quarta-feira, 1 de julho de 2026

Puebla del Rio - Encontro de escritores

 Puebla del Rio é uma povoação situada numa colina sobre o majestoso Rio Guadalquivir. Até ao mar, até à foz, na margem direita, estende-se a perder de vista, até El Rocío e Matalascañas, o impressionante Parque Nacional de Doñana. Sevilha espreita ao longe e por onde antes passaram carracas, barcas, caravelas, naus e galeões, passam agora porta-contentores e navios de cruzeiro. Por onde navegaram Colombo, Magalhães, Del Cano, Pigafetta e tantos outros passam agora turistas de ocasião levados em manada para se encantar na capital da exótica Andaluzia. La Puebla orgulha-se de ser a zona onde mais se semeia e colhe arroz em toda a Europa e em ser a "cuna", o berço, das sevilhanas cigarreiras, um género de sevilhanas que tem ainda a alma das gentes que as criam e cantam e bailam, sem concessões ao voraz marketing turístico que tudo normaliza e homogeneíza. Eu próprio, de pé atrás com as sevilhanas, me tornei, agora, um apreciador destas músicas arrancadas diretamente do coração. Conheci mesmo, para além de cantores, dançadores e guitarristas, há-os por toda a parte, um dos maiores letristas de sevilhanas cigarreiras: Pepe Palma, que, como o apelido anuncia, é descendente de portugueses de Guerreiros do Rio, uma aldeia nas margens do rio irmão do Guadalquivir, o Rio Guadiana. Foi a primeira vez que aqui estive, convidado para participar no III Encontro Hispano-luso de Literatura. Foi um fim de semana de convívio e irmandade intenso e feliz. Com flamengo, o espantoso Nin̈o de Gines, fado, a algarvia Melissa Simplício, sevilhanas à beira do rio, visita à galeria do Grande, um homem sem nome, transeunte pelo mundo e que por aqui passa parte do ano, visita à adega Alcaria, onde Joaquim Peulach faz um extraordinário trabalho de recuperação de castas regionais e produz vinhos de autor que marcam, e de que maneira!, visita ao Museu da Autonomia e à casa de Blas Infante, o pai da autonomia andaluza e fuzilado por Franco, e uma visita guiada ao coração do pueblo.

Ah, também houve recitais poéticos, troca de livros, abraços e promessas para o futuro, e microfones abertos por toda a povoação.  Mas isso são coisas que acontecem em todos os encontros literários. Obrigado, Puebla del Rio. Obrigado, Joaquin e Carmen, obrigado Educiones Ábrego e coletivo poético Desde las Márgenes.

Nunca mais deixarei La Puebla del Rio. Cigarrero para siempre!

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