quarta-feira, 1 de julho de 2026

Tudo também pode ser nada

 


(sem rede)

Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, um esquecimento determinado pelas convicções, talvez a morte não fosse tão temida e tão cruel. A passagem para um outro lado qualquer, um chão obscuro, mesmo que de brilho numinoso, parece ser sempre uma aventura radical. Mais, ainda, quando nada sabemos sobre o outro lado. O que é quase sempre, mesmo quando estamos convencidos que o conhecemos, e, às vezes, escolhemos, e entendemos. Nós, inocentes militantes do mal, que nem conhecemos, nem entendemos, o nosso próprio lado. Nem Deus, que está em todos os lados, consegue interpretar a multiplicidade. O estar em toda a parte não (O) ajuda em nada. Muito menos a omnipotência que se torna inútil num mundo frágil e de equilíbrios delicados. Num mundo complexo, são os mais fracos os que mais poderosos são na realidade. O outro lado será sempre o lugar do esquecimento: Masahisa Fukase fotografou corvos negros o resto da vida, depois de se separar de Yoko Ono; Robert Walser programou a sua morte deitado de costas sobre a neve, depois de ter vivido os seus últimos longos anos de vida num manicómio, W G Selbad quebrou a sua rotina de caminhante para ir buscar a filha de automóvel ao outro lado e morrer num brutal acidente contra uma árvore.  Até eu, que sou um sedentário invulgar, nadei uma tarde na deslumbrante Baia das Gatas, na Ilha do Mindelo, em Cabo Verde, enquanto mirava, ao longe, a selvagem ilha de Santa Luzia, paraíso de tartarugas felizes, e fui brutalmente recambiado por polícias zelosos, em 1978, antes de Portugal ter entrado na CEE, de Cérbere para Port Bou, onde, sem saber que aí se tinha suicidado em desespero Walter Benjamim, prometi a mim mesmo ser um revoltado para o resto da vida. Descobri, desolado e só, nessa ingrata terra catalã, que não havia lado nenhum para onde pudéssemos ir, nenhum lugar resta que não o nosso lugar. Um lugar de memória, mas, mesmo assim, o que de mais chegado podemos contemplar. Por isso mesmo, nunca encontramos esquinas chanfradas. As esquinas não permitem olhar o outro lado ao nosso lado. A danação presumida do desejo. Numa só terra mitológica, aguardamos o inevitável esquecimento, um caminho desconhecido desprovido de livre-arbítrio. Escolhemos o nosso destino como um cão escolhe a sombra para se deitar no verão, ou como um camaleão muda de cor, o que lhe é fatal, ao atravessar a estrada. A escolha não significa sermos livres. O nosso lugar é o lugar do outro. Todos os lados constituem, e vão gerando criação e construindo, em constante (r)evolução, o que de cá é também o nosso de lá.

Babell Porto 26

 Escritores ricos, e leitores babacas, esgadanham-se e acotovelam-se, com o patrocínio dos bem-intencionados, e beatos, comendadores da pátria, a trepar, durante um belo fim-de-semana, numa cidade linda, a mítica Torre de Babell. Hoje como ontem, a vaidade humana comandando a vida. Não aprenderam nada com a leitura da Bíblia.



Da arte de contornar o tédio

 Para seres pássaro, não é preciso saberes voar. Basta, sim, quereres encontrar um amigo. Com ele, aprenderás a voar. A ir por aí rasgando a solidão que te oculta e constrói. Criando caminho e aprendendo que a amizade não estilhaça a tristeza. Não te rouba à beleza de estar só.

O mar torna-se mais belo e acolhedor porque tem barcos. Que rasgam o azul das águas e descobrem outras terras, outros mares.

Quando somos andantes, errando por aí, mais tarde ou mais cedo, trocaremos olhares.

As casas só nos oferecem vãos para rasgar a paisagem interior das almas.

Para mostrar o vazio das pedras domesticadas.

Caem crisântemos sem fim

 Caem crisântemos sobre  a tua face molhada e a chuva não dá sinais de abrandar.

Sento- me na orla da tua cama enquanto balanço os pés no abismo escuro dos teus sonhos.

