sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Poemas de Amigo

 


 




 

 


 


           PAISAGEM AZUL DA SALIVA


 


 


 


Tens a boca prenha do tácito discurso dos relâmpagos


deitas por fora uma nódoa plural no mel da manhã…


que sono procuras? que equinócio absorve o fulcral


lume das papoilas e dos dentes? que sangue


respira o suave piano do níveo dia?


 


 


Quem derruba a polissemia dum olhar diagonal?


a paisagem azul da saliva, a cal e o rastro


enquanto o rosto acende a luz…


(múltiplos insectos ao redor das lâmpadas acesas)




 



               HIPANTROPIAS

 


 


     (percursos e ironias


de um herói ói)


 


 


 


1.    Os cavalos deambulam pela tua ternura a terra do olhar galopa


sob a pata dos cavalos –


 


no piafé do vento.


 


Trago outro nome para inverter a crina


dentro das muralhas sensuais –


 


sobre a reacção informe.


 


2. Quem penetra o sentimento enquanto


os cavalos suspensos se proclamam no limiar


do sol no focinho da água?


 


Os obstáculos foram criados para se


saber da noite no corpo da mulher


qualquer palavra pode criar um novo


clítoris outra lua à beira da carícia.


 


3. Digo a alegria da casa enquanto selva.


 


4. Resta apenas erguer um pequeno braço de mar


e levar-te: aproximar os regimes de dentro


à fulguração das horas incandescentes.




 


 


 



 

 


                                            I


 


 


                    a.  Com o barco ancorado


entre sí-la-bas


Poeta de malas aviadas


aonde vais?


 


Lapidar os ossos no cais!


 


 


 


 


 


 


 


                    x.  O barco.


O barco como um cavalo ou um barco


sob a fragrância da surdez do sol.


Apenas o barco. Como um cavalo


ou um barco.


 


 


                    z.  Sou o óbvio cavalo óbvio


que galopa a composição aérea do levante.



 


 





 

 


          OS POEMAS SEGUINTES


 


 


 


Debaixo da romãzeira estava uma casca de banana


eu vi


uma casca  de banana sob a romãzeira


eis o princípio dos vasos comunicantes.


 


Do interior do olhar a tecelagem


do branco da lua no nenúfar da pedra.


 


Um punhal desprende-se do céu


e pode desmanchar o arco-íris.


 


O inquebrantável centro de tudo.


 


O barco sentado na planície.



 




 

 


  EM RESPOSTA A O’NEILL


 


 


 


 


Pelo sossego delido dos montes,


aquém do evolucionismo das tetas


de Darwin e dos montes,


já se não vislumbra Miss De Ramirez.


Seus netos, esses, andam de prancha


de surf na mão, o dia medido


entre hamburgueres e coca-colas…


 


Pelo sossego delido dos montes


até o poeta, em qualquer dia


de grosso vento,


até o poeta perderia uma perna…


 


O resto da realidade é uma coisa


que me parece postiça.


(O pobre do Guedes anda coxo


que nem um coxo)!




 


(de Rui Dias Simão) 


 


 


 


 


 


 



 


 


 


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