quarta-feira, 1 de julho de 2026

Caem crisântemos sem fim

 Caem crisântemos sobre  a tua face molhada e a chuva não dá sinais de abrandar.

Sento- me na orla da tua cama enquanto balanço os pés no abismo escuro dos teus sonhos.

As pétalas das flores tristes agarram-se

à face macilenta.

Percorro a alameda das árvores insensíveis enquanto os flamingos regressam a casa. Há uma melancolia dominando os dias insensatos e as vozes suaves das meretrizes. Um abraço de  pássaro colhendo ameixas descomprometidas. Nada resta do que me qostarias de dizer no vento agreste do pensamento crítico e permaneces assim no silêncio dos que combatem a negritude dos teus lábios. Nesta manhã escrevi cinco versos. Falam do que aconteceu antes de te conhecer. Antes até de me conhecer. Pensei que seria assim que poderia recuperar o passado. O tempo necessário para tentar entender o porquê  da melancolia que transportas. Nunca tinhas visto os crisântemos que agora te ornam como se do esquecimento se tivesse soltado um pensamento sem peias que dobrasse o infinito poder da tristeza. Chama-me pelo meu nome. Diz-me que o que aconteceu antes de te ter conhecido não aconteceu. Foi uma fagulha de incêndio que ateou o fogo ao futuro. E íamos todos juntos através das marés,  cantando e dançando com os peixes que tinham perdido a memória.  Numa crista de onda imparável vimos até sereias nadando aos pés da cama onde sentado apreciava a frescura do vento. Seria já tarde quando atravessaram a rua os melhores amigos das sereias. Conheciam de cor as letras das canções que embalavam as crias dos inventores de verdades pintadas por Van Gogh. Conheciam também os lugares onde tinham colocado os mortos da batalha final entre a fala e o silêncio ardente, o vazio. Não sei do que falam os que chegaram na aurora eminente, os que atiram pedras aos cães vadios que atravessam a noite. É natural o rugido incontinente da madrugada. O que traz a claridade do dia  é uma mensagem cifrada que ninguém pode entender. E eu ali especado esperando os que nunca virão. Os que esperam nas esquinas da consciência o mal dos outros, enquanto entoam orações pelos labirintos gravados na tua carne. Dentro de uma casa em ruínas dança um feiticeiro na penumbra nevoenta da manhã.

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