quinta-feira, 7 de maio de 2026

Um mar de vidro


Ora, chegando ali sem dificuldades
Não encontrei o meu irmão pássaro que por ali deveria estar.
E descemos pelo caminho das piteiras-da-índia
Para junto dos homens e eles disseram: o pássaro
Morreu, ide em Paz. Porque te contemplas
Como se a culpa fosse tua?
Ninguém é livre para decidir o que contempla, respondi.
Para estes homens, espreitando das açoteias de barro,
Certamente, o perfume da morte detém a morte!
Porventura nunca chegarão a louvar-se a si próprios,
Porque eu os entristeço e manifesto a fragrância
Do que não existe. Deveis consolá-lo e não esquecê-lo!
Os pássaros creem, fazei, pois, o que admiram
E amam mesmo se esta não for a lei da multidão.
Vós que estais contaminados pelo ódio entoai
Cânticos diante dos anciãos e dos animais, diante
Das suas chagas reluzentes e mortais, perante
O medo dos homens comprados como se de primícias
Se tratasse e que nas suas bocas não se encontre o engano.
Vi, então, a sua cabeça ferida de morte e pus-me sobre a areia
Da praia gritando sobre as suas cabeças chifrudas:
É blasfémia a vossa guerra. Sobre os pequenos e grandes rios,
Os pequenos e grandes servos e indigentes será aposto
Um sinal que anunciará a vinda de um mar
De vidro da cor do vinho.
Cativa, 22 de março de 2025
in, Substâncias, Vítor Gil Cardeira, Editora On y va, 2025

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