Fui eu que procurei o perfume nos matos secos, que inventei os peixes para dar beleza aos mares. Que subi às árvores para nelas desenhar as flores e pendurar os frutos. Que nos seus ramos contrui os ninhos dos pássaros.
Que emprenhei por engano a primeira deusa que encontrei na Grécia e por isso me transmutei num anjo do mal. Que caminhei sobre palhas para não acordar os que nunca sonham e criam óperas estravagantes. Anjos sonâmbulos que transportam a realidade através do sono e escavam longos túneis no interior das memórias incandescentes do corpo. Que renascem do intenso trabalho sepulcral dos vermes consumindo a podridão post mortem. Renascem do pus iridiscente e soçobram de imediato inundando de dor a sensatez dos vivos.
O problema dos que combatem é que estão formatados para lutar contra aquilo que defendem e defender aquilo que os modelou e anima. Para lutar verdadeiramente tem que se destruir tudo. E isso é tão horrendo e doloroso que nem nos passa pela cabeça sequer tentar. A luta, e o sofrimento que sempre lhe está associado (a luta não é a alegria que nos nossos dias embriaga os combatentes), é um silício rompendo a pele. Cicatriz que conduz à morte. Será, também, esse o paradoxo da paixão que, cegando, nos impede de chegar ao seu destino. Procurando um caminho de luz, não é senão uma estreita e sinuosa vereda conduzente ao fim. Um profundo abismo por onde arrastamos os ossos desengonçados na direção da morte.
E tudo seria desprezível se soubéssemos que o outono faz esquecer completamente o verão.
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