terça-feira, 17 de abril de 2012

da arte de empilhar esterco


Quando se anda na rua, não tem problema. Retiras o macaco, rola-lo entre o polegar e o indicador e, quando já perdeu a humidade e não cola aos dedos, atira-lo, redondinho, para o chão. No automóvel, o processo é quase o mesmo. Só tens que abrir o vidro da janela e aventá-lo ao caminho. Não tem problema. As caretas que ofereces aos transeuntes enquanto pescas no estreito túnel não se distinguem das caras que se confundem nas vidas sem sentido.


O pior é quando as obstruções sólidas das cavidades nasais acontecem na cama. Na horizontalidade do sono ou nas convulsões da insónia e do sexo. Há já algum tempo que resolvi este problema. Dedo indicador revolvendo o habitat onde se criam os entes viscosos, unha em função de anzol retirando o inquietador, operação desumificadora com a sua rotação, já referida, entre o polegar e o indicador e … redondo, redondo, colocação do macaco extraído em cima da mesa-de-cabeceira. Ao lado dos livros incompletos, do relógio e dos anéis.


Quando o montante atinge quantidades incompatíveis como regular funcionamento de uma mesa-de-cabeceira, fora pela janela. Escusado será dizer que um monte de macacos se acumula do lado de fora da janela quase até ao parapeito. Parece uma obra plástica saída de um museu de arte contemporânea. E até fica bem no conjunto pimenteira-bastarda, pinheiro, buganvília, que assomam à janela. No entanto, não sei bem o que lhe faça. Ontem, o vizinho, o da barba azul, um homem estranho e educado, pospôs-se-me comprar o monte de macacos inertes. Rejeitei categoricamente. Vender algo que é meu e acumulei com tanta paciência e tempo, não me pareceu boa ideia. Mas passei o resto do dia e o que já passou do de hoje a meditar sobre as ideias do meu vizinho em relação ao destino para aquele monte de esterco. E, agora mesmo, alavancado pela febre da curiosidade que me é própria, decidi, sem pensar, vender-lhe o que me saiu do corpo e tanto tempo levou a edificar. Só assim poderei saber o destino que lhe está reservado.


 


M.G. 10/04/12

terça-feira, 10 de abril de 2012

nunca teve importância


 


Não tem importância, nunca teve,


é uma gramática da pele, irrompe


sempre que as calmarias assentam


na reflexão contemporânea do olhar.


 


A importância das coisas é, ainda,


o panorama do silêncio para além das paredes,


conversa publicada no obrigatório confluir


das cerejas mordendo a própria língua.


 


Na tua luz a minha fala não tem


importância, filha da puta zurzindo


as ameixeiras que cada escritor ama.


 


Regressas à terra onde os gambuzinos te


inspiraram as primeiras, e únicas, palavras,


à terra que apenas existia debaixo


dos teus pés, à terra fragmentada


 no imaginário inquieto das traseiras


do teu quarto. Porra! Eras um miúdo


distraído, cantarolaram as velhas


da aldeia atirando as orelhas para


o interior das almas fedendo a antanho.


A trilogia nauseabunda, extirpada


por arqueólogos assassinos que procuram


o mal oculto nos corpos, cega a vida virtuosa,


as pontas soltas dos devir: passado, presente e


futuro numa amálgama coberta de pó. O jogo


completa-se quando se juntam aos arqueólogos


assassinos companheiros vindos das profundezas


dos abismos dedilhando teclas de pianos “au menier”.


Foda-se, disseram em uníssono os escavadores de projetos


adiados: mineiros, autopsiadores, coveiros e poetas.


Escancararam portas para o profundo e iniciaram


 uma digressão pelo mundo das sombras, questionando


o velho e o novo que se esvai em ninguém.  Em


perguntas estéreis que ecoam nos complexos


jardins de carbono, viajando na infância precária.


 


Na comédia instrumental que percorre a noite


só os coveiros conseguem resultados tangíveis


e metamórficos: teorias da morte ou deriva das


paixões. A terra que volta a cobrir


o que confundiu a paisagem dos desafinados


caminhantes das sombras, xamanes da putrefação


 divina, revela uma única verdade,


só uma, que amontoa escombros  nos corpos


intumescidos. Só o poeta engole a última garfada:


o assassino da vida escassa, das asperezas da língua


silenciando o amargo estertor do sonho.


 


Não tem importância nenhuma, nunca teve.


Amém!


 


M.G.  10/04/12


 


 


 

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...