Sempre me irritou que os que vinham da cidade à minha aldeia soubessem falar das suas belezas e idiossincrasias melhor que eu e do que os que nela viviam. Falavam da aldeia como eu nunca a tinha visto nem pensado. Mais tarde, quando já tinha viajado até às cidades longínquas, e voltava à terra que me tinha visto nascer, também eu via e sentia coisas que nunca tinha visto e sentido antes. O inebriante cheiro da flor de laranjeira. O silêncio denso das alfarrobeiras. O corte de cabelo dos homens. O cheiro inimitável das tabernas. Os lenços cobrindo as velhas. As camisas de franela aos quadros dos pescadores. A melancolia dos caminhos. Quando voltei a primeira vez, sentia-me um estranho na minha própria terra. Até, no meu corpo. E esta nova perspetiva ainda mais me doía do que a que sentira em criança perante a opinião dos forasteiros de antanho. Tão infeliz e triste que jurei nunca mais sair das suas fronteiras porosas. E quando a aldeia se afastou dos seus antigos moradores, tornei-me um forasteiro numa terra nova. Já não saio dela quando saio dela.
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