segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O fogo que te assombra os desejos


Eu tenho medo de andar sobre o fogo.



Os meus pés são de seda e cetim. Não sou tão novo quanto

Os dias de antanho e os meus sonhos soçobraram perante o grito

Das saudades dos que caminham sob a chuva sem casaco.

Sou feliz quando acordo com os pés negros de caminhar

Sobre as cinzas incandescentes, as brasas mornas do tempo por

Parir. Os meus sonhos, sabe-lo bem, são como pedras semeadas

No chão pisado dos caminhos perdidos onde se esperam os

Caprichos vagos da podridão perdida. Nunca os nossos passos se fizeram

Sentir sobre os teus ombros, nos sótãos da consciência vazia. Nunca

Os meus pés caminharam sobre o inferno que te assombra os desejos.

A solidão só apascenta as almas ao emergir do crepúsculo. As ervas daninhas são o seu

Sustento e a sua alegria contida. Nem só de paz vivem os que da luta fazem caminho. Só da

Inação acrescentam ao que não bebe do suor da lavra indelével e crua. Dos lentos

Envolvimentos da luz saem linhas de sombra encobrindo as quimeras do enlameado

Canto das sereias. Apaga-se a claridade dos anjos. Dos apetecíveis manjares do reino

Das cruzes justificando o mal que nos refreia a cruel ilusão da morte. Agora que

Os lamentos de deus se infiltram nos interstícios da penumbra e se instalam

No rude restolhar das fogueiras, que as virgens assomaram às portas escancaradas

Do devir, não contes comigo para caminhar sobre o fogo que as tuas mãos acenderam

No chão das tormentas vadias. Não contes com o meu pavor ao teu afago da pele: da minha pele magoada pelas tuas carícias infundadas.

O meu medo será o teu medo: as excrescências impolutas dos sentidos. O que de raro se incendeia e se ateia aos que nunca foram senão o que nunca foram.

Pássaros gigantes que transportam os mármores devolutos da sombra. Os cantos dos que

Objetam perante o amor. Teimosia breve encarando o tempo das remotas heresias. Das imensas alegrias que o outono acarreta.

Caminhas sobre o incêndio que me devora. O negro que o mar oferece sustenta

As mãos cansadas de te dizer o que a loucura asperge na lentidão das noites.

Cativa, 27.6.2024

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