segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Da loucura à lucidez


Para ser lúcido não temos que aprender nada. Temos que esquecer tudo: primeiro despir o casaco das sensações, depois a camisa ou camisola dos sentimentos, em seguida, ainda, a t-shirt das emoções e, finalmente, arrancar a pele dos arquétipos e escarificar a carne e extirpar a própria cadeia genética. Depois, com a nudez escancarada, procurar as erupções da loucura. Só esta permite soltarmo-nos das peias deterministas que nos roubam o inalcansável livre-arbítrio. Romper o couraçado material genético, impregnado antes da ascensão da cultura nas comunidades humanas, e da infecção posterior da cultura emergente no programa genético, em continua e consistente modelação pelo ambiente natural e artificial. A loucura, inquieta, irregular, flexível, ondulatória, intensa ou desmaiada, ocasional ou prolongada, intersecta a liberdade do pensamento e a procura da sabedoria fora do humano, a constatação, e a construção de uma nova humanidade. Mais lúcida, mas também mais frágil, inconstante e inconsequente. O homem que mergulha no esquecimento e persegue a lucidez é um caçador de gafanhotos loucos, ou seja, um predador de momentos de loucura humana mais acentuados, picos de flamejante, e perigosa, insanidade. É aí que se podem observar os momentos de maior liberdade e, mesmo, delírio criativo que um ser humano pode experimentar.



Por exemplo, a libido e a beleza, a inutilidade do que é belo. Até porque, para entrarmos no âmago de nós mesmos temos que ir acumulando dados retirados da nossa consciência e arrumando-os na memória, que, como todos sabemos, os deixa degradar, corromper e entrar em fusão e fricção, uns com os outros, baralhando-os, seccionando-os e fundindo-os em amálgamas e conjuntos inescrutáveis e indescritíveis. Bastaria, o que raramente acontece, a deterioração de um só dos elementos congelados, para que, assim o diz, asisadamente, a teoria metodológica das ciências sociais, e todo o edifício, em construção com tão ruins materiais ruiria como um castelo de areia. Ou, pior ainda, daria lugar a um outro edifício que parecendo o nosso não seria senão a definitiva prisão da nossa sepultura. Ou seja, tudo se tornaria mais estranho à compreensão e ao pensamento do que quando jaziam em suas camas profundas, relativamente inertes e pouco expressivos e atuantes, à primeira vista. Porque quando digo que não gosto de pretos, isso não é um pensamento, uma ideia, trata-se de uma reação instintiva gerada no fundo mais fundo do subconsciente que nos obriga a "pensar" assim. Como não é inteligente, sendo-o na realidade, o acto de um cão escolher as sombras no verão, e o sol no inverno, como melhor lugar para se colocar. Ou, gostar mais do azul do que do amarelo. Ou, ainda, ser do Real Madrid. Nenhum destes exemplos se refere a uma escolha: trata-se simplesmente de uma imposição. Uma impostura! Mais evidente se mostra quando as ideias, ações e os comportamentos são involuntários e contra os desejos do indivíduo, como por exemplo quando coramos, quando temos uma ereção desadequada, durante os lapsos de linguagem, ou troca de nomes. Não renegamos o livre-arbítrio, mas a sua influência causal é muito mais limitada do que pensamos ser e queremos que seja. Não podemos também excluir destas equações que atiram as ideias, os pensamentos e as ações para mínimos de autonomia criativa dos seres humanos, da também forte influência das impressões assimiladas na vivência nos alvores dos novos seres. Não é preciso escarrapachar toda a teoria freudiana e psicológica sobre a brutalidade do ambiente natural, social e cultural que é exercida, inexoravelmente, nos primeiros anos das criaturas humanas. Acrescentando a isso o peso das regras morais, religiosas e dos condicionalismos éticos, se bem que mais fáceis de contrariar e manipular, e temos a mancha comportamental possível quase toda ocupada por uma escura sombra que impede a livre escolha e impinge uma panóplia comportamental e um rendilhado ideológico que podemos comparar ao celebérrimo destino tão evocado nas sociedades iletradas e em franjas das mais complexas.

Ora este tipo de reflexões arrelia os homens. O centro do mundo, a humanidade, desloca-se, desta forma, para a periferia e o homem é atirado para o lugar que sempre ocupou e sempre ocupará: a utopia. Ou, melhor dizendo, um território tão vasto quanto o universo. Tirar-lhe o livre-arbítrio representa, na sua soberba auto estima, o mesmo que representou quando Galileu nos retirou do centro do mundo, quando Darwin nos tirou do centro da criação, quando Nietzsche matou Deus ou, situação semelhante à abordada neste pobre texto, quando Freud retirou à consciência o domínio dos pensamentos e acções. Quando Jung atira a emergência das nossa emoções e comportamentos para a profunda caverna do mundo dos arquétipos (onde já Platão nos tinha aprisionado para observarmos, lá no alto luminoso, a realidade de sombras que conhecemos).Não estávamos ainda refeitos deste abanão apocalíptico quando o sr. Émile, Émile Durkheim, nos sufoca com uma sociedade que gere a nossa existência enquanto seres sociais, de forma inconciente e através de prémios e castigos e, de foma severa, utilizando a vergonha e a culpa como instrumentos castradores da idiossincrática ação. Mesmo no suicídio, que Camus afirmou ser o único problema filosófico verdadeiramente sério, e que Durkheim estudou a fundo e apresentou nessa obra genial e monumental que é "O Suicídio ", o autor adianta que uma parte significativa destas mortes voluntárias autoinfligidas, passe o pleonasmo, são inexplicáveis, tanto para os autores como para os observadores atentos.

Não será esta minimização do livre-arbítrio popular entre os seres humanos, como será compreensível. Mas, como vimos este exorcismo brutal não é novo. Deleuze defendia que a filosofia levava sempre ao entristecimento, e, salvo raras excepções, quem gosta do caminho das tristezas? Por isso usamos todas as estratégias possíveis e imaginárias para ocultar as nossas tristezas, que, afinal, não são nossas... Os livros de autoajuda pululam modelando leitores, as redes sociais tornam-nos perfeitos e belos, políticos populistas prometem dar-nos tudo o que nos tiraram (não é por acaso que os seus principais alvos a abater são as elites, sobretudo as universitárias) e os políticos do sistema contornam os problemas mais graves e os mais urgentes de forma a não incomodar o povo. Mentem todos à sua maneira. Para ajudar à festa, que ainda agora começou, a IA promete resolver todos os problemas, em todos os lugares, em todos os tempos.

Cativa, 30/4/2025

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