Rio, rio-me da posteridade, para a posteridade, e recomeço a percorrer o tempo às arrecuas. As amendoeiras em fevereiro a cobrir o chão de pétalas, o branco das bermas da estrada fulminando os olhares, incendiando o inverno. Se fosse ainda mais atrás, poderia encontrar um amigo pedalando num triciclo à volta do tempo parado, mas o passado não existe. Poderia, até, inventar o corta unhas antes dele ser inventado. O passado é apenas o presente travestido, uma carícia fraudulenta que se desprende no devir incontinente. Se eu quisesse seria a cabeça decapitada de s. João Baptista numa pintura de Caravaggio: no profundo escuro o meu sangue esguicharia como a cauda de um cometa. Se eu quisesse, os anjos extirpariam as asas, caminhariam sobre as pétalas das flores de amendoeira tão brancas quanto a sua pele.
No entanto, se me amasses não correria sem jeito atrás dos meus anos, conduzindo brigas voando nos corredores ensanguentados do império: o teu amor seria suficiente para que me quedasse em silêncio o resto dos meus dias. Ensinar-me-ias que o que verdadeiramente importa é o que não importa. Nada me traria o espanto da minha vida irregular. O silêncio do amor suspende a procura. Nos colapsos da existência arrastaria o que me obriga a procurar nos teus braços a viagem sem caminho. Tenho um compromisso nostálgico com as velas enfunadas que me ocultam as mãos. Um pequeno gesto teu e encontaria a ausência final no restolhar do centeio outonal, a coragem de desistir do enfermo esquecimento. Vem! A espera não prescreve enquanto vontade oculta. Na casa do silêncio premeditado dorme o vazio dos que da vida padecem.
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