Caem crisântemos sobre a tua face molhada e a chuva não dá sinais de abrandar.
Sento- me na orla da tua cama
enquanto balanço os pés no abismo escuro dos teus sonhos.
As pétalas das flores tristes
agarram-se
à face macilenta.
Percorro a alameda das árvores
insensíveis enquanto os flamingos regressam a casa. Há uma melancolia dominando
os dias insensatos e as vozes suaves das meretrizes. Um abraço de pássaro colhendo ameixas descomprometidas.
Nada resta do que me qostarias de dizer no vento agreste do pensamento crítico
e permaneces assim no silêncio dos que combatem a negritude dos teus lábios.
Nesta manhã escrevi cinco versos. Falam do que aconteceu antes de te conhecer.
Antes até de me conhecer. Pensei que seria assim que poderia recuperar o
passado. O tempo necessário para tentar entender o porquê da melancolia que transportas. Nunca tinhas
visto os crisântemos que agora te ornam como se do esquecimento se tivesse
soltado um pensamento sem peias que dobrasse o infinito poder da tristeza.
Chama-me pelo meu nome. Diz-me que o que aconteceu antes de te ter conhecido
não aconteceu. Foi uma fagulha de incêndio que ateou o fogo ao futuro. E íamos
todos juntos através das marés, cantando
e dançando com os peixes que tinham perdido a memória. Numa crista de onda imparável vimos até
sereias nadando aos pés da cama onde sentado apreciava a frescura do vento.
Seria já tarde quando atravessaram a rua os melhores amigos das sereias.
Conheciam de cor as letras das canções que embalavam as crias dos inventores de
verdades pintadas por Van Gogh. Conheciam também os lugares onde tinham
colocado os mortos da batalha final entre a fala e o silêncio ardente, o vazio.
Não sei do que falam os que chegaram na aurora eminente, os que atiram pedras
aos cães vadios que atravessam a noite. É natural o rugido incontinente da
madrugada. O que traz a claridade do dia
é uma mensagem cifrada que ninguém pode entender. E eu ali especado
esperando os que nunca virão. Os que esperam nas esquinas da consciência o mal
dos outros, enquanto entoam orações pelos labirintos gravados na tua carne.
Dentro de uma casa em ruínas dança um feiticeiro na penumbra nevoenta da manhã.
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