Lúcifer passa de canon analógica AV-1 ao ombro com um rolo a preto e branco. Procura deus para o fotografar de surpresa. Eu, que conheço bem os dois, não acredito que o consiga. Deus está em toda a parte e em lugar nenhum. O mafarrico é um idiota inútil . Meu senhor vêde como conseguirei parecer-me com um homem. Ajudai-me na minha modesta aventura de me olhar no espelho negro da solidão. No retorno sem dor ao cavername sombrio do navio afundado na tua mente. Náufrago na tua memória. Lúcifer dança na manhã nevoenta e fotografa tudo o que não consegue ver na esperança de apanhar deus desprevenido. Os gritos que descem da aurora eminente são apelos dos anjos que não conhecem o fedor das entranhas de deus. Que labirinto será o dos dias sem dono, onde a tesão escolherá os que morrerão de desejo na sombra imaculada do inferno. Onde caem os cadáveres dos que vivos terão perecido para renascer? Nos tempos em que a saudade roía a memória das donzelas escarlates lambendo cones de baunilha falsificada e das que, meretrizes sendo, herdavam o dom de se revelar como odaliscas desamparadas resvalando nos profundos abismos da carne. Suando em casacos de pele de elefante e cantando odes ao acaso encantando sepentes desnorteadas que por ali passavam sem destino. É então que os ossos das preguiçosas enguias se enlaçam nas pernas dos heróis desconhecidos e impedem a festa que se anunciava para domingo. Se a festa não for nesse dia nunca mais poderás usar gravata aos domingos. Lúcifer espreita por detrás da sarça ardente e, rodeando com perícia o púbico deserto do sinái, fotografa Moisés que tomou por deus nosso senhor. É nesse desespero que se imola na sarça ardente enquanto as tábuas sagradas são divulgadas às pedras. Ardia o diabo na moita divina quando se ouviu uma voz de trovão ribombar no deserto. Quem ousa arder no fogo de deus? Quem ousa usurpar a chama que aos homens se destina? Nisto, um clarão imenso* iluminou as trevas. A chuva que caiu durante cem anos bastou para renegar, e regenerar, todos os crimes que deus cometera. E então um sol sem explicação alumiou os dias sem fim.
* E não, não era o flash da canon.
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