quinta-feira, 29 de julho de 2010
na idade de um senhor que não dorme
segunda-feira, 26 de julho de 2010
saudades inadiáveis
Estas fotografias têm 27 (?) anos. Uma banda em pleno ensaio no estúdio do Ramiro na Amadora. Não faço ideia de quem as tirou. Chegaram-me ao mail pelo baixista da banda. Uma banda que podia ( e de qualquer forma fez) ter feito história. Os Kubrir. Podemos ver nas fotografias o baterista Dadinho, os guitarristas e vozes Domingos e Rui, o baixista Pedro e o, enorme, viola solo Miguel. Lamentavelmente não aparecem dois elementos da banda. O teclista Eurico e o lendário vocalista e líder da banda que agora não me ocorre o nome.
Saudades inadiáveis de dias sem tempo.
terça-feira, 20 de julho de 2010
UGH
alguns médicos aconselham a respirar fundo todas as pessoas que se sintam vivas. depois de “revolução ontem”, sai amanhã “utopia agora”; no fim-de-semana terminará a trilogia com o volume “os abutres também dançam”. poeta morre acidentalmente afogado em questões de estética após ter escrito um decassílabo sem querer. certos índices aumentaram mas outros continuam a descer, enquanto as percentagens, pouco sujeitas a este tipo de flutuações, continuam relativamente estáveis. o conselho reuniu de urgência, certas medidas foram tomadas e os resultados serão revelados assim que for possível. o caso está a chocar as autoridades e as pessoas mais tristes. quem estiver farto que se atire. corroboro disse ele, mesmo antes da sobremesa.
João Bentes, em "Agonia.
(um outro escritor - fora de jogo - da ria)
sexta-feira, 16 de julho de 2010
quinta-feira, 15 de julho de 2010
um poeta na praia com um grupo de trissexuais
Ser editor de um poeta é complicado. Ser editor e amigo de um poeta bêbado, decadente e irresponsável é o inferno. Um inferno fascinante, mas um inferno. O meu amigo Rui Dias Simão é um dos maiores poetas portugueses vivos. No entanto parece constantemente querer desmentir-me: deixar de estar vivo.
Hoje tínhamos combinado ir ao lançamento do livro do Fernando Esteves Pinto, amigo comum, à Biblioteca Municipal de Olhão. Aproveitaríamos para distribuir a alguns amigos o último livro do Rui e das edições CATIVA, Poemas do Banco de Trás. Cheguei a sua casa, kantianamente, à hora combinada. Depois de muito insistir com a campainha, resolvi telefonar-lhe. Atendeu, com uma voz arrastada de bebedeira de três dias, da praia." É pá desculpa lá mas estou aqui na praia com um grupo de trissexuais".
domingo, 11 de julho de 2010
santos da casa ... fazem milagres
Extraordinário espetáculo de video, poesia, música, teatro e performance. Organização de Vítor Correia e Armação do Artista. No magnífico jardim do Convento de S. Francisco. Quem não foi esta noite, tem a repetição na próxima noite. Dia 12 pelas 21 e 30. Imperdível, o meu amigo Vítor Correia, contra ventos e marés (o nome da performance não é inócuo), no seu melhor. E só com prata da casa...
Bem, a acrescentar, e tornando a noite quase perfeita, ou mesmo perfeita, estavas tu a meu lado...
quarta-feira, 7 de julho de 2010
uma mulher disponível
Não tinha pensado nisso. A avenida estendia-se, rude e crua, até ao fim do mundo. Alguns candeeiros iluminavam o nevoeiro morno do Levante. As minhas pernas pareciam moles e frouxas, caminhava cambaleando no alcatrão esponjoso. Nunca tinha pensado nisso: bebia para ocultar a timidez.
Àquela hora da madrugada irresponsável, o calor mantinha-se à superfície das coisas. O ar irrespirável alimentava as insónias dos entes há muito retirados nos leitos burgueses. Nos lençóis encharcados de lama pestilenta. O maléfico soprar das aragens desérticas destrambelhava as mentes sóbrias.
Avanço ao encontro da imensidão da noite. A experiência diz-me que no fundo da avenida, junto ao porto, um bar ilumina as trevas. É o último reduto da loucura ambulante antes do Sol misturar tudo na intensa luz do Levante.
Aquele homem que percorre lentamente a borda da Ria é um poeta. Como todos os poetas procura a embriaguez do abismo profundo e inatingível. Generoso e sem retorno. É uma caminhada dolorosa e sem destino que engole o próprio caminhante. Uma autofagia que vai destruindo o sujeito e o objecto. Uma boca hiante a partir da qual o corpo se vira do avesso, desaparecendo nas vísceras tetónicas do inferno emergente. Uma longa batalha entre quem come e é comido, sendo que um e outro são a mesma entidade. Entre o destino e a razão.
Enquanto mija atrás de um contentor de lixo, uma figura mágica espreita por entre os restos nauseabundos. Os excrementos sociais que preencheram as ânsias medíocres da humanidade.
Por deus, é uma mulher!
De olhos muito abertos e uma boca escancarada e vermelha, concupiscente, fita o poeta. Toda ela é desejo e vontade de emergir da putrefação contida.
O poeta sacode a pila e não resiste aos encantos da visão miraculosa. Retira-a cuidadosamente do caixote pestilento e verifica, surpreso, que a mulher é jovem, durinha, leve e bonita. E está nua.
Mãe, telefona-me mãe!, grita na noite incompleta. Tu e eu somos os maiores que as estrelas envolvem. Tu, a melhor mãe que os tempos conheceram e experimentam. Eu, o maior poeta vivo que risca a face do planeta. Telefona-me mãe!, ecoa nas profundas cicatrizes da existência, num rugido lancinante e triste.
