terça-feira, 28 de agosto de 2007

UM CASACO DE PELES QUE NÃO CHEGOU A SÊ-LO



 


 


            Aí por 1948 realizou-se em Lisboa a Exposição Suíça. Naquele certame podiam ver-se os muitos artigos que os suíços são capazes de fazer apesar da pequenez do seu país, da pobreza do seu solo e da escassez de matérias-primas.


            A Suíça, mesmo falando várias línguas, tendo várias religiões e estando dividida em vários cantões, tem mantido através dos séculos um estatuto externo de neutralidade e interno de paz e prosperidade, graças à actividade do seu Povo.


            Com a realização daquela exposição e doutras semelhantes noutros países, os dirigentes suíços pretendiam expandir a  venda dos seus produtos, nos diversos mercados ávidos de comprar, devido à escassez de manufacturas a que o mundo esteve sujeito entre 1939 e 1945, por motivo da 2ª Guerra Mundial.


            Para o acto inaugural daquela exposição foram convidadas as principais figuras políticas e militares e também da indústria, comércio e agricultura.


             O embaixador e a esposa receberam, como anfitriões, os convidados. Esta envergava um valioso e vistoso casaco comprido de peles, que causou a inveja de todas as senhoras presentes que, por curiosidade, lhe perguntaram de que animal era o seu casaco. Foi com surpresa que ouviram como resposta, que o casaco era feito de peles de toupeiras.


            Entre os convidados contava-se a esposa dum engenheiro algarvio, que tinha sido ministro da agricultura, deputado e membro da administração de diversas empresas e, ainda, abastado proprietário. Uma das suas propriedades situava-se na freguesia de Vila Nova de Cacela, e tinha aí um chalé onde vinha passar uns tempos com a esposa.


             A esposa sabia que naquela propriedade, bem como noutras da região, havia toupeiras e pensou mandar fazer um casaco igual ao da embaixatriz, com peles de toupeira daquela zona.


            Como residia habitualmente em Lisboa, contactou aí uma costureira, que se comprometeu a fazer o dito casaco, precisando para isso de cerca de 1200 peles de toupeira bem curtidas.


             A senhora resolveu levar em frente a ideia de mandar fazer o casaco e, depois de consultar o feitor da propriedade, optou por pagar 3$00 cada pele ou 2$50 por cada toupeira morta mas não esfolada. Este preço foi considerado aliciante, pois calculando que qualquer pessoa munida de uma enxada podia apanhar 7 ou 8 toupeiras por dia, o que dava um salário superior ao dum trabalhador rural, que nessa altura ganhava uns 15$00 por dia.


            O feitor contactou os meios locais de difusão – tabernas, barbeiros e sapateiros – para informarem os seus frequentadores de que, quem pretendesse apanhar toupeiras as podia entregar na propriedade da sua patroa, recebendo ali o preço acima indicado.


            A toupeira é um pequeno animal do tamanho aproximado de um rato, que vive em galerias subterrâneas que escava na terra com as patas dianteiras, que estão devidamente adaptadas para o efeito. Alimenta-se de insectos, vermes e cascas de raízes que encontra nessas mesmas galerias. A sua presença nota-se pelos pequenos montículos que forma à superfície do solo com a terra que retira das galerias, e que empurra para fora sem nunca sair à luz do dia. Por isso também lhes chamam ratos cegos.


            Muitas pessoas da zona, ao tomarem conhecimento do prémio pela apanha de toupeiras, aderiram a essa actividade. As toupeiras que durante milénios viveram, mais ou menos, sossegadas nas suas galerias, viram-se de repente perseguidas e chacinadas para satisfazer um capricho da moda.


            Durante vários dias, dezenas de pessoas percorreram as propriedades da região em procura de montículos de terra, que indicavam a existência de toupeiras e quando os encontravam escavavam com as enxadas as suas galerias até as apanharem.


             Em pouco mais de uma semana, forma apanhadas as cerca de 1200 toupeiras, pelo que acabou a perseguição e as sobreviventes puderam contar com muitos anos de vida sossegada.


