terça-feira, 1 de abril de 2025

escritor a tempo inteiro

Ai minhas amigas e meus amigos, hoje mesmo, agarrem-me que eu me vou à vida; torno-me escritor a tempo inteiro. Depois de 40 anos como professor, e escrevinhador distraído, e, ainda, agricultor nas horas vagas - gosto mais da palavra camponês, mas, para isso precisava de conseguir matar galinhas, e isso é coisa que nem nos meus piores pesadelos conseguiria -, vou reformar-me. Ensinar crianças e jovens é das profissões mais lindas que existem. Dura, extenuante, mas mágica, incrível e apaixonante. E se é preciso ter uma função na sociedade, dar algum contributo para o seu funcionamento sem convulsões traumáticas e, se for possível, contribuir, ainda, para o seu melhoramento, não estou a ver outra que poderia ter tido. Por isso foi uma sorte poder ter sido aquilo que, tendo que ser, queria ser.

Agora, liberto de horários e obrigações diárias, vou tornar-me escritor. Mesmo que passe os dias sem escrever. Ouvir música, caminhar, estar, o que baste, com familiares e amigos, ler, ler sempre até me tornar na leitura, abraçar o silêncio, tentar dormir, ouvir, ouvir com atenção, enfim: passar o tempo sem pressas e cuidar do que traz paz ao que me rodeia. Cultivar as premissas que me nortearam os passos, e que agora que vou para velho já posso afirmar que cumpri, sem grandes possibilidades de erro, nunca mandar em ninguém e nunca deixar que em mim mandassem - nunca incomodar, para simplificar. Neste primeiro dia como escritor a tempo inteiro, vou passar as horas todas a olhar o mar.

Amanhã vou passar o dia a cortar os ladrões das oliveiras.

PS. Este quadro sempre me fascinou. Está na espantosa, se bem que maltratada, Casa Inglesa, em Portimão. Sempre que venho a Portimão, passo por lá para apreciá-lo. Dizia-me o pintor Picanço, artista residente no café, e já meu amigo, que a pintura tinha servido como forma de pagar a conta do pintor da obra, que tinha almoçado sem ter dinheiro. Já agora, alguém me sabe dizer alguma coisa sobre o pintor Picanço? Se calhar virou pintor residente noutro local melhor frequentado.

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