Pago a água, a eletricidade, o gás e a internet. Pago os meus impostos e os juros da casa e do carro, sem falhas. Para pagar tudo tenho um emprego que me queima o tempo e a vida. Que me adormece enquanto esbracejo no pântano dos dias e mantém em vigília nas noites inacabadas do desejo. Tenho a televisão ligada, o frigorífico ronrona no canto da cozinha. Aqueço o leite do pequeno-almoço no microondas e as torradas saltam da torradeira eléctrica antes de esturricarem. Agora, que ainda tenho 25 minutos antes de me meter no automóvel para o trabalho, percorro as aplicações do telemóvel: vejo como vai estar o tempo, enquanto ponho a música que me apetece ouvir no spotify, vejo os mails, que a esta hora da manhã são poucos, dou uma volta no facebook, no instagram, no tik tok e no X. Sim, que eu sou uma pessoa informada. Como poderia conversar no emprego com os colegas se não o fosse. Dou a última trinca na torrada e meto-me a caminho. Para arranca para arranca para arranca para arranca... para o ano vou de férias a punta caña. Já ando a poupar há uns tempos. Dizem que é formidável: tudo pago e nem precisamos de sair do aldeamento turístico. O descanso é fundamental para recuperar do quotidiano feroz da vida. Afinal o homem é um animal gregário e isso não é fácil. Sem a coesão das relações sociais não seríamos nada. E a democracia permite viver sem grandes sobressaltos até à morte. Depois de voltar de férias vou começar a poupar para dar a entrada para um novo carro. Desta vez vou comprar um elétrico. Disseram-me que era o futuro! É para o futuro que eu estou voltado: o passado é uma estrada plana sem curvas e sem memórias. Estaciono o carro no parque da empresa e passo o cartão do ponto pela máquina na entrada. A porta abre-se. A liberdade dá muito trabalho a conseguir.
In, Espúria - Lagos
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