            Esta história teve um epílogo frustrante, pois o casaco não chegou a ser confeccionado, porque o curtimento das peles não ficou em condições e a interessada desistiu da ideia com medo do ridículo de novo insucesso.


            Assim, foi em vão o sacrifício de 1200 toupeiras.


 


 


 em, Memórias Escritas de Fernando Gil Cardeira

domingo, 26 de agosto de 2007

Futebol sem Luz


O que O Glorioso precisa é de jogadores com classe, artistas motivados e inteiros.


 


O que O Maior, O Grande, precisa é de um presidente inteligente e discreto.


 


Com estas duas condições até eu como treinador  seria campeão.


 


Mesmo assim, tivemos muita sorte: duas vezes campeões nos últimos 20 anos. Estas duas últimas vitórias verificaram-se sem as condições acima referidas. Só serviram para tapar o Sol com uma peneira. Para confirmar a regra: equipas medíocres, presidentes parolos e incompetentes e treinadores insossos e irrelevantes. Com Camacho teremos mais do mesmo. Sofrimento em vão e ausência de arte e beleza no futebol do maior clube do mundo.


 


Este ano não temos um único jogador genial (posso cometer um erro de avaliação em relação aos jogadores mais novos e a algumas das contratações, que conheço mal - oxalá) e com o presidente que temos será um milagre sermos campeões. No entanto, esta é a minha sina, continuo a acreditar em milagres. Eles não resolvem os problemas profundos, mas a felicidade não existe no eterno. É efémera e esvai-se nos interstícios do tempo.


 


 


 

sábado, 25 de agosto de 2007

Eduardo Prado Coelho

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Conhecia-o de vista na FCSH , da Nova. Era um sucesso entre os alunos ( sobretudo entre as alunas). Infelizmente não pertencia ao corpo docente que tínhamos em Antropologia.


 


Mais tarde tornei-me seu amigo através das crónicas diárias no nosso Público. Como amigos verdadeiros, nem sempre concordávamos.


 


Agora, vou sentir o vazio de uma incompreensível ausência. A ausência do verbo...

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Gigantes eufóricos gritando num copo de água


 


 


Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura vivem disto: tempestades em copos de água! Qual Gargântua e Pantagruel, de Rabelais, inventando as suas próprias aventuras e construindo um caminho que só existe nas suas mentes fantasiosas. Saiam da gruta e enfrentem a realidade. As sombras aconchegam os cérebros mas perpetuam os sonhos.


 


O Alentejo ri! Ri das mãos calejadas da foice que Pacheco esgrimiu no seu passado de comunista. Ri das suas ofensas à autoridade e à propriedade privada nesses tempos conturbados de uma adolescência tardia.

Touros e televisão

Example


 


Enquanto a TVE deixa de transmitir touradas fazendo recuar a barbárie, a RTP promove e transmite a tortura gratuita de animais. No país onde mais aficionados existem, Espanha, esta decisão significa a perda de uma preciosa fatia das audiências. Em Portugal, onde as audiências de touradas são residuais, a "nossa" televisão prossegue no caminho da obscuridade. Porque não transmitem também luta de cães e de galos? Teriam certamente mais audiências. Ou se juntam a "canais televisivos" dos Estados Unidos que  pretendem transmitir os últimos momentos dos condenado à morte?

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Transgénicos e rendimentos agrícolas

Segundo o "Público" de hoje, "o ministro da agricultura avaliou em  3900 euros os prejuízos do agricultor cuja plantação de milho transgénico foi destruída por ambientalistas".


 


Fazendo contas por alto a 49 hectares de colheita isto significará 191 100 (cerca de 20 mil contos) euros de vendas. Nada mau para um pequeno  agricultor atirado para a miséria por...


comentadores e virgens ofendidas. 


 


Certamente que este santo agricultor também fará outras culturas na sua propriedade e então os seus rendimentos ainda serão superiores.


 


Fosga-se ! Eu, que também semeio milho na minha quinta, vou já virar-me para o milho transgénico. Vou também aconselhar os meus vizinhos a seguirem os meus neo procedimentos agrícolas. Assim poderão, finalmente, atirar as suas dívidas para o inferno e passar a ganhar dinheiro, muito dinheiro.

