Como se tudo não passasse de um grande embuste, fiz-me ao caminho. As praias foram-me sempre mais lugares de partida do que de chegada. Até porque são mais os que partem do que os que chegam. São muitos os que se perdem na viagem, mais ainda os que nunca se aproximam do seu fim. Diríamos, mesmo, que nenhuma criatura cumpre o seu caminho, cumprindo, no entanto, sempre o seu destino: a morte! O mais difícil, sei-o bem, é distinguir entre viagem e destino, e desenlear os nós que as duas estranhas estradas desenham para nos iludir. Para nos chamar ao seu caminho. Nunca compreendi porque são tão imperativas estas vias. Se impuseram o algo ao nada, se nos atiraram para a vida sem sequer nos ouvir, se nos não deram ferramentas suficientes para lutar com os furiosos elementos e nos tornam mais frágeis quando nos aproximamos do belo (esse mesmo belo que não nos deixam compreender: porque são as montanhas belas? como pode ser belo um rosto entre outros? Que graça tem um animal?) e do sublime, quando nos dão a euforia como droga da salvação, que nos destrói e catapulta para a depressão mais profunda do mar revolto que atravessamos. A uma crista da onda vem sempre um vale. Às ondas da euforia sucedem vales profundos e encaixados, depressões sombrias, bastas vezes sem possibilidades de retorno e conduzentes à morte. Morte física ou psicológica, que, ao fim ao cabo, são, ou representam, a mesmíssima coisa.
[ ] Quando me fiz ao caminho, apetrechei-me, como seria de supor, com tudo aquilo que achei necessário para a aventura em que me ia meter. Inerme, lanço-me à aventura seguindo, assisadamente, o rumo do vento. Tudo o que me chegava, chegava antes de o encontar, e, assim, não seria surpreendido pelo desconhecido. Conhecê-lo antes de se apresentar é uma vantagem que explica, em parte, a calmaria dos que estudam o silêncio das ocultas presenças que se erguem do desconhecido. Nada parece mais próximo de nós próprios do que aquilo que não conhecemos. O que está longe, mesmo que esteja acantonado ao dobrar da esquina da consciência, está perto. Tão perto que a possibilidade de se deixar conhecer é praticamente impossível. É nesta incertidão, que arrasto o esqueleto na direção da ventania. Há criaturas que passam em sentido contrário a grandes velocidades. Levam sorrisos abertos e nunca acenam. Parecem conhecer previamente o lugar para onde vão. Não há longe para quem navega a favor do vento. Quantas vezes pensas voltar e seguir o seu caminho? Ou, o do homem calado? Há momentos em que deixas o olhar seguir as suas trajetórias prazenteiras. O corpo hesita. Mas sabes que o que interessa é deixar o cabelo soltar-se sobre as costas. O caminho mais difícil é o que te levará a descobrir terras incendiadas, devastadas, pelos que ousam descansar nos momentos tormentosos da noite e fugir da ilusão que encanta a visão domesticada das coisas.
[ ] O futuro é um resgate sem retorno do que os passageiros do tempo improvisam quando a viagem é interrompida. Cansados são os tempos que da coragem emergem para resgatar o que da loucura se exibe e grita.
Um dia distante, chegarei, náufrago e indigente, à praia que me viu partir com as velas enfunadas. Quando partimos, somos só nós que deixamos ficar a imensa solidão do que resta.
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