefona para os bombeiros, ou para o 112, ou para a polícia, sei lá. Para espanto das entidades referidas e dos atónitos presentes no café, põe-se, aflita, a gritar para o bocal "depressa, venham depressa! Está um poeta pendurado numa árvore!"

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