Caminha, agora, com a jovem ao colo. Leve como ar de Verão. Leve como algumas palavras que nunca são ditas. A timidez irrompe das entranhas instáveis e, no lento processo de auto-fagia, nunca se sabe se vem de dentro ou de fora. É preciso aplacar-lhe os propósitos misantropos que atropelam a alma.
Ao fundo da longa muralha que defende a aldeia do mar prosélito, tremem as luzes no ar cálido do Levante impositivo. Luzes de um bar que acolhe os restos da noite. Os que rejeitam o conforto das certezas. O possível que sobejou do impossível doloroso e inquieto. O poeta dirige-se, imparável, na direção das luzes de néon. Show me the way to the next… Só tem que bordejar a muralha de pedra que João de Deus Baptista, o mestre dos mestres da pedra, instalou, rigorosamente, entre a brutalidade dos homens e das águas. Entre as casas e a o mar.
Telefona-me mãe! Há palavras que me corroem o pensamento. Animais na cabeça que exorcizo expulsando da mente símbolos e sons que se perpetuam nos abismos impenetráveis e labirínticos. A poesia nasce da morte das palavras incandescentes que me destroem a vida. Que me tornam belo e caótico, imortal e efémero, navegando ao sabor dos elementos que se apropriam dos meus passos e me impedem de chegar à fronteira dos sonhos bloqueados. Onde a planície derrama palavras eternas nas superfícies onduladas da solidão. Há palavras que custam a entender. As mais valiosas resistem ao mais poderoso dos exorcismos. Ao mais esforçado dos hermeneutas. Animais da cabeça enclausurados na eternidade, que me sugam as ideias e arrastam na dimensão dos corpos corruptos. Telefona-me mãe!
A chegada do poeta enamorado e da etérea companheira, animou a já ruidosa clientela do estabelecimento comercial. Sons e olhares de admiração e inveja sacudiram a madrugada final. Camones vermelhos e tatuados transbordando cerveja e riso. Turistas que não conhecem o ruído do Levante que se enrola nas dunas. O empregado, aprumado, gestor de ocasião, não se impressiona e nega a entrada ao casal recém-aparecido. Alega, inapelável, a forma como se apresenta a fêmea que reluz na noite suspensa. A nudez numinosa.
O bar recolhe o refugo que se afunda na obliquidade da cerimónia irreversível, mas mantém a decência de tempos ancestrais. Dos ditames do super ego imperial e besta.
O poeta retira-se cabisbaixo e impotente, sentando-se, timidamente, na muralha protetora. A seu lado a mulher que suporta o peso da recusa. Mais ao lado, só agora repara, está o seu amigo Califa. Trocam olhares cúmplices. É um poeta que nunca escreveu uma palavra. Um mariscador alcoólico e solitário, que sabe cultivar uma amizade. Uma amizade antiga. Um homem que deixou Kenitra, a sua terra natal do outro lado do golfo magrebino, e veio com o Levante até à aldeia de pescadores. Ainda havia cabanas, ainda não havia turistas.
O meu amigo está muito bem acompanhado; foda-se, preciso de uma cerveja, o Califa está mesmo KO, não o posso mandar buscar cerveja; foda-se que gaja boa, com tudo no sítio. Se não fosse do meu amigo, atirava-me já; puta de vida, já não se pode beber uma caneca. Telefona-me mãe! os camones bebem o que querem e um homem da terra nada.
Enquanto o Califa dormita e o poeta arde em timidez, dá-se o clic na história. Às vezes a história só desembucha com um clic e parecia ser o caso desta. O verdadeiro e incontornável clic. Nada do que existe, ou algum dia existirá, é bom ou mau na sua integral constituição.
CLIC:
Um turista é um caçador de troféus. Regressado a casa, a avaliação da viagem afere-se pelo número e qualidade de troféus predados. Ora, ali, naquela muralha de paralelepípedos de calcário, estava instalado um inesperado e apetitoso troféu. Era só disparar. Clic: uma fotografia de bêbado avermelhado e feliz abraçado a uma mulher nua, sensual e leve como a espuma do Levante. A proposta é honesta e irrecusável, boa para todos os outorgantes: uma fotografia de camone com a diva = a uma cerveja.
Meus amigos e friends, é pra já.
Segue-se uma sessão fotográfica sem fim e a timidez do poeta vai desaparecendo na loucura antecipada da felicidade pela exibição dos troféus, num pub qualquer do país de Shakespeare. As cervejas enchem a muralha ao ritmo dos flashes. O Califa, entretanto mais desperto, recusa tocar-lhes. O seu olhar vai-se tornando baço e impenetrável.
Só um poeta, e amigo, pode interpretar um olhar. Levanta-se cambaleante, afastando os predadores, e entrega, generoso, a estrela da noite, nas mãos do amigo.
Para grande tristeza dos clientes e do empregado, arrependido, o mariscador-poeta retira-se rapidamente para casa, envolvendo gentilmente a mulher disponível.
Levantado das águas, o Sol emerge fazendo esquecer a noite. Ao poeta ninguém telefonou.
( Dizem as más línguas, que o narrador não tem dessas, que durante quinze dias ninguém mais viu o magrebino na aldeia. O que é certo, e pode ser garantido por qualquer um, é que da linda mulher que iluminou aquela noite sem par, nunca mais ninguém soube dizer nada.)
sexta-feira, 2 de julho de 2010
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Tavira, cenas de rua num verão cálido
Hoje à noite. 33 graus numa noite sem vento, numa das mais bonitas praças da cidade de Tavira, o largo do Convento do Carmo, espetáculo de música (tocada ao vivo) e teatro aéreo pelos argentinos Puja.
Fantástico!!!!
Puja, Teatro de Altura
Tudo também pode ser nada
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