Cavaco e os eufémios


 


Numa homenagem a 200 dos grandes responsáveis pela destruição do ambiente, do património construído, da agricultura, dos costumes e tradições do Algarve, Cavaco repreende veementemente umas dezenas de adolescentes que rebentaram com uns pés de milho.


 


É de concluir que o crime compensa. Bem sei que a maior parte dos homens e mulheres que têm destruído o Algarve já são comendadores, mas condenar um crime menor de desobediência durante esta triste e vil homenagem é passar uma esponja e branquear  a avalanche de crimes que têm sido cometidos no  Algarve com a conivência de autarcas e que, na maior parte dos casos, tem servido para empanturrar diversas contas bancárias.


 


Ir à caça e disparar (com grande denodo e pontaria) sobre o cão serve a quem?

Touradas, transgenia e politicamente correcto


 


Já que estou numa de vândalo, e que tal marcharmos contra a propriedade privada que é a praça de touros de Albufeira na próxima 6ª feira durante a tourada promovida pela RTP para comemorar os seus 50 anos? Esfregar o sangue das bestas ( propriedade privada) nas ventas das zelosas bestas dos administradores da televisão pública. E, já que estamos em maré de transgenia , numa operação de engenharia genética de ponta (desculpem-me o pleonasmo) transferir uns genes de Einstein nas débeis estruturas genéticas dos aficionados.


 


E que tal recusarmos pagar a taxa de televisão enquanto a "televisão de todos nós" colaborar com a tortura de animais ao vivo e para gáudio de outros animais!


 


Eu sou dos que considera a propriedade privada sagrada mas que também considera que existe uma hierarquia do sagrado ( como do profano, aliás) e que, perante a propriedade privada,  a vida, a natureza, a inteligência, a liberdade,  a interpessoalidade , a ética e a dignidade humana se sobrepõem   e elevam.


 


Contra o politicamente correcto, que varreu as mentes virtuosas  e  púdicas deste país a propósito da destruição de um hectare de milho transgénico (que repito não é uma mera questão localizada numa quinta, é uma questão que pode ter repercussões ambientais e sanitárias exógenas mal conhecidas e incontroláveis e que, portanto é uma questão da comunidade onde se insere a plantação), marchemos, pois, contra o bárbaro espectáculo que a RTP vai promover na próxima 6ª feira , em Albufeira.


 


A forma como os animais são tratados num país mostra, como poucas coisas, o grau de desenvolvimento cultural e económico de um país.


 


Nunca esquecendo que Nietzsche enlouqueceu por ver um cocheiro chicotear um cavalo na cidade de Milão, no... século XIX...


 


 


 


 


 


 

domingo, 19 de agosto de 2007

Eu estive lá...


 


Tenho andado distraído em viagens pelo Norte de Portugal e só agora é que descobri que estive em Silves a "vandalizar parte da primeira plantação de milho transgénico no Algarve". Logo no meu Algarve!


 


Às viúvas contristadas (pelo que li nos blogues, imensas) apresento condolências mas outros valores mais altos se alevantam .


 


É ilegal? É!  Mas também correr a pontapé o gajo que tenta roubar a carteira à minha mãe  o é. Deveria apresentar formalmente a queixa às autoridades competentes.


 


Para além dos problemas ambientais e dos incertos impactos na saúde de humanos e outros animais, o que "eles" querem é dominar as sementes. Patenteá-las. Queres semear? Ora paga aqui. Tornar inacessível ao comum dos mortais aquilo, que hoje, é abundante e quase de graça. Colhi uma espiga: uso na alimentação uma parte e resemeio a outra, indefinidamente. Tornar a espiga estéril é o objectivo primordial.


 


PS1 : Como fico emocionado com a possibilidade do Sr. José Meneses vir a morrer à fome, com as suas lágrimas gritantes.


 


PS2 : Como se os meninos e meninas do movimento "Verde Eufémia" (então a senhora não era vermelha?) conseguissem destruir 50 ha de plantação. Conheço bem esta malta e se pisaram 30 pés de milho já foi muito. Eu, por mim solo, arrebentei com um terreiro inteiro de hipócrisia transgénica...


