quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A Vetusta Cobertura


Como vaga de um mar sem fim, a mortalha do poeta cobriu de espanto o pântano das cidades sobrenaturais, e o sangue do cadáver tatuou a vetusta cobertura, revelando o sudário sagrado, o santo sudário ardendo na orla do deserto, escorrendo da lâmina que desenha a silente cumeada do abismo, labirinto onde as hienas desesperam para lamber o desenho morno das palavras, as facas reluzem nas sombras inúteis da tempestade, onde as multidões se atropelam em outlets negociando, a preços de saldo, amor e amizade. Agarro o pano aconchegante da morte e arrasto-o até ao peito, sinto frio nos pés, encolho-me como um político mal nutrido, vagabundo na podridão das insinuantes serpentes, e lanço o olhar através da memória superficial dos outros: a visão que me assombra vem, venenosa e nevoenta, refazer a realidade e mostrar às pedras que me conduzem a caminhada, a linha da vida que traçarás na erva curta que te servirá de alimento e leito. A partir de agora, não desejarás o que te não pertence, não mais poderás atingir a eternidade que a morte contém e guarda. Há de o vento soprar com violência e os sonhos cristalizar no medo. Nascerão, depois de tudo o que conheceste, crianças todos os dias.
Vn Famalicão, 24/12/2018

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Destroços

 


 


Destroços


E porque as festas estão por todo o lado. E porque ninguém consegue fugir do tempo. Uma boa sugestão para "a passagem das horas". Suas e dos seus. Não é um obra nova, mas é uma nova obra. Tinha sido publicada digitalmente num projeto muito interessante, escritores on-line, que não sei o que lhe aconteceu, e, por isso, publiquei-a aqui. Recebe-se, em papel, em casa.
Devolve-se o pecúlio dispendido se a obra não convencer...


 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Camaleão Acinzentado

Já não era sábado, mas também ainda não era domingo. A hora mudara agora mesmo, como sempre acontece quando a estação das carraças se inicia.


Isto perturbava o camaleão acinzentado como noite incompleta:não as carraças, que não lhe interessavam para nada, não lhes apreciava o sabor acre, nem a crocante quitina, e não tinha problemas com a sua agressividade doentia. E a amabilidade era-lhes, aliás, correspondida: não as atraía o sangue frio e a pele viscosa.


O que o preocupava, realmente, era a imprecisão do tempo. Se a noite avançava como sempre. Se a liquidez do devir se transmutasse na ciclicidade prescrita. Se a noite, inexorável, regia o sono merecido dos que, como ele, usavam os dias para manter os corpos e garantir o futuro.

O Que Não Precisas

Procura sem a ânsia


de seres grande, procura sem cessar


o que não entendes.


O que não precisas. As sementes dos santos.


Levanta-te ao encontro da solidão honesta


e vã, desenha em ti a podridão do novo


como como se tudo emergisse


das ideias confusas da singularidade,


dos caminhos já trilhados


por outros, da cegueira obscena


e sôfrega de sangue virginal.


O que encontramos são murmúrios


só entendíveis a iniciados nas longas


procissões de vagabundos


à procura


das areias escaldantes, da nauseabunda e escarlate


mãe de todas as dores. As dores que apoquentam os mortos.


Murmúrios conspirativos renegando o passado


perdido atrás de paredes transparentes,


o oculto transgressor rompendo


o discurso básico dos profetas. Enigma


de antanho onde a memória


emerge dos pés mergulhados em cerimónias


do esquecimento, escaldantes, brasas rasgando as vestes


dos risos alarves, xamânicos, onde os rostos


de cadáveres orgulhosos são possuídos


pelo medo convulso das tardes. Procura os que te


arrastam até ao fim das sombras do desejo.


 


Monte Gordo, 3-11-2016

Se o ódio se adianta

se o ódio se adianta


e te prescreve a dor,


doma-o e sai para a rua,


grita como se o labirinto


que as flores desenham


no torso da nuvens


se rasgasse


em cicatrizes invisíveis


ao sentido dos duendes imorais,


grita até sentires


o eco das paredes


te atirarem no precipício


da carne a latejar de desejo


se o ódio persistir, enraivecido,


regendo os medos e as sombras,


sai do teu corpo e abandona


o odor crepuscular,


o rumor brando das entranhas,


deixa-te levar por entre as casas


do lugar, por entre a claridade


que atravessa os dias


tatuados nos sonhos incandescentes


do profeta desconhecido


estranhos tempos estão encantando


o coração das cidades, as guelras dos peixes


emergindo das redes sociais,


saudando o ódio que nos enforma


e conduz, as esculturas de lixo


rasgando a pele de animais degolados


ao entardecer, sangrando palavras


 


vrsa, 21-o3-17

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

o resto da tua vida


Se dormisses como dormias antes de ter atravessado o rio que dividia a tua juventude do resto da tua vida, serias capaz de entender os sonhos que agora se recusam em aparecer nas sombras da noite. O que quer que fosse, não te traria a juventude de volta.

Tudo também pode ser nada

  (sem rede) Se tudo não passasse de um desaparecimento atrás de uma esquina chanfrada, daquelas que não custa nada, mesmo nada, dobrar, u...