segunda-feira, 26 de junho de 2006

O Crocodilo do Costume

  


 


 


          Aspirou profundamente  o fumo do SG filtro semi- destruído. Tudo acabara. Solidão, destino, confusão. Agora era um homem acomodado na vida.


         Pensou nas feridas do longínquo passado, abertas no pensamento.


            Cuspiu - escarrou - O SG filtro destruído na rua, e ficou a mirá-lo pelo canto do olho. Pontapeou- o. Ajeitou a gravata e atirou-se ao seu mundo.


Entrou na cidade de mãos nos bolsos, à antiga, talvez assobiando. À sua passagem um cão, velho e vadio, ladrou e seguiu-o gingando na calçada gasta por burocratas.


          Picou o cartão. Cumprimentou o crocodilo do costume. Nenhum sorriu.


Alguém pusera uma flor na sua secretária. Teve ganas de  espatifar a secretária e o crocodilo. Absteve-se até de se sentar violentamente.


          Estava a mudar de espécie e não sabia voltar atrás. Malditos aminoácidos.


         Ela era uma espécie rara sem indícios de mutação e isso devia-lhe a ele. Dum lado o que se mantinha como a natureza pretendia, do outro a inércia baseada no passado.


          Começara a doer-lhe a cabeça. Sempre lhe doera a cabeça nos momentos difíceis.


         Conhecera-a num festival rock, no Norte. Por ela se arrastou pelo país, bebeu, fumou, esperou, chorou, quase morreu. Sem poder tocar-lhe os cabelos, voltou a metamorfosear-se e deixou-se cair.


A cabeça parecia-lhe  um vulcão prestes a estourar. Oxalá, pensou. Olhou a flor branca. É um crime uma flor branca neste aglomerado de imbecilidades. Tomou-a nos dedos, cheirou-a e por fim pôs-se a mastigá-la  lentamente. Sentiu o sabor e o calor da sua boca ( a dela ).


         O crocodilo do costume contemplava-o através das lentes gastas.


         Entrou a polícia com capacetes até aos pés. Um ar fresco começou a entrar pela janela do 1034º andar. Espreitou até um cavalo cinzento com ar feliz. Levantou-se ( talvez sorrindo ) e atirou-se na brisa, não sem que antes tivesse cumprimentado o crocodilo do costume.

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