 


PS3: Se no quintal do meu vizinho ocorrem actos que põem a minha segurança em questão, sinto legitimidade para invadir a sua propriedade privada e acabar com a ocorrência. Bush dixit.


 


 

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Alf@







A apanha da alfarroba é, tradicionalmente, uma actividade verdadeiramente científica: 1º- Uma equipa raspa e limpa o terreno por debaixo da copa das árvores, 2º- A mesma equipa procede ao varejamento das árvores (estas duas tarefas são feitas por homens), 3º - Finalmente uma equipa de mulheres procede à apanha e ao ensacamento.

Cada vez mais se deixam ficar as alfarrobas nas árvores e no chão. O trabalho é duro, moroso e cada vez compensa menos. A concorrência dos países do Magreb está a deixar os agricultores à beira do desespero. A alfarroba,  que ainda há pouco era vista como a possível saída para os agricultores, e muitos investiram em novos pomares no últimos anos, está também a tornar-se um pesadelo para os camponeses algarvios. Não precisando de regas, de adubos químicos ( a própria árvore se auto fertiliza com a queda constante das folhas), de pesticidas, fungicidas e outros  cidas " , beneficiando do aumento da procura nos mercados internacionais (chocolates, rações, produtos alimentares e medicamentos) a alfarroba era vista como o verdadeiro maná da agricultura do Algarve. Só que a procura crescente abriu o apetite a outros produtores internacionais com uma mão-de-obra baratíssima com a qual não podemos concorrer.


 


Hoje passei a tarde a varejar e a apanha alfarrobas. Nada de cientificidade que a equipa era eu próprio e mais ninguém. Eu varejei, eu apanhei, eu ensaquei e eu transportei para casa. Escusado será de dizer que ninguém raspou nem limpou, previamente os solos, o que me valeu dedos e mãos arranhados e a sangrar nas inúmeras plantas espinhosas que abundam sob as copas das frondosas árvores. Sobretudo as terríveis espargueiras , que rasgam a pele ao menor descuido.


 


Valeu a pena? Bom, do ponto de vista económico, não muito. Pelas minhas contas por alto apanhei 8 arrobas o que, a 5 euros a arroba, dará 40 euros em 4 horas. Portanto 10 euros à hora. Isto tendo em conta as arranhadelas, o calor, os mosquitos, a sede (esqueci-me de levar água e estava bem distante de qualquer abastecimento), as cabeçadas nos troncos, o risco corrido ao trepar  à árvore para varejar lá no alto e ao belíssimo dia de férias que deixei de gozar.


 


Valeu a pena,  pelo silêncio e pelas horas de reflexão. Pelo enfrentamento comigo mesmo ( a paisagem envolvente com a ribeira do Almargem a serpentear e a entrar na Ria Formosa, ajudou certamente bastante). No entanto, eu ateu, cheguei a casa parecendo consolado com o sofrimento cilicial ” do cristão que se encontra a si mesmo quando experimenta o sofrimento e a tortura auto infligida.




quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Anjos e Demónios



O melhor do mundo são as crianças, como dizia Pessoa.

Quando chegam a grandinhos é que as coisas se complicam...



Ser ou não ser eis a questão...

filhas  da puta ou não!

sábado, 11 de agosto de 2007

Jornalismo a martelo

Hoje no Jornal da Tarde da RTP três pérolas na mesma peça. A propósito de um jogo do Barcelona contra uma equipa de Hong Kong: "....o Barcelona ainda lhes pôs os olhos mais em bico..., ... ficaram com um sorriso amarelo..." e, a propósito da exibição de Eto'o , jogador africano do Barcelona, "... uma lança na ... Ásia..."

Eu sei que é jornalismo desportivo e, em Portugal, não é para ser levado a sério mas, como dizia o outro, haja topete!