As pétalas das flores tristes agarram-se

à face macilenta.

Percorro a alameda das árvores insensíveis enquanto os flamingos regressam a casa. Há uma melancolia dominando os dias insensatos e as vozes suaves das meretrizes. Um abraço de  pássaro colhendo ameixas descomprometidas. Nada resta do que me qostarias de dizer no vento agreste do pensamento crítico e permaneces assim no silêncio dos que combatem a negritude dos teus lábios. Nesta manhã escrevi cinco versos. Falam do que aconteceu antes de te conhecer. Antes até de me conhecer. Pensei que seria assim que poderia recuperar o passado. O tempo necessário para tentar entender o porquê  da melancolia que transportas. Nunca tinhas visto os crisântemos que agora te ornam como se do esquecimento se tivesse soltado um pensamento sem peias que dobrasse o infinito poder da tristeza. Chama-me pelo meu nome. Diz-me que o que aconteceu antes de te ter conhecido não aconteceu. Foi uma fagulha de incêndio que ateou o fogo ao futuro. E íamos todos juntos através das marés,  cantando e dançando com os peixes que tinham perdido a memória.  Numa crista de onda imparável vimos até sereias nadando aos pés da cama onde sentado apreciava a frescura do vento. Seria já tarde quando atravessaram a rua os melhores amigos das sereias. Conheciam de cor as letras das canções que embalavam as crias dos inventores de verdades pintadas por Van Gogh. Conheciam também os lugares onde tinham colocado os mortos da batalha final entre a fala e o silêncio ardente, o vazio. Não sei do que falam os que chegaram na aurora eminente, os que atiram pedras aos cães vadios que atravessam a noite. É natural o rugido incontinente da madrugada. O que traz a claridade do dia  é uma mensagem cifrada que ninguém pode entender. E eu ali especado esperando os que nunca virão. Os que esperam nas esquinas da consciência o mal dos outros, enquanto entoam orações pelos labirintos gravados na tua carne. Dentro de uma casa em ruínas dança um feiticeiro na penumbra nevoenta da manhã.

Um pinheiro decepado

Quando chegas de um encontro literário de Puebla del Rio, Sevilha, e a ventania deitou abaixo um terço do pinheiro mais alto da quinta, não tens outo remédio: passar o dia seguinte a cortar a parte caída. Para trabalhos mais duros, uso Rolling Stones como droga!

P.S. Primeiro, para a ramagem mais fina, usas a serra manual, depois, já com a estrutura despida, usas a serra elétrica, em boa hora oferecida pelos filhotes, e cortam-se os ramos médios, finalmente, para os troncos grossos, usa- se a moto serra de alto calibre, a diesel. Nem o Millei me bate.

PS 1. Agora, parei um pouco. Com o Andy não dá para fazer barulho.

PS2. Bem no que seria o topo do pinheiro, encontrei esta casa. Felizmente,  parece-me já não estar habitada.






Puebla del Rio - Encontro de escritores

 Puebla del Rio é uma povoação situada numa colina sobre o majestoso Rio Guadalquivir. Até ao mar, até à foz, na margem direita, estende-se a perder de vista, até El Rocío e Matalascañas, o impressionante Parque Nacional de Doñana. Sevilha espreita ao longe e por onde antes passaram carracas, barcas, caravelas, naus e galeões, passam agora porta-contentores e navios de cruzeiro. Por onde navegaram Colombo, Magalhães, Del Cano, Pigafetta e tantos outros passam agora turistas de ocasião levados em manada para se encantar na capital da exótica Andaluzia. La Puebla orgulha-se de ser a zona onde mais se semeia e colhe arroz em toda a Europa e em ser a "cuna", o berço, das sevilhanas cigarreiras, um género de sevilhanas que tem ainda a alma das gentes que as criam e cantam e bailam, sem concessões ao voraz marketing turístico que tudo normaliza e homogeneíza. Eu próprio, de pé atrás com as sevilhanas, me tornei, agora, um apreciador destas músicas arrancadas diretamente do coração. Conheci mesmo, para além de cantores, dançadores e guitarristas, há-os por toda a parte, um dos maiores letristas de sevilhanas cigarreiras: Pepe Palma, que, como o apelido anuncia, é descendente de portugueses de Guerreiros do Rio, uma aldeia nas margens do rio irmão do Guadalquivir, o Rio Guadiana. Foi a primeira vez que aqui estive, convidado para participar no III Encontro Hispano-luso de Literatura. Foi um fim de semana de convívio e irmandade intenso e feliz. Com flamengo, o espantoso Nin̈o de Gines, fado, a algarvia Melissa Simplício, sevilhanas à beira do rio, visita à galeria do Grande, um homem sem nome, transeunte pelo mundo e que por aqui passa parte do ano, visita à adega Alcaria, onde Joaquim Peulach faz um extraordinário trabalho de recuperação de castas regionais e produz vinhos de autor que marcam, e de que maneira!, visita ao Museu da Autonomia e à casa de Blas Infante, o pai da autonomia andaluza e fuzilado por Franco, e uma visita guiada ao coração do pueblo.

