quinta-feira, 7 de maio de 2026

O inferno rente ao chão

 

As mulheres vestem-se de azul cobalto e rezam e abraçam os filhos enquanto os homens se enfiam em uniformes de caqui e cingem as armas ao corpo. Acenam aos que choram já mortos antes de morrer. O medo apodera-se de todos e os sonhos suspendem-se nas noites solitárias, nos invernos de lama e chumbo. Bandos de drones uivam nas cabeças sonâmbulas da ausência final, chovem das nuvens boquiabertas. Crateras profundas engolem soldados e os mísseis que as escavam. Só nas catacumbas há paz. O murmúrio que percorre os túneis da efémera salvação contrasta com o zumbido dos projécteis que sulcam os ares. O inferno está instalado à superfície e arde e crepita nos prédios esventrados. As mulheres vestem-se da escuridão dos dias que passam.Os corpos despedaçados repousam na paisagem em chamas. Apodrecem ao ar de enxofre. Nada resta nos que se erguem dos estilhaços do chão envenenado, nada persiste na linguagem dos corpos. Na linguagem pura da morte. Só as crianças, filhas do ódio que nos vem dos substratos mais fundos de nós mesmos, continuarão a construir o futuro. A Paz do reflexo dos seus olhos.
In, Espúria

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