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Um Alibi Perfeito

Quando me encarregaram do caso, incidi as primeiras suspeitas sobre mim próprio. Incrível!, disseram os jornalistas. Só quando provei que estava em Honolulu, no dia do horrendo crime que se tinha perpetrado nas longínquas areias do Algarve, fiquei descansado e encaminhei as engrenagens  na direcção de outras linhas de investigação.

Fantástico !!!!!!, aprovaram os jornalistas (sobretudo os dos directos televisivos).

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

As melhores praias do mundo



A minha casa fica a 2 quilómetros das melhores praias do mundo. Mesmo em Agosto, tenho um imenso areal quase só para mim. O futuro é que não me parece radioso, quando olho para Norte vejo-os devorando a paisagem, animais insaciáveis às ordens de predadores sedentos. Gigantes em terras liliputianas, os guindastes assinalam os PIN da nossa vergonha. Vivam os resorts, os SPAs , o golfe sem fim, as marinas amigas do ambiente, os hotéis de 7 estrelas, as ilhas artificiais, que o futuro é já ali e o presente não existe.

A minha casa fica à beira das ilhas da minha infância. Prometem o paraíso mas eu sei que ele desapareceu quando destruíram a minha aldeia cobrindo-a com um sujo cogumelo de betão. Esse paraíso resiste e habita nas mentes dos que sobreviveram à destruição das suas aldeias, vilas e cidades. Poucos, mas eternos. Tristes, mas inteiros e livres.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Torneio do Guadiana


 


Lá estive, religiosamente (literalmente), no Torneio do Guadiana. Bilhete único para os três jogos mesmo para quem só pretendia ver um, o que era o meu caso. Bom reconheçamos, há maneiras bem mais feias de roubar e esta até é legitíma,  na medida em que não conflitua com a lei.


 


1º Jogo,  Glorioso - Bétis: só se viu em campo uma equipa. Infelizmente a andaluza.


 


2º Jogo,  Glorioso - scP: primeira parte equilibrada, 2ª parte com domínio dos esverdeados e apagamento entorpecedor  dos Nossos. Um amigo meu, doente em estado catatónico(?), mais fanático,  pelo Inominável, O Grande,  que o Ben Laden, dizia-me antes do jogo que preferia que os lagartos ganhassem. Assim extirpava-se o mal pela raíz e bem no início da època: o engenheiro ia de patins.


 


A mesma falta de entrega dos anos anteriores, a mesma anarquia posicional dos jogadores, a caracolenta  e desordenada passagem defesa ataque, os passes para o adversário, a mesma falta de classe e brio de alguns jogadores... mais do mesmo.


 


Porque repõe Quim a bola em jogo chutando sistemáticamente a bola para o campo do adversário? Ordens do engenheiro? Se não são porque não o impede? Porque coloca Berguessio numa extrema quando o homem corre menos do que eu? E, agora um assunto verdadeiramente doloroso para a "massa associativa" e para os "beatos", porque continua a jogar Mantorras? Eu sei que o Garrincha era aleijado e que era esse seu defeito congénito que lhe dava um driblar de génio, mas dói ver correr Mantorras. O homem é de uma entrega que tomara a muitos que por lá vegetam mas, como eu não posso competir em cima de duas rodas com o Martin Garrido (não sabem quem é? Cultivem-se! Vai uma pista. É só o homem mais conhecido da minha terra),  não pode estar num mundo altamente competitivo, como é o futebol hoje, com um joelho naquele estado. Mesmo o anjo Garrincha não teria, certamente,  muitas hipóteses no físico futebol dos nossos dias. Bem sei que em terra de cegos quem tem um olho é rei e Mantorras parece, às vezes,  rei num plantel de ceguinhos. Bem sei que o jogador e invendível. Não passaria os testes médicos em nenhum clube do mundo! Algo de muito estranho se passa no "caso Mantorras". Penso mesmo que se trata de um caso de polícia. Um caso para o Procurador  mostrar interesse...

domingo, 5 de agosto de 2007

BREVE HISTÓRIA DO CINEMA DE CACELA E DO MAGO QUE FEZ PARAR A CHUVA

 


            Entre 1945 e 1948 havia todos os Domingos sessões de cinema em Vila Nova de Cacela.


