quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Prémio Cativa VII


 


Normalmente atribuído a gentes que se destacam no campo das artes, este ano o Prémio Cativa vai para o ciclista Rui Costa. Vencedor de duas etapas na Volta à França, vencedor da Volta à Suiça, pela segunda vez consecutiva, e campeão do mundo de estrada, contribuiu para dar alguma alegria ao povo portugês em tempos de profunda crise. Nestes dias sombrios e difíceis, com humildade e simplicidade, sem divisionismos, trouxe-nos sorrisos e alegrias que iluminaram as sombras...

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

da série uma fábula com moral implícita


 


Hei, you, gritou o cão. Aquele bonacheirão de cor de pêssego a quem tinha saído o euromilhões.
Do outro lado da rua, a galinha que perdera um olho na guerra olhou-o franzindo o sobrolho.
O que é que se passa?, condescendeu cedendo à simpatia.
Queres fazer-me um broche?, atirou o outro sem constrangimentos.
Não fosse a arrogância com que o perguntas e o desconhecimento que nos separa, e responder-te-ia que com o bico que me dá brilho às faces poderia ser perigoso executar tal desejo. Assim, só poderei, e digo isto com toda a sinceridade, mandar-te tomar no cu.
Dito isto, continuou o seu caminho, bico apontado ao futuro e dois dedos fora dos sapatos.
Foda-se, ganiu o canídeo, já ninguém respeita o dinheiro. E ainda dizem que é o sistema capitalista o principal responsável pela crise. “Tomar no cu”, repetiu baixinho, “tomar no cu”, quem não tem o dito não o devia invocar. A cloaca não dá tesão. Irei gastar o meu pecúlio para outras paragens onde a simpatia me possa dar dividendos. Depois não se queixem da fuga de capitais.
E lá foi, debaixo do céu que o alumiava.

M. Gordo 19/12/13

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

não creio em silêncios


 




Não creio em silêncios


crus, em conversas iluminadas


calçando a brutalidade dos


parágrafos cadastrados.


Não creio nas palavras grávidas


atiradas aos pesadelos


dos interlocutores,


não posso convidar quem parte


a loiça de minha casa


e amola lâminas


no fundo da consciência


solúvel, na poeira dos


caminhos.


 


Aceito o desafio das cordas


envoltas em arame farpado,


golpeando as sombras, as


fímbrias dos edifícios


castrados, a limpidez


dos corpos omissos fedendo


a cadáver exibido nas


cerimónias panegíricas


 


latindo na agonia dos


políticos imberbes


e escorregadios


que as noites abreviam


no sôfrego espetáculo


das multidões corruptas,


envenenando o cemitério


das idiossincrasias


incandescentes.


 


Não creio nos sonhos


Que se erguem da noite


Perpétua.


 


M. Gordo 5/12/13

sábado, 14 de dezembro de 2013

umbigo ímpio


Lutando contra os elementos. Andrajoso mas sempre em pé....


 


Como estás mudada, disse-me o vizinho enquanto se regalava com a visão ímpia do meu umbigo.
Rastejei na planície do fogo, atropelando as respostas que a denúncia do peixe anunciavam, interpelando de chofre o cão sem pulgas internado há séculos no manicómio dos gritos impossíveis.
Onde estavas quando precisei de ti, quando o vento soprou do quadrante das sensações inúteis?
O vizinho voltou à carga:
- Como te sentes antes de entrar no corredor sombrio que leva ao coração?
Fiz-me desentendida e tricotei, compulsivamente, uma camisola de lã de minotauro. Senti-me lâmina rasgando a noite, poeta partilhando o sangue corrompido, fábrica de invernos indisponíveis.
Não encontrei ninguém que gritasse a tristeza das palavras cruxificadas em páginas amarelecidas, ninguém que se mostrasse triste com a ausência honesta e fria das catacumbas. Deixo-me ficar no porto à espera de um navio fantasma. Era o dia das oito espadas cindirem o que restava do país lamacento, das cobras, o dia da emergência do mal, dos desejos iniciais.
Quando o primeiro navio se aproximou do cais onde adormeci exausta, um peixe, vindo do fundo das trevas do abismo, de cabeleira ensanguentada, escorrendo pus viral, assomou à tona das águas e disse-me olá.
Acordei estremunhada e sorri. Quando regressou às profundezas do mar azul, pareceu-me ver nele o meu vizinho acenando à castidade efémera do desejo.
M. Gordo 10/11/13

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

últimos - página do dia 6


 


"últimos"

Página do dia:

