Esse é o jogo impossível de imaginar. As páginas brancas são pradarias sem rosto perdidas na ilusão das sombras. Se risco a obscuridade converto a ausência em mensagem incompleta resistindo ao tempo. A caneta rompendo o vazio enquanto as crianças dançam na noite que sucede à luz e aprendem a atirar o pião no papel que resplandece nas palavras. O mestre soletra as letras que se acumulam sem sentido nos umbrais do sonho. Há alguém que embala um nascituro sem mãe, e isso significa o fim das entranhas das ervas, o fim do testemunho inútil do tempo inclemente. A crueldade do que se passeia frente aos mares profundos, aos abismos que ocultam a noite impossível, a regência do que nunca colapsa nos últimos registos do apocalipse. As escrituras serão atiradas aos crentes pelos profetas fraudulentos da vida, profetas que padecem da cruel realidade das palavras. Da ritualidade sinistra dos maestros nauseabundos. Escrever-te não é senão uma dança sem sentido que desconstrói o que fomos. Aprender a ler é um caminho através do sono em chamas.
( o meu texto para a Espúria, lido no Percurso Literário João de Deus, na primavera literária da Feira do Livro de Faro.
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