O Palinho é um homem como outro qualquer. Desagradável às vezes, como a vida tem sido desagradável para os seus dias. Cortaram-lhe uma perna e pesa como uma criança. As ruas não foram construídas para veículos como o que o Palinho conduz. Pede dinheiro e coisas para sobreviver. Resmunga e atira para o chão as moedas quando lhe dão menos que 1 euro, e isso é considerado ofensivo para quem dá. Quem dá exibe a arrogância, a soberba, da superioridade tóxica. Dar pouco queima a pele de quem precisa. Chega à esplanada, a melhor plataforma sobre a costa que conheço. O Sol põe-se. É um espectáculo deslumbrante que é intensamente fotografado pelos telemóveis dos abastados, privilegiados da vida. O Palinho vira as costas ao incêndio da Ria a Penente. Hello, dirige-se-me. Estás bom, respondo-lhe. Surpreendido, fala-me da merda dos estrangeiros. Acabaram de lhe dar 40 cêntimos. Atirou-os ao chão com desprezo e algumas palavras duras. Dá-me 1 euro! Fiquei descansado: fazendo ele o montante, nunca seria rejeitado. Dei-lhe o euro e perguntei-lhe o nome. Surpreendido, aproximou mais a cadeira de rodas da mesa onde eu bebia uma cerveja. Sou o Palinho. O Palinho, repetiu docemente. E tu, como te chamas? Vítor. E acrescentei, de Tavira. Bela cidade. Histórica. Com um belo rio, o Gilão. Também Olhão é uma cidade muito bonita, acrescentei. Esta esplanada sobre a ria é única. Sim, as duas cidades são muito bonitas embora muito diferentes. Parou, pensativo. Recuou até onde a dor rasga o pensamento. Sabes? Casei-me em Santa Catarina. Em Tavira. Vivi por lá uns anos. Ofereceu-me um cigarro. Disse-lhe, e logo me arrependi, que tinha fumado 40 anos e que há cinco tinha largado o maldito vício. Deveria ter aceite e fumado com ele, e não, mais uma vez, ter exibido o meu privilégio sobre a sua incapacidade.
E por ali ficámos conversando enquanto o Sol mergulhava na ria. Ninguém conversa com o Paulinho. E isso torna-o melhor que os outros, mas pior que a si próprio.
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