(sem rede)
Se tudo não passasse de um
desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada,
mesmo nada, dobrar, um esquecimento determinado pelas convicções, talvez a
morte não fosse tão temida e tão cruel. A passagem para um outro lado qualquer,
um chão obscuro, mesmo que de brilho numinoso, parece ser sempre uma aventura
radical. Mais, ainda, quando nada sabemos sobre o outro lado. O que é quase
sempre, mesmo quando estamos convencidos que o conhecemos, e, às vezes,
escolhemos, e entendemos. Nós, inocentes militantes do mal, que nem conhecemos,
nem entendemos, o nosso próprio lado. Nem Deus, que está em todos os lados,
consegue interpretar a multiplicidade. O estar em toda a parte não (O) ajuda em
nada. Muito menos a omnipotência que se torna inútil num mundo frágil e de
equilíbrios delicados. Num mundo complexo, são os mais fracos os que mais
poderosos são na realidade. O outro lado será sempre o lugar do esquecimento:
Masahisa Fukase fotografou corvos negros o resto da vida, depois de se separar
de Yoko Ono; Robert Walser programou a sua morte deitado de costas sobre a
neve, depois de ter vivido os seus últimos longos anos de vida num manicómio, W
G Selbad quebrou a sua rotina de caminhante para ir buscar a filha de automóvel
ao outro lado e morrer num brutal acidente contra uma árvore. Até eu, que sou um sedentário invulgar, nadei
uma tarde na deslumbrante Baia das Gatas, na Ilha do Mindelo, em Cabo Verde,
enquanto mirava, ao longe, a selvagem ilha de Santa Luzia, paraíso de
tartarugas felizes, e fui brutalmente recambiado por polícias zelosos, em 1978,
antes de Portugal ter entrado na CEE, de Cérbere para Port Bou, onde, sem saber
que aí se tinha suicidado em desespero Walter Benjamim, prometi a mim mesmo ser
um revoltado para o resto da vida. Descobri, desolado e só, nessa ingrata terra
catalã, que não havia lado nenhum para onde pudéssemos ir, nenhum lugar resta
que não o nosso lugar. Um lugar de memória, mas, mesmo assim, o que de mais
chegado podemos contemplar. Por isso mesmo, nunca encontramos esquinas
chanfradas. As esquinas não permitem olhar o outro lado ao nosso lado. A
danação presumida do desejo. Numa só terra mitológica, aguardamos o inevitável
esquecimento, um caminho desconhecido desprovido de livre-arbítrio. Escolhemos
o nosso destino como um cão escolhe a sombra para se deitar no verão, ou como
um camaleão muda de cor, o que lhe é fatal, ao atravessar a estrada. A escolha não
significa sermos livres. O nosso lugar é o lugar do outro. Todos os lados
constituem, e vão gerando criação e construindo, em constante (r)evolução, o
que de cá é também o nosso de lá.