            Estas sessões realizavam-se numa sala do rés-do-chão duma antiga fábrica de moagem desactivada e que foi adoptada para o efeito.


            Durante parte da semana eram afixados, junto da loja do João Trindade, os “quadros” com imagens do filme e também ali se podiam marcar lugar e comprar bilhetes. Também todos os Domingos à tarde era posta a funcionar uma aparelhagem sonora, através da qual se publicitava o filme a exibir e se emitia música, destacando-se um célebre swing ” que, passados mais de 50 anos,  ainda é transmitido com frequência por diversas estações de rádio.


            Cerca de meia hora antes do início das sessões começava, no próprio cinema, a venda dos bilhetes sobrantes e a admissão dos espectadores. Havia duas categorias de bilhetes, os mais baratos eram os da parte da frente e os mais caros, na parte de trás.


            Nos lugares mais caros instalavam-se as elites de Cacela, constituídas pela famílias Antunes, Cristos, Dragos , Rosas, Tamissas , Trindades e Tengarrinhas . Nos restantes lugares ficavam as camadas populares,


            Quando os filmes eram portugueses também costumava assistir o padre Brito, acompanhado da sua sobrinha. Este padre era o dono da fábrica de moagem e foi ele que a mandou adaptar a cinema e era um dos seus sobrinhos que fazia a projecção dos filmes.


            Ele não tinha paróquia e por vezes lamentava-se porque o padre Terramoto, da paróquia de Cacela, não lhe dispensava nenhuma missa para ele assim ganhar alguns escudos.


            A sua assistência aos filmes portugueses, acompanhado da sobrinha, devia-se ao facto de ela, apesar de jovem e aparentemente perfeita, ser completamente invisual. Assim, embora não visse as imagens, ouvia a linguagem dos artistas.


            Nesse tempo predominavam os filmes americanos de guerra, de amor e de cowboys. Os astros estrangeiros mais apreciados eram Clark Gable , Charles Chaplin , Errol Flynn , Humphrey Bogart , Spencer Tracy e Trone Power ; as estrelas estrangeiras mais queridas eram Bette Davis, Deborah Keer, Ingrid Bergman, Lauren Bacal, Mauren D`Hora, Olívia de Havyland e Vivien Leyg.


            Nos artistas portugueses destacavam-se Beatriz Costa, Hermínia Silva, Maria Matos, Amália Rodrigues, Milu, António Silva, João Vilaret, Vasco Santana e Vergílio Teixeira.


            Entre os melhores realizadores estrangeiros contavam-se Antonioni, Edmundo Lewis, Jonh Huston e Michael Curtis e entre os portugueses António Lopes Ribeiro e Leitão de Barros.


            Nessa altura Cacela não era abastecida de energia eléctrica e a iluminação pública era feita por candeeiros a petróleo. Para fazer cinema era necessário um gerador que, accionado por um pequeno motor a gasolina, fornecia a electricidade para iluminar a sala e para fazer funcionar a máquina de projecção.


            Durante as sessões notava-se sempre o barulho de assistentes, que liam as legendas para companheiros analfabetos.


            Os filmes de então eram muito recatados no aspecto moral, por isso ser prática a nível mundial e também devido à férrea censura a que o governo português os submetia. As estrelas não usavam saias acima do joelho e tanto os vestidos como a blusas eram de manga ou meia-manga, só os decotes é que por vezes eram generosos, mostrando uma pequena parte dos seios. Nunca os artistas, quer femininos, quer masculinos se despiam para fazer amor. Mesmo em cenas de praia os fatos de banho para homem eram sempre inteiros e com alças e os das senhoras semelhantes, mas de corte direito em baixo, tapando inteiramente as ancas. As cenas de amor não iam além de apertos de mão, abraços e beijos fugazes e simples. Para se chegar aos beijos havia uma encenação prévia, geralmente acompanhada e música, que preparava a assistência para o evento. Quando a cena do beijo demorava, alguns espectadores mais atrevidos gritavam. Atira-te a ela ou frases semelhantes. Quando os beijos se concretizavam havia sussurros e assobios de aprovação da parte de alguns assistentes.


            Por vezes a sessão era interrompida porque a fita se partia. Após este acontecimento havia protestos dos que afirmavam que, ao fazer a colagem, tinham encurtado mais do que o necessário o tamanho da fita.


            Em 1946 foram utilizados os meios publicitários do cinema, para anunciar uma sessão inteiramente preenchida com a actuação de um ilusionista.


            Nessa noite o tempo estava chuvoso, mas mesmo assim a sala esgotou.


            O ilusionista intitulava-se Conde de Aguillar e apareceu no palco de chapéu alto e vestido de casaca preta, calças de fantasia, camisa branca e papilon; a sua ajudante envergava um vestido de cetim vermelho com lantejoulas. O seu repertório era vasto e, com habilidade notável, o artista, com a colaboração da ajudante, fazia desaparecer vários objectos, que de seguida fazia aparecer com a sua magia.


            A assistência seguia com interesse a sua actuação, quando, para surpresa de todos, o Conde Aguillar interrompeu o seu trabalho e interpelou um assistente, que estava no meio da plateia com um guarda-chuva aberto. O artista perguntou-lhe qual o motivo de tão estranho procedimento, tendo aquele dito que o fazia porque chovia no local onde se sentava. Face a esta afirmação o prestidigitador falou para a assistência dizendo que tinha trabalhado em Bruxelas, Londres, Lisboa, Madrid, Roma e muitas outras cidades e era a primeira vez que via um espectador com um guarda-chuva aberto. Depois pediu-lhe para o fechar que faria um golpe de magia para a chuva parar. O visado obedeceu e o espectáculo prosseguiu o seu curso e terminou com o truque número um do seu repertório que consistia em fazer desaparecer uma pequena gaiola de arame com um canário.


            O espectador atingido pela chuva era o Dr. Campos Palermo, proprietário da farmácia local e não sei se depois de fechar o guarda-chuva ainda apanhou alguns pingos, ou se mudou de lugar. Só sei que assistiu ao espectáculo até ao fim sem se queixar.


            Cerca de 1950, o padre Brito vendeu o cinema e os novos proprietários continuaram com os mesmos espectáculos, mas, passados alguns anos, não resistiram à concorrência da televisão e o cinema fechou as suas portas para sempre.


 


Em, Memórias Escritas, de Fernando Gil Cardeira.


           


 


 


 

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Memórias Escritas de Fernando Gil Cardeira

Como não será difícil de perceber este homem é o meu pai. Como também será fácil de perceber, este foi o homem que mais amei na minha vida (os meus filhos, que eu amo tanto quanto o amo a ele, são ainda crianças). Quando ele nos "deixou" eu passei a transportar a sua alma e passámos a ser um só no mesmo corpo. É bom estar sempre com ele e as parecenças físicas entre ambos ( a acentuar-se com a idade) fazem-me sentir que sou ele nunca deixando de ser eu.


 


Como a inspiração  tem andado arredia vou começar a partilhar convosco algumas das extraordinárias histórias que o meu pai deixou para todos e que estão recolhidas no livro "Memórias Escritas"  que relatam cruzamentos de vidas que se foram enredando, fundindo e chocando, por meados do século XX  nas velhas  terras de Cacela, Conceição, Cabanas, Tavira e outras.


 


Hoje deixo-vos uma pequena biografia com os defeitos que têm testemunhos intensamente apaixonados. Retirem o excesso de ...


 


 


Nasceu na povoação de Cabanas de Tavira em 1926, à beira da ria. Ainda criança mudou-se  para o barrocal da freguesia de Conceição de Tavira onde se fez homem. Terceiro filho de uma família de agricultores/rendeiros não segue a vida dura dos trabalhos do campo devido a uma poliomielite contraída nos primeiros anos de vida, que lhe afectará significativamente uma perna até ao fim da vida.


Concluída brilhantemente a instrução primária, e não tendo a família condições económicas para lhe proporcionar a continuação dos estudos, inicia-se, nos primórdios dos anos 40, como aprendiz de alfaiate em Tavira. Mais tarde estabelece-se por conta própria na Venda Nova, em Vila Nova de Cacela, mudando-se depois para Lisboa  para trabalhar no mesmo ofício.


Na grande cidade toma contacto com as lutas operárias contra o regime fascista e conhece a brutalidade da máquina repressiva do Estado Novo. Jovem idealista, imbuído do espírito de liberdade e justiça, abraça as causas da oposição ao regime e os valores do socialismo democrático.


Volta ao Algarve e instala-se como comerciante na povoação de Conceição de Tavira, na sua rua principal, a própria estrada nacional 125. Primeiro como vendedor de rádios e depois como comerciante de fazendas e miudezas associadas. Percorre ainda uma vez por semana, num carro de mula (por acaso puxado por um macho), algumas povoações vizinhas vendendo os seus artigos. Casa com Maria Rita da Conceição Baptista e tem dois filhos varões.


 Em Conceição, local privilegiado, encruzilhada de caminhos e vidas, observa, participa, interessa-se, e discute as mudanças na sua região, no país e no mundo. Continua a sua luta contra o regime fascista organizando a participação da oposição local nas eleições, ajudando gente perseguida a passar para Espanha, distribuindo livros clandestinos, intervindo em comícios, ajudando camaradas presos, etc , etc . Será por isso muitas vezes incomodado e intimidado pela polícia política PIDE/DGS. Não desiste porém da sua luta pela democracia.


É durante décadas correspondente do jornal Diário Popular onde escreve regularmente artigos sobre o Sotavento Algarvio. A par disto vai escrevendo e anotando por tudo o que sejam papéis apontamentos sobre a vida e a história das gentes locais.


A Revolução de  25 de Abril de 1974 enche-o de alegria e empenha-se entusiasmado na implementação do regime democrático. Nesses tempos conturbados é presidente da Junta de Freguesia de Conceição de Tavira e durante anos deputado na Assembleia Municipal de Tavira.


O bichinho da escrita e da investigação etno-histórica vai-se tornado cada vez mais forte em detrimento da actividade política e é nesta área que investe os últimos anos da sua vida. Participa em congressos, em palestras, em programas de rádio, escreve compulsivamente para jornais, participa em livros colectivos, etc , etc . Chega mesmo, depois de reformado, a montar um escritório aberto para a rua onde recebe os amigos e outras pessoas para conversar durante o dia. À noite dedica-se à escrita.


Morre no dia 29 de Janeiro de 1999 de complicações cardio-respiratórias com tanto ainda por fazer…


Postumamente é editado pela família o livro “Memórias Escritas” que retrata vidas simples e extraordinárias, que nos transportam a um mundo antigo que se esvai mas que nos falam  de esperança e lançam sementes no futuro complexo que nos espera. São uma pequena amostra do seu labor. Muito mais há para publicar. Como o poeta, assim se foi da morte libertando…


 

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

O Algarve, país das maravilhas...

"O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem: estendem conscienciosamente as toalhas na serradura da areia, protegem-se com óculos escuros do Sol de papel, passeiam encantados no palco de Albufeira em que funcionários públicos, disfarçados de hippies de carnaval, lhes impingem, acocorados no chão, colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo, e acabam por ancorar ao fim da tarde em esplanadas postiças, onde servem bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas da televisão. Depois do Alentejo, evaporado na paisagem horizontal como manteiga numa fatia queimada,, as chaminés que se diriam construídas de cola e paus de fósforos por asilados habilidosos, e as ondas que se diluem sem ruído na praia do croché manso da espuma, faziam-no sempre sentir-se como os bonecos de açúcar nos bolos da noiva, habitante espantado de um mundo de trouxas de ovos e de croquetes espetados em palitos, a imitar casas e ruas...

"O Conhecimento do Inferno", António Lobo Antunes.

Blogue à beira de um ataque de nervos.



Filho adolescente no Festival do Sudoeste. Cinco dias de desassossego.

E não é que o pai foi dos tais que passou pelo mítico Vilar de Mouros? A setecentos quilómetros de casa e, vejam só, sem telemóvel.

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...