sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Poemas de Amigo II

 


 



 

 


 


 


Do pó das escadas


dos novelos das estalagtites


das aranhas


ressurgem as memórias da ternura


das tuas mãos prestáveis


à procura de uma pequena luz deixada ca-


ir no chão: um beijo


na sincera era do galope.


 


Estarás em casa?


 


A seta indica o regresso da tribo intacta:


tua boca na minha rua pelo universo fora.


 


Ver-te-ei daqui


quando te sonho fora do sonho?


 


O arco-íris do vento


das searas no polegar dos pastores


tem constelações de Miró na cabeça. Ora


essa:


 


na paisagem constipada


quando perco alguns sossegos


começo a sair à noite


repenteado de morcegos.








 


 


 


 



 

 


 


 


 


 


 


 


 


 


A progressão aquática da vírgula descalça o


náufrago – olhos de dezembro


na miopia das areias rastejantes, é assim


o recomeço de todas as linguagens.


 


A árvore o barco a quilha da vicissitude


aquática


o mimetismo da espuma no núcleo


da sombra


quem espreita pela fechadura de deus?


eis um resultado nómada.


 


40 braços do que pensas enquanto


o sonho levanta uma heresia?


 


A progressão aquática da vírgula


descalça o náufrago.




 


 


 



 

 


 


 


 


 


 


Julho é sempre um mês de adormecer


sobre a água. Ou de morar dentro das


árvores e demorar. Tanto faz. O corpo


não hiberna nas ideias nem nunca é julho.


Sou filho do espanto e não sei pensar.


Minhas palavras não sabem dizer


bom-dia. Nenhum sexo rima nenhum


pudor sonha. Sequer o meu barco é de


papel. A minha poesia é apenas pura dentro


do sono mimético da curva: o olhar parado


na sua estreiteza – a sede a miragem


o deserto.


 


Julho é quase sempre um mês de adormecer


sobre a água. Mas a saudade não deixa


ninguém dormir. Devo dizer: julho,


esse lento animal, é este tempo de sonhar


sobre o começo da pele na nudez incerta…


 


Da água nascem os bichos, único gesto


que se desprende do mar;


a mesma ilha sobre o dia.


 


 


 



 

 


 


 


 


 


 


 


 


Todo o homem merece um automóvel


(um automóvel melhor)


um cão para vigiar a virgindade das plantas


uma língua tatuada de camões


e um saco de plástico


para as indisposições…


 


Todo o homem merece… um sexo de dúvidas


Acompanhado de drogas legais


Um papagaio


Uma criada nua…


 


Todo o homem merece… uma ilha


Peneirada por borboletas nocturnas


Uma nota de música


A dizer-lhe que está sozinho


No centro da tela


Dos animais da sua cabeça…


 


Todo o homem merece


O seu nome de papel d embrulho…






 


 


 


 


 


                            AS PERNAS INTELIGENTES


 


                                                        para Rui machado


                                                        ou a felicidade por um fio


 


                           “O protagonista não concorda com o espelho”


                                                                           Almada Negreiros


 


                   nunca é triste dizer que sem a mulher


                   as palavras não seriam


                   a erógena maré sempre revisitada.


 


                   as pernas inteligentes dominam a paisagem


                   se um pássaro respira na curva dos joelhos


                   que nome dar ao princípio da alegria.


 


                   dize se uma lágrima


                   não pousa no recanto dum lábio


                   entre uma ternura uma cerveja.


 


                   as pernas intocáveis já não são


                   o centro do século


                   as ninfas pereceram sob os pés


                   brilhantes n areia.


 


                   compreender não é vulgarizar pres-


                   sentimentos


                   mas


                   os fios da libido que tecem a madrugada


                   conduzir-me-ão ainda a uma pele


                   sem riscos de moedas.


 


                           “A mulher com quem o protagonista vai


                             já não é a mesma que vai com ele”


                                                                Almada Negreiros


 


                   o lugar dela à janela


                   os dentes quase gastos das pastilhas


                   os cães.






(de Rui Dias Simão)


 


 


 

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