Um poema para um amigo que morreu esta manhã. Um amigo terno, solidário, eterno e insubstituível.
Uma vida incompleta
Havia uma mesa incompleta
Na esplanada da tua rua,
Incompleta porque só tu a ocupavas.
Tu e a minha obscuridade risível,
Profunda, à procura dos sonhos de amanhã.
Dos sonhos que te projetam na cidade particular
Dos objetos malditos,
Na claridade do olhar
Lânguido da noite.
A rua conduz à porta incompleta
Da tua casa,
Incompleta porque não trava
Nem facilita a passagem
Para trás da máscara,
Incompleta porque só tu
Te impões o tabu de a atravessar
Mesmo correndo o risco de rasgar
As vestes que me cobrem a dor.
Convido-te a entrar no líquido sossegado.
Os vapores do desejo
Envolvem os amigos enlaçados.
Quando avanço ao encontro
Do passado inamovível,
Altera-se-me a serenidade
E lanço-me, com brusquidão inusitada,
No abismo hiante do sangue efervescente.
Um barco vindo do frio (incompleto)
Descarrega peixes (incompletos)
E garrafas envenenadas
Trazem-nos mensagens codificadas
Que não entendemos.
A violência (incompleta) implode
E baralha-nos os pés confusos.
Para quem vai, os comboios nunca mais chegam.
Para os que restam no cais, nunca partem.
A viagem substitui
A incompletude do caminho.
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