segunda-feira, 26 de junho de 2006

Um Homem Imóvel

 


 


       Às quatro da tarde a minha amiga voltou a espreitar pela janela. O homem continuava imóvel e absorvido em algo invisível.


-         Deixa-o, murmurei, entre os lábios e o filtro do cigarro, já chateado com a atenção que aquele estranho lhe merecia. Porque será que o desconhecido desperta tanto entusiasmo nas mulheres?


         Aconselhei-a mesmo a fechar a janela. Então e a claridade, e o teu ar puro, pareceu-me a desculpa atirada. Sem resposta. Retomei a leitura do meu livro de ficção científica.


         Às cinco e trinta e três da tarde, a minha amiga voltou a espreitar pela janela. O homem continuava imóvel e absorvido em algo de invisível que parecia prostrado em frente dos seus olhos.


-         Estranho, disse, passando na minha frente e sentando-se no sofá a meu lado. Estranho.


Ergui os olhos somente o suficiente para ver o seu pé esquerdo dando voltas sobre o tornozelo e fingi estar dentro do meu livro. Foi então que tive brilhante ideia: voei ao quarto e voltei com o pescoço, abundantemente, enrolado num cascol de lã.


      Sentei-me comodamente e premi um botão sem significado de uma nave inter-estelar. Sorrindo interiormente...

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