domingo, 30 de janeiro de 2011

visita de estudo


 


Longe da papelada do dia a dia, até  pareço feliz...


 


Como já aqui tinha referido, o trabalho não me entusiasma por aí além. Mas o que me revolta, na realidade, é fingir que trabalho...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

palavras e ideias


 


O grande pintor Degas muitas vezes me contou essa frase de Mallarmé, tão justa e tão simples. Degas às vezes fazia versos, e deixou alguns deliciosos. Mas constantemente encontrava grandes dificuldades nesse trabalho acessório de sua pintura.  (Aliás, era homem de introduzir em qualquer arte a dificuldade possível.). Um dia disse a Mallarmé: “sua profissão é infernal. Não consigo fazer o que quero e, no entanto, estou cheio de idéias…”. E Mallarmé lhe respondeu: “Absolutamente não é com idéias, meu caro Degas, que se fazem os versos. É com palavras.” (VALÉRY, 1991, p. 207-208).

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

atravessando a calmaria

 



 


 


às vezes aparecem na cidade


figuras recortadas na paisagem brusca


retirando da luz a sombra que cresce


na calçada pardacenta


 


um homem senta-se numa cadeira


azul e o vento fustiga-lhe o rosto


(quantas vezes já o dissera) imaterial


são três horas na tarde e o crepúsculo


assoma-se por detrás da noite


 


uma mulher, que o sopro da ventania


não incomoda, observa o que as horas


aspergem no desassossego dos sentimentos


criptados, na voragem das palavras cruéis


atravessando a calmaria que a envolve


aproxima-se da cadeira azul enquanto


o relógio da torre açoita o ar diverso


debruça-se, suavemente, sobre a cadeira


e beija o cabelo revolto do homem sentado


 


o relógio repete a linguagem do tempo


três vezes na cidade engolida pela sombra


as árvores despem-se para enfrentar o frio


 


 


o beijo atira o homem até aos confins de si mesmo,


até onde a solidão desaparece e o mar morno


contorna o emergir das palavras


 


a mulher reergue-se do beijo


e desloca-se imparável para o fim da rua


onde a espera a eternidade


 


a noite cobriu de trevas a cidade


e o homem renasce na esplanada


de cadeiras azuis, bebendo cerveja


com figuras que convergem no


esquecimento da dor


 


o caminho divergente acontece


quando as rédeas do afecto


não resistem ao que materializa a solidão


 


contra a tempestade ergues a dor.


 


MG 20/12/2010

domingo, 23 de janeiro de 2011

prosas seguidas de diálogos


A editora 4 Águas apresenta a nova obra de António Ramos Rosa. Prosas Seguidas de Diálogos. Uma pequena, independente e quase desconhecida editora do Algarve incendeia o panorama editorial, editando o maior poeta português vivo.


 


 



 

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

filigrana da tecedeira


Anselm Kiefer


 


no primeiro despertar da sombra/ instalou-se um pesado silêncio/ nos socalcos da memória/ uma clara escritura invadindo/ os sedimentos frios do esquecimento.


todos os insetos da floresta/ sublinharam os nomes que fermentam/ no vazio do plural abstrato,/ a inveja necessária e vã apenas/ excetua os escaravelhos dormentes,/ companheiros dos aldeãos lilases,/ répteis no papel de ourives/ desenhando a filigrana da pele/ nas luzes copiadas e biformes./ é nesse momento que entram as máscaras/ retiradas da gaveta em flexões/ para assistir à partida das frases/ assassinas do covil dos ananases.


um homem comprou um jornal/ por um dólar e o capitão foi almoçar/ com o general. todos os nomes/ verdes e esquisitos almoçaram à parte/ na esteira que confundia a parcialidade/ do chão plural.


o capitão, órfão dos lilases incompletos,/ virou a folha do livro e o barril/ de pólvora iniciou a invenção que a mulher-aranha/ apresentou na noite confusa.


o general barrava o pão com chocolate/ todos os nomes e cada um deles/ desapareceram da frase registada/ na pele da tecedeira,/ tatuagem de bigode ornamentando a boca de vidro.


um moço e uma mulher saltaram o muro/ na ruela vazia para uma/


ilha fantástica na periferia do carnaval enquanto/ embrulham presentes em papel de fogo.


quando a personalidade do assassino/ foi desvendada todos, insetos, homens,/ mulheres e vegetais comungaram do/ ressentimento paradigmático...


não há perguntas difíceis, só convites/ exclusivos par dançar/ o silêncio da sombra.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

vida tão estranha

 










 


Era certamente eu que ali ia. Não podia haver dúvida alguma, pois o homem que atravessava a tarde gelada tinha, exatamente, a mesma forma estranha de caminhar. Ao longe, ainda hesitei. Mas quando nos cruzámos, na calçada luzidia, perdi toda a esperança de ser outro. De sermos outro. Quando os nossos olhares tristes se fixaram no nosso olhar, a resposta para muitos anos de procura surgiu do nada e emprenhou a nossa consciência apatetada: o eu que procurávamos era um nós estranho que nunca entenderamos. Separámo-nos como se a vida fosse um longo corredor que nos conduz ao vazio intangível. Qualquer que seja o sentido da vida, é para lá que caminhamos.


 

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...