segunda-feira, 23 de março de 2026

Nómadas versus Sedentários

 Não deixa de ser irónico que os melhores tapetes, símbolo maior, ainda que a cama, ainda que o hodierno sofá, do sedentarismo, do ficar por casa, sejam confecionados e usados, preferencialmente, pelos nómadas do deserto.

terça-feira, 10 de março de 2026

Um estudo recente como todos os estudos


Um estudo recente, no país do costume, contabilizou
Quatro mil duzentos e setenta e três poetas,
Pesquisa que nunca revelou os seus insondáveis
Métodos ou amostras, por esotérica
Sustentabilidade, avançou, ainda, com um número
De leitores de poesia que se aproximaria
Dos dois mil e treze. Destas duas mil e treze estranhas
criaturas, mil e trinta e duas nunca em tempo
algum escrevera um verso.
A dar o referido estudo como idóneo, perdão, sério!,
E exemplificativo da realidade nesse país, e nada me indica o contrário,
(era uma vez um país de poetas tal como O Burkina Fasso, o Canadá, a Tailândia ou o longínquo e feliz Butão, onde reinava um poeta-Mor entre súbditos fiéis heterónimos de Si mesmo)
4273
- 2013
= 2260
+ 1032
= porra para a matemática que já fiz e refiz as contas vezes sem conta, dizia, 3292 poetas não leem poesia.
Escrevem sem ler versos.
Meus caros poetas, leitores de poesia
Que não são poetas e poetas que não são leitores de poesia,
E poetas que não são leitores de nada,
E, ainda, gentes que nada lê, que esses são todos
Os seres que, como Diógenes, seguem
A luz que transportam, não vos admireis
Desta desajustada ocorrência: eu próprio, poeta aclamado e medalhado,
Por certos e incertos, só leio romances.
O romance comporta tudo! A escrita e a vida, a realidade e a fantasia.
E a morte. Nada exclui ou estigmatiza. A contrário da poesia
Que se arroja a representar a palavra eleita.
Sublime e divinal.
P.S. Por impossibilidade na abordagem estatística aos poetas que nunca escreveram um verso, estes não são referidos neste estudo. No entanto, sabendo nós, de verdade verdadinha, que cerca de 10% dos poetas está nesta condição, isto viria a acrescentar ao número de poetas uns 427. O que, digamos de passagem, ainda é um número significativo de poetas. Destes, é claro, nunca saberemos se lerão poesia ou não. Alguns, e talvez dos melhores, nem saberão ler.
PS1. É também uma verdade que os cães mijam aos postes dos candeeiros da rua e que estes não foram feitos para isso.

António Lobo Antunes e a monografia Assimetrias Numa Freguesia do Sotavento Algarvio

 É com este excerto que se inicia a minha monografia do seminário final do curso de Antropologia "Assimetrias numa Freguesia do Sotavento Algarvio". A freguesia era a que já não existe, o que era já adivinhado na dita monografia, e minha freguesia de nascimento, da Conceição de Tavira. Já agora, que ninguém pergunta, obteve a classificação de 18 valores. 19 seria para "o mais velho" Mesquitela Lima, 20 para o deus Lévi-Strauss, dizia-se. Por acaso o responsável pela minha ida para Antropologia, após a leitura desse monumento literário Tristes Trópicos.

"O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem: estendem conscienciosamente as toalhas na serradura da areia, protegem-se com óculos escuros do sol de papel, passeiam encantados no palco de Albufeira em que funcionários públicos, disfarçados de hippies de carnaval, lhes impingem, acocorados no chão, colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo, e acabam por ancorar ao fim da tarde em esplanadas postiças, onde servem bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas de televisão. Depois do Alentejo, evaporado na paisagem horizontal como manteiga numa fatia queimada, as chaminés que se diriam construídas de cola e paus de fósforo por asilados habilidosos, e as ondas que se diluem sem ruído na praia no crochet manso da espuma, faziam-no sempre sentir-se como os bonecos de açúcar nos bolos de noiva, habitante espantado de um mundo de trouxas de ovos e de croquetes espetados em palitos, a imitar casas e ruas [...]"
António Lobo Antunes, O Conhecimento do Inferno (1980), Publicações Dom Quixote

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...