Ah, também houve recitais poéticos, troca de livros, abraços e promessas para o futuro, e microfones abertos por toda a povoação.  Mas isso são coisas que acontecem em todos os encontros literários. Obrigado, Puebla del Rio. Obrigado, Joaquin e Carmen, obrigado Educiones Ábrego e coletivo poético Desde las Márgenes.

Nunca mais deixarei La Puebla del Rio. Cigarrero para siempre!

Samurais sobem o Guadalquivir

 Para se encontar com Filipe III, II de Portugal, subiu, sulcando as velhas águas do Guadalquivir, na direção de Sevilha, uma embaixada de samurais, embaixada Keichō, vinda do longínquo Japão, para o cumprimentar, honrar, estabelecer relações comerciais e esclarecer complicadas questões espirituais e religiosas. Mandou o imperador de Espanha, e de grande parte do mundo, que ali esperassem. E por aqui restaram até hoje. Esperem por mim à beira do rio. Celebraremos com saké andaluz nas margens da vida!



Parque das Devesas - VN Famalicão

Alguns sabem, poucos, que Vila Nova de Famalicão é a minha segunda terra do coração. A minha companheira é de cá,  os meus filhos, a segurança de duas mães assim o exigiu, nasceram aqui, no Hospital Distrital. Como se mudaram para o Algarve antes de um mês de idade, são tão algarvios quanto eu que lá nasci, não deixando de ser minhotos, é claro. E, isto toda a gente sabe, sendo nós doentes incuráveis de um clube que veste de vermelho, sofremos e exultamos com as derrotas e vitórias do Nosso Famalicão. O problema é quando se encontram vermelhos e azuis do nosso coração...

Mas, como eu ia dizendo Famalicão está na minha alma desde que lá desembarquei pelo inalcançável ano 83.

Todos os anos subíamos e descíamos de Tavira -Famalicão-Tavira várias vezes ao longo do ano. Conhecemos como ninguém como foi a implementação do Plano Rodoviário Nacional. Primeiro dois e depois quatro. Quando nos tornámos, para sempre, quatro, as viagens passaram a ser mais frequentes e as estadias mais longas. Depois, bem, depois os meninos tornaram-se adolescentes e, ainda depois, homens, e os mais velhos foram partindo, e as viagens foram-se espaçando, e as estadias tornando visitas de médico a doente  saudável.

Também foi aí que descobrimos a importância dos mortos no crescimento da paixão pelos lugares. E como a distância nos faz amá-los ainda mais.

Nesta visita de médico apressado não deixei, faço-o sempre, de ir dar uma volta, já lá dei centenas de voltas a caminhar ou a correr, ao Parque da Devesa. É, seguramente, o mais belo parque urbano do país e, neste princípio de Primavera, com chuva e frio, quase sem ninguém,  especialmente belo.



Mão Morta em Tavira

Grande concerto dos Mão Morta no Teatro Municipal de Tavira. Num registo diferente do que nos habituaram, um rock duro, pesado, seco, trouxeram-nos uma peça de rock sinfónico-poético, mesmo jazístico, de grande qualidade plástica e musical. A componente combativa contra a opressão e a desumanidade, essa, continua presente nas palavras e na performance.



Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...