Na rua, uma aragem fresca varria as ruas antigas, os transeuntes que as ousavam sulcar nos primórdios da noite derradeira. Como navalha riscando a pedra. O alcatrão amarelecia à luz fosca dos candeeiros generosos, acolhendo as sombras no vazio da viagem. Atravessamos o Largo da Misericórdia e dirigimo-nos, autómatos na noite incompleta, para o tasco da memória antiga. O Estádio estava, àquela hora incomum, com dois ou três clientes dispersos pelas mesas de sempre. Dispersos pela vida de nunca. Bebemos dois medronhos ao balão e zarpamos, regressamos à luz que amarelece. Pouco faláramos até aqui. Nem uma palavra sobre a tragédia que nos levara um ao outro. Ao reconfortável silêncio dos dias de antanho.
Penetramos no Bairro Alto à antiga. Como o fizéramos sempre. O álcool a latejar nos pensamentos. Felizes e ausentes da realidade. Com a certeza de que não encontraríamos ninguém. Ninguém conhecido como nos tempos da Faculdade. Nesses tempo gloriosos, sobretudo aos sábados, nas ruas, nos bares, nas discotecas, nas tascas, a noite era um templo onde os amigos festejavam a juventude e a loucura. Tropeçávamos em gente conhecida a cada esquina, a cada soluço do tempo. Escorriam as horas em conversas intermináveis, abraços e risos interrompiam a noite e estabeleciam ritos e rituais de aproximação à eternidade. Éramos infinitos e sentíamos o todo como partículas integrantes da imensidão do cosmos. Nas noites intermináveis fortaleciam-se laços de amizade para sempre, procurávamo-nos ansiosamente. A nós e ao outro para sedimentar a identidade do futuro. O sexo era um pretexto para amar. Nada se interpunha entre a alegria e a tristeza. Nestes tempos pré SIDA, a sexualidade impunha os ritmos à vida e a efemeridade dos sentimentos parecia não contender com a força de ir ao encontro das realidades por inventar. Sex and drogs and rock n rol. O que não entendíamos era o que nos moldava a sagacidade da rebeldia. Até ao fim das madrugadas, as dúvidas e os impossíveis fundiam-se numa massa fluída e difusa morna e adocicada, qual sopa genética inicial, penetrando os corpos enlameados e sem fronteiras. Noites paralelas ao mundo que bramia lá fora, enquanto o resto, que era maior do que o todo, medrava silenciosamente nos interstícios do dever. A dança. Ah! A dança! Expulsava os demónios e os deuses e, contaminando o desassossego do conhecido e previsível, fazia emergir do nada um novo sagrado a cada palavra. A cada gesto. O gesto que veio, ainda antes, do verbo. Hierofanias volúveis e sincréticas recriando a formação do mundo. O mundo em si mesmo, uno e diverso como o vazio das tempestades. Todos éramos deuses e não sabíamos. O que para trás ficava, para trás sedimentava nas profundezas dos socalcos do esquecimento. A música amparava o que não tinha sustentabilidade, era a continuidade do nós. Proibido proibir, façam amor não a guerra, no nukes, sea sun and sex, amor livre, maios e depois abris. Um plasma majestoso inebriando as valetas nauseabundas da sociedade, as paredes sensíveis da cultura revelada e infecta.
Agora, desconhecidos num mundo estranho, penetramos o tempo injetando de melancolia a noite. Libertos pelo álcool e pela dor – pelo reverberar dos tremores da alma -, avançamos pelo silêncio do passado. Dos muros antigos, da cal escalavrada, da argamassa exausta deslizam monstros tenebrosos, figuras emergentes das sombras, dos desfiladeiros inóspitos do amor e do ódio, da raiva, envolvendo os transeuntes e conduzindo os seus passos. Arrastando-os na nebulosidade da luz noturna. Ninguém escapará aos demónios da noite, as consciências rastejantes avançarão na lama do devir, sinuosas e uivantes, as cavernas hiantes abocanharão os incautos e os crentes: as peripécias que o sonho comporta se a agonia refrear os impulsos do coração contrafeito. Viajamos no passado, percorrendo o futuro por cumprir. As memórias são, agora, correntes ascendentes ao encontro do delírio. Disforme, enleia factos e fantasias.Tudo não passará de uma construção de realidades pré-cartesianas. Nada existe para lá do sonho. Voltamos atrás, ou melhor, tentamos voltar atrás, percorrendo caminhos de antanho. Pisados por outros pés desenhando as mesmas pegadas no pó rarefeito. Mas o que procuramos não nos espera onde seria expectável. Há locais que desapareceram na voraz fabricação do tempo. Outros, julgando vencer a compressão do que existiu no condomínio de mentes paralelas, ainda exibem vestígios do passado entranhado no esquecimento. A nossa demanda confunde-se com uma arqueologia dos sonhos, uma procura no infinito da frase. Por cada socalco que atinges, novo abismo se abre. O nevoeiro que vem e tudo cobre, faz-te voltar atrás. Não entendes um degrau quando a escada se estende pela lonjura da memória, sem pontos de referência onde te apoies. Se fosse possível atravessar a densidade das memórias, os destroços espalhados pelo caminho, constataríamos que o mundo conhecido de uma vida contém todo o passado da humanidade, sendo que esse passado seria, sem dúvida nenhuma, o cosmos que tudo comporta e manipula.
Entramos no Arroz